Quem observa as campanhas presidenciais americanas nota como o resto do mundo é relegado a tema menor nos debates entre candidatos. Considerando o poder global exercido pelos Estados Unidos no último século, a maioria do público expressa pouco interesse por relações internacionais.
Antes da guerra contra o Irã, apenas 2% dos adultos americanos responderam que política externa era a questão de maior importância. Após o ataque de 28 de fevereiro, a mesma pesquisa registrou um salto modesto para 5%.
A ação militar na Venezuela, embora impopular nas pesquisas, não afetou o cotidiano dos americanos. Mas o ataque ao Irã mexe com o bolso e a estabilidade econômica de todos graças à alta imediata na gasolina e no diesel e ao abalo que vai causar em cadeias de produção industrial e agrícola, com eventuais disparadas em preços de remédios e fertilizantes.
Este cenário torna difícil compreender por que um presidente, depois de sobreviver a condenações na Justiça e recapturar a Casa Branca sobretudo graças à insatisfação com o custo de vida, tem dobrado a aposta em incursões militares que, até o eleitor desinformado sabe, não lhe oferecem qualquer benefício.
Como explicar que, em plena operação militar confusa, rejeitada por sólida maioria dos americanos, o presidente ainda encontra tempo para anunciar próximas atrações em Cuba?
Desde a Guerra Civil, nenhuma campanha militar traumatizou os EUA como o conflito no Vietnã. A guerra matou 58 mil soldados americanos e cerca de 3 milhões de civis e militares vietnamitas. Na vasta autópsia literária produzida sobre a debacle, ficou claro como a ignorância não admitida por líderes arrogantes determinou, desde o começo, o desfecho de fracasso militar e político.
Ficou patente também que a incursão no sudeste da Ásia foi conduzida por uma elite do establishment, civis e militares que acumulavam estrelas, medalhas e diplomas.
Eles são lembrados como os “melhores e mais brilhantes”, como no título de “The Best and the Brightest”, o livro seminal de David Halberstam, que havia documentado a guerra para o jornal The New York Times. Não é possível aplicar o mesmo apelido aos condutores da guerra contra o Irã, especialmente com um governo federal esvaziado de cérebros por milhares de demissões em 2025.
Quando os americanos pensam em política externa, sua prioridade é segurança nacional, uma combinação de temor da proliferação nuclear e preocupação em deter o terrorismo, de acordo com uma nova pesquisa do Instituto Gallup. E, apesar da extraordinária hostilidade aos aliados europeus expressada por Donald Trump, dois terços dos consultados na pesquisa declaram apoio a organizações multilaterais como a Otan.
Com exceção de um período curto logo após o 11 de setembro de 2001, quando o público deu a George Bush filho uma aprovação de 92%, nenhum presidente americano passa de 80% nas avaliações positivas há 35 anos.
Bush pai chegou a 89% de aprovação quando invadiu o Iraque, em 1991, para libertar o Kuwait de Saddam Hussein. Obteve uma vitória rápida e bateu em retirada, sem devaneios de mudança de regime. Um ano depois, o presidente perdeu a disputa pela reeleição para Bill Clinton, o democrata do slogan “é a economia, estúpido.”
Uma pesquisa sobre a confiança do consumidor americano mostrou que, em março, ela caiu abaixo do nível registrado após o crash de 2008.




