Durante vários meses no ano passado, Josephine Angev percorreu os caminhos empoeirados das aldeias do estado de Benue, na Nigéria, com a missão de ajudar pessoas que vivem com HIV a continuar tomando sua medicação vital, depois que um congelamento da ajuda dos Estados Unidos, imposto pelo presidente Donald Trump, deixou milhares em busca desesperada por suprimentos.
A mulher de 40 anos é uma das dezenas de “campeãs do HIV” voluntárias que foram de porta em porta para trazer pacientes de volta ao tratamento quando o acesso aos medicamentos antirretrovirais foi interrompido, cuidando daqueles cuja condição ainda pode trazer vergonha e estigma.
Se pessoas vivendo com HIV param de tomar medicamentos antirretrovirais, que suprimem o vírus, ele volta a se multiplicar. Isso as coloca em risco de doenças relacionadas ao HIV em poucos meses e também significa que podem transmitir o vírus para outras pessoas.
Alguns pacientes não percebiam os riscos de parar o tratamento. “Eles não entendem as implicações”, diz Angev.
Como voluntária, ela fez múltiplas visitas a uma mulher de 65 anos que havia parado de tomar a medicação quando seus suprimentos acabaram. Então ela adoeceu. Graças às intervenções, ela voltou a tomar os remédios e está bem.
A história dela é apenas um exemplo de como os pacientes se saíram após os cortes de ajuda que abalaram a resposta global ao HIV em 2025. Outros países ricos se juntaram aos EUA nos cortes de ajuda, forçando um acerto de contas para países que dependiam fortemente dela.
A Nigéria respondeu com um pacote de financiamento de saúde de US$ 200 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) em seis semanas, que incluía o HIV. Paralelamente, o governo dos EUA também emitiu uma isenção para ajuda “vital” em fevereiro de 2025, incluindo antirretrovirais. Mas os voluntários também preencheram as lacunas.
Dinah Adaga coordena os voluntários no estado de Benue. “Se não conseguíamos falar com alguém por telefone, íamos até a casa da pessoa, rastreávamos o endereço e batíamos na porta”, diz.
Uma mãe de 41 anos disse que ficou desesperada ao saber dos cortes de ajuda, temendo que os medicamentos se tornassem inacessíveis. Voluntários a ajudaram a voltar ao tratamento em novembro passado.
“Esses remédios significam muito para mim. Meu futuro depende deles. Tenho três filhas, e todas estão bem. Todas são HIVs negativas. Eu sou a única positiva. Então acredito que os remédios foram realmente feitos para pessoas como eu”, relata
Fim abrupto da ajuda dos EUA trouxe meses de interrupção
A pausa de 90 dias do presidente Donald Trump na ajuda externa em 20 de janeiro de 2025 teve repercussões imediatas na Nigéria.
Os EUA pagavam cerca de 90% dos custos do tratamento de HIV da Nigéria e financiavam profissionais de saúde. Nos meses seguintes, pacientes e grupos de ajuda disseram que a distribuição de medicamentos entrou em colapso.
Pacientes só conseguiam obter suprimentos para uma ou duas semanas, em vez de seis meses, nas principais clínicas. Na capital de Benue, Makurdi, todos os 10 centros de tratamento fecharam por um mês, e a OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou que os medicamentos poderiam acabar.
Um pequeno exército de voluntários entrou em ação, parte da rede de apoio comunitário Afrocab uma organização sem fins lucrativos presente em todo o continente. Eles conectaram pessoas a centros de atendimento assim que reabriram com novo financiamento e combateram a desinformação que havia se espalhado sobre “curas” por oração, por exemplo. Convenceram gestantes a voltar ao pré-natal para proteger seus bebês.
Os voluntários trouxeram mais de 1.000 pessoas em Benue, incluindo 95 crianças menores de cinco anos, de volta ao tratamento entre junho e dezembro de 2025 —todos pacientes que, segundo estimam, haviam interrompido o tratamento em fevereiro e março devido aos cortes de ajuda.
“Não recebemos relatos de pessoas morrendo por não terem acesso aos antirretrovirais… Isso, para nós, é um bom sinal”, diz Krittayawan Boonto, diretora do Unaids na Nigéria.
Mais pessoas agora em tratamento
Na Nigéria, cerca de 2 milhões de pessoas vivem com HIV, um dos maiores números do mundo. Benue, um estado de 4,25 milhões de habitantes, tem pouco mais de 200 mil pessoas em tratamento, segundo estimativas da Afrocab.
Imediatamente após o congelamento da ajuda, um rastreador do Unaids sugeriu que 200 mil nigerianos a menos estavam recebendo tratamento. Mas até o final de 2025, os dados mostravam 1,7 milhão de pessoas em tratamento, um leve aumento em relação aos 1,6 milhão de 2024.
Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA diz que o número de pessoas recebendo medicamentos era “muito semelhante” no final de 2025 ao de 2024.
“A narrativa sugerindo perda generalizada de tratamento de HIV… é imprecisa, enganosa e irresponsável”, diz.
O governo da Nigéria não respondeu aos pedidos de comentário.
Prevenção foi mais afetada
Agências globais de saúde e o governo nigeriano alertaram que os serviços de prevenção do HIV foram mais afetados e por mais tempo.
Bright Oniovokukor, coordenador da Sociedade Civil para HIV/Aids na Nigéria, diz que o número de pessoas acessando medicamentos para prevenir a infecção pelo HIV caiu de 43 mil em novembro de 2024 para menos de 6.000 em abril de 2025, e a distribuição de preservativos caiu 55%.
As coisas melhoraram desde então, mas qualquer lacuna na prevenção levará a mais casos, afirma Oluwafunke Odunlade, chefe da unidade de HIV da OMS na Nigéria. Os testes também foram afetados, o que significa que casos podem ter passado despercebidos: números preliminares mostraram que mais de um milhão de pessoas a menos foram testadas para HIV em 2025 do que em 2024.
Hoje, os EUA e a Nigéria estão definindo os detalhes de um acordo de saúde para 2026-2030 assinado em dezembro, pelo qual os EUA contribuirão com US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,9 bilhões) e a Nigéria com US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15,6 bilhões). O acordo prioriza a resposta ao HIV e se compromete a colocar mais pacientes em programas de tratamento, com a Nigéria assumindo o financiamento integral nos próximos cinco anos.
Os EUA dizem que apenas trabalhadores “formalmente reconhecidos dentro das estruturas governamentais” serão financiados, e o acordo coloca “forte ênfase em prestadores de saúde de base cristã”, parte de um esforço mais amplo dos EUA para apoiar a população cristã da Nigéria, que tem sido ameaçada pela violência islamista.
Em Benue, Angev continuará como voluntária. “Pode ser exaustivo, mas fazemos isso para que vidas que poderiam ter sido perdidas sejam restauradas. E quando você as vê vivendo vidas melhores e verdadeiramente transformadas, é aí que você se sente feliz”, diz.




