“Ninguém pode manter um governo por 67 anos. E sem as pessoas poderem dizer o que pensam.” Evelyn estava incomodada com meu texto anterior, em que tratei da escassez e do colapso recente da infraestrutura em Cuba, atribuindo todo peso ao embargo norte-americano. “Faz 67 anos que vivemos uma ditadura, que nada tem a ver com os Estados Unidos“, insistiu mais de uma vez.
O apartamento em Havana onde a conheci, “maravilhoso” também em suas palavras, foi construído ao longo de 12 anos pelos pais, fora do horário de trabalho. O pai era funcionário de uma empresa inglesa e a mãe, de um órgão estatal de habitação.
Evelyn cresceu na combinação de esforço familiar e política pública, uma síntese concreta do projeto que, por décadas, ampliou acesso à moradia, educação e saúde. Mas que não alcançou toda a população. “A minha realidade é diferente da maioria da população cubana. Há casas de 25 metros quadrados onde vivem 15 pessoas “, afirma.
Na memória de sua família, a Revolução de 1959 não é abstração ideológica. É experiência vivida. Sua avó, analfabeta, passou a acessar direitos básicos. Seus pais ascenderam. Sua infância, ainda que marcada por ausências e sacrifícios, foi melhor do que a de muitos.
Mas o passado não sustenta o presente.
“Hoje é pior do que nos anos 90”, diz. “Antes a gente não via o mundo. Agora vê, e falta quase tudo.”
Desde 2021, Cuba vive um dos maiores fluxos migratórios de sua história recente. Centenas de milhares de pessoas deixaram a ilha. Evelyn foi uma delas. Em 2022, decidiu vir para o Brasil. Cruzou a Amazônia com um coiote e atravessou outros dois biomas até chegar a São Paulo. Trabalhou informalmente em uma padaria.
O salário mal cobria aluguel e comida. A escola pública para a filha era precária. O acesso à saúde, incerto.
Pouco mais de um ano depois, decidiu voltar. Lembro de ouvi-la presencialmente em Havana, em 2024, dizendo que a vida em São Paulo era ainda pior do que a vida antes de migrar.
O embargo imposto pelos EUA restringe o acesso a quase tudo. Mas Evelyn é enfática ao não aceitar que essa seja a única motivação para a crise do país. “Não dá para explicar tudo pelo embargo. Há um problema interno, de como os recursos foram usados ao longo dos anos.”
As palavras e a própria trajetória de Evelyn expõem o limite das leituras simplificadas sobre a ilha. Para ela, sair não resolveu os problemas de acesso, oportunidade e futuro. Voltar, tampouco.
As poucas palavras que ouvi dela sobre política são reveladoras de sua percepção. “Em Cuba, discordar não é uma questão política.” A frase permite ver o ambiente de baixa tolerância à dissidência, com restrições à expressão pública e repressão a protestos, o que está amplamente registrado, especialmente depois das manifestações de 2021.
“O tema Fidel é como religião. Você acredita ou não. Mas o que vivemos hoje não é o que foi prometido.”
Evelyn me parece habitar e expressar a tensão atual de Cuba. Reconhece os ganhos de um projeto que produziu mobilidade para sua família, mas aponta os muitos limites atuais.
Entre a promessa e a realidade que a fez partir, mas também voltar, Evelyn desmonta dois lugares-comuns tão repetidos, o de Cuba como exceção bem-sucedida e o da migração como solução automática porque a vida seria melhor fora de Cuba.




