A Guarda Costeira dos Estados Unidos vai permitir que um navio-tanque da Rússia carregado de petróleo bruto chegue a Cuba, entregando um suprimento crítico de energia à ilha após meses de um bloqueio efetivo de petróleo pelo governo de Donald Trump, de acordo com um funcionário americano informado sobre o assunto.
O navio-tanque, que transporta cerca de 730 mil barris de petróleo e pertence ao governo russo, entrou na noite deste domingo (29) na zona marítima de cuba, segundo dados de uma provedora de dados marítimos. O navio-tanque pode chegar ao seu destino previsto, Matanzas, em Cuba, até terça-feira (31).
A chegada do navio russo mudaria a trajetória de uma crise que se acelera rapidamente em Cuba, dando à nação insular pelo menos algumas semanas antes que suas reservas de combustível se esgotem, segundo analistas.
Também reduziria a pressão sobre um regime cubano que enfrenta um colapso econômico iminente e ameaças crescentes de Washington, e mostraria que, pelo menos por enquanto, a ilha ainda pode contar com a Rússia, uma aliada de longa data.
O governo Trump vinha aplicando um bloqueio de petróleo ao redor de Cuba desde janeiro, ameaçando nações que enviavam combustível ao país e, em um caso, escoltando um navio-tanque que se dirigia a Cuba para longe da ilha.
Não está claro por que a Casa Branca decidiu agora permitir que a Rússia leve petróleo a Cuba, nem se permitiria futuros carregamentos de petróleo russo chegarem à ilha. A decisão evita um potencial confronto espinhoso com Moscou bem próximo à costa da Flórida.
Os militares americanos reduziram sua grande presença no Caribe desde antes do início da guerra no Irã, mas a Guarda Costeira ainda tem duas embarcações na região que poderiam ter tentado interceptar o navio-tanque. No entanto, o governo Trump não ordenou que essas embarcações agissem, de acordo com um funcionário americano informado sobre o assunto que falou sob condição de anonimato para discutir operações. A Guarda Costeira planejava deixar o navio-tanque chegar a Cuba até a tarde de domingo, disse o funcionário.
A Guarda Costeira encaminhou o pedido de perguntas à Casa Branca, que não respondeu a um pedido de comentário do New York Times. Autoridades russas e cubanas também não responderam.
O bloqueio de petróleo dos EUA vem sufocando Cuba, levando a apagões diários, grave escassez de gasolina, preços disparando e deterioração do atendimento médico. A política atraiu críticas internacionais, inclusive das Nações Unidas, de que os EUA estão causando uma crise humanitária na ilha. Ao mesmo tempo, funcionários da Casa Branca vêm ameaçando publicamente o regime cubano, enquanto o pressionam em particular para que seu líder, Miguel Díaz-Canel, seja removido do posto.
O presidente Trump disse este mês que acreditava que “terá a honra de tomar Cuba” e sugeriu que poderia atacar a ilha com força militar após a guerra no Irã. “Eu construí esse grande Exército”, disse ele em uma conferência de investimentos na sexta-feira. “Eu disse: ‘Vocês nunca terão que usá-lo’. Mas às vezes você tem que usar. E Cuba é a próxima, aliás.”
O secretário de Estado Marco Rubio disse na sexta-feira que a Casa Branca queria novos líderes em Cuba. “A economia de Cuba precisa mudar, e sua economia não pode mudar a menos que seu sistema de governo mude”, disse ele a repórteres.
Autoridades cubanas se mantiveram firmes, dizendo que a nação está preparada para se defender.
“Nosso exército está sempre preparado e, de fato, está se preparando nesses dias para a possibilidade de agressão militar”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, no programa Meet the Press da NBC, na semana passada. “Seríamos ingênuos se, olhando para o que está acontecendo ao redor do mundo, não fizéssemos isso. Mas realmente esperamos que isso não ocorra.”
O petróleo russo pode agora mudar a configuração das tensões entre os países. Cuba estava rapidamente ficando sem suprimentos de energia, dependendo de energia solar, produção doméstica de petróleo e pequenos carregamentos de combustível para empresas cubanas privadas para sustentar uma rede elétrica em colapso. A crise havia levado a pequenos protestos —uma raridade em Cuba— e estava levantando questões sobre como o regime sobreviveria.
Mas o petróleo russo aliviará essa crise, ao menos temporariamente. O petróleo pode ser refinado em vários produtos, incluindo diesel, gasolina, combustível de aviação e óleo combustível, que é usado para alimentar usinas de energia cubanas. Isso deve ajudar a estabilizar a rede elétrica, reduzir apagões, melhorar o transporte e auxiliar a produção agrícola, disse Jorge Piñón, ex-executivo de petróleo que estuda o sistema energético de Cuba na Universidade do Texas.
“Isso lhes dá tempo”, disse Piñón. “Mas não é uma varinha mágica que, de repente, com a chegada deste navio-tanque, todos os problemas estão resolvidos.”
Piñón disse que o petróleo levaria cerca de três semanas para ser refinado em outros produtos e depois mais uma semana para ser distribuído pelo país.
O diesel, disse ele, é o produto mais crítico para Cuba, pois alimenta caminhões, tratores e muitas usinas de energia, e está em falta desesperadora na ilha. Alguma ajuda humanitária ficou presa em armazéns porque os caminhões não têm diesel para distribuí-la, fazendas ficaram paralisadas com tratores sem energia e algumas usinas foram desligadas por falta de combustível.
Cuba manteve as luzes acesas —embora de forma inconsistente— porque 40% de sua rede elétrica é sustentada por usinas que funcionam principalmente com petróleo bruto que Cuba produz domesticamente. Cuba também tem corrido para instalar painéis solares para sustentar a rede. Mas Piñón disse que 40% da rede depende de usinas menores que usam diesel.
Ele estimou que Cuba poderia usar todo o petróleo russo em menos de um mês. Mas esperava que o regime preservasse alguns suprimentos de energia para suas reservas estratégicas e forças de segurança.
“Isso vai dar diesel para a polícia, para as unidades militares, basicamente para todo o aparato do governo cubano”, disse ele.
O navio-tanque russo, chamado Anatoly Kolodkin, partiu de Primorsk, porto russo no mar Báltico, em 9 de março. O governo dos EUA impôs sanções ao navio-tanque e seu proprietário, uma empresa estatal russa de navegação chamada Sovcomflot, em 2024.
O Anatoly Kolodkin inicialmente transmitiu seu destino como “Atlantis, EUA”, uma possível piada. No domingo, estava transmitindo seu destino como Matanzas, Cuba, de acordo com a MarineTraffic.
Carlos Alzugaray, ex-diplomata cubano que vive em Havana, disse que o governo Trump havia montado o bloqueio para tentar estrangular o regime cubano até a submissão, mas que estava demorando mais do que o esperado mesmo antes de o petróleo russo se aproximar.
“Trump e Rubio estão pensando em termos de este governo entrar em colapso por conta própria”, disse ele. “Mas não é assim que o governo cubano vê. O governo cubano está convencido de que pode sobreviver.”




