O mundo está em suspense.
Num minuto, o presidente Donald Trump diz que a guerra no Irã está quase acabando. No minuto seguinte, diz que vai continuar por semanas. Ele se gaba de que o Irã foi “eviscerado” —mas depois promete que os combates vão prosseguir. Um grande bombardeio, segundo ele, pode começar em cinco dias, ou 10 dias, ou na terça-feira às 21h em ponto, horário de Brasília.
Se o presidente está falando sério, o mundo pode estar a cerca de 24 horas de uma escalada devastadora na guerra. Mas, como o produtor de uma série de TV cheia de suspense, Trump parece determinado a manter todos desprevenidos.
Nisso, pelo menos, ele está tendo sucesso.
Em capitais ao redor do mundo, presidentes e primeiros-ministros passaram quase seis semanas buscando uma forma de impedir que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã saia do controle. Diplomatas de mais de 40 países se reuniram em uma videoconferência na quinta-feira (2) que terminou com poucas propostas concretas. Líderes de Europa, Ásia e outras regiões estão exasperados, irritados e bastante assustados com o que pode estar por vir.
Em uma reunião de emergência do gabinete na segunda (6), o presidente Lee Jae-Myung, da Coreia do Sul, alertou: “As cicatrizes da guerra devem persistir por muito tempo”. Em uma mensagem de Páscoa, Lee lamentou: “A ordem de paz e prosperidade que sustentou o mundo está enfraquecendo”.
No Japão, um país profundamente dependente de importações de petróleo do Oriente Médio, a primeira-ministra Sanae Takaichi disse na segunda que buscaria conversas diretas com o governo iraniano já na quarta (8). Na França, o presidente Emmanuel Macron reclamou na semana passada dos comentários constantemente mutáveis de Trump, dizendo que pessoas sérias “não dizem todos os dias o oposto do que disseram no dia anterior”.
Trump e seus assessores há muito se gabam de que a imprevisibilidade é uma força no cenário mundial. Durante seu primeiro mandato, Trump ameaçou desencadear “fogo e fúria como o mundo nunca viu” contra a Coreia do Norte, mas depois declarou que “se apaixonou” por seu ditador, Kim Jong Un, a quem chamou de “um cara inteligente”.
Mesmo conhecendo o histórico errático de Trump, sua condução da guerra no Irã tem abalado seus homólogos com uma série de declarações contraditórias, sem pé nem cabeça, sobre como a guerra pode terminar.
Na quarta (1º), em um discurso à nação, Trump efetivamente declarou o Irã derrotado. “A Marinha deles acabou, a Força Aérea deles acabou”, disse ele, acrescentando: “Os mísseis deles estão praticamente esgotados ou destruídos”. O Irã “não tem equipamento antiaéreo”, afirmou, com um sistema de radar que está “100% aniquilado”.
Dois dias depois, o Irã abateu dois aviões militares americanos.
Em seu discurso de quarta-feira, Trump pareceu despreocupado com o fechamento do estreito de Hormuz, dizendo: “Quando este conflito acabar, o estreito vai se abrir naturalmente. Vai simplesmente se abrir naturalmente”.
Mas no domingo, em uma postagem de 44 palavras repleta de palavrões nas redes sociais, Trump prometeu bombardear as usinas de energia e pontes do Irã —ataques que normalmente constituiriam crimes de guerra sob o direito internacional— a menos que os “malditos loucos” abram “a porra do estreito” para a navegação internacional até terça-feira.
“Vocês vão viver no inferno —AGUARDEM!”, escreveu Trump.
As ameaças não caíram bem para alguns líderes. António Costa, presidente do Conselho Europeu, que define a direção política da União Europeia, emitiu uma reprovação incomumente clara aos Estados Unidos sobre o Irã.
“Qualquer ataque a infraestrutura civil, [como] instalações de energia, é ilegal e inaceitável”, escreveu Costa nas redes sociais. “A escalada não vai alcançar um cessar-fogo e a paz.”
Horas após sua ameaça, Trump sugeriu que as negociações com o Irã estavam em andamento, dizendo ao Axios: “Se eles não fizerem um acordo, vou explodir tudo por lá”. Em uma entrevista ao Wall Street Journal, Trump disse que bombardearia “todas as usinas de energia e todas as outras instalações que eles têm no país inteiro” se o Irã se recusasse a abrir o estreito.
O Irã respondeu prometendo operações de retaliação que seriam “realizadas de forma muito mais esmagadora e extensa”, segundo um comunicado publicado pela agência de notícias semioficial Mehr News Agency.
Na manhã de segunda-feira, surgiram relatos de que autoridades do Paquistão haviam enviado aos EUA e ao Irã uma proposta de cessar-fogo de 45 dias e reabertura do estreito de Hormuz. Não houve resposta imediata de nenhum dos países.
A incerteza dificulta que líderes globais planejem o que fazer quando os combates cessarem.
Na reunião de diplomatas de quinta-feira, convocada pelo Reino Unido, os enviados discutiram como mitigar os choques econômicos causados pela interrupção dos embarques de energia pelo estreito.
Em um comunicado após a reunião a portas fechadas, a secretária de Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, declarou que o Irã não deve prevalecer ao tentar “manter a economia global refém no estreito de Hormuz”. Mas muitos líderes globais descartaram explicitamente se envolver militarmente na guerra. O comunicado de Cooper não ofereceu medidas práticas além de “pressão diplomática” e “medidas econômicas e políticas coordenadas” para liberar novamente a navegação internacional.
Usando a linguagem frequentemente ambígua dos diplomatas, seu comunicado prometeu apenas “dar continuidade a novas discussões”.
Nos dias seguintes, o primeiro-ministro Keir Starmer, do Reino Unido, conversou com os líderes de Alemanha, Itália, Kuwait, Ucrânia, União Europeia e Otan. As notas oficiais do governo britânico de todas essas conversas concluíram de maneira semelhante.
“O primeiro-ministro e o príncipe herdeiro saudaram a reunião convocada pela secretária de Relações Exteriores ontem sobre um plano viável para reabrir o estreito”, disse um comunicado à imprensa sobre a ligação entre Starmer e o príncipe herdeiro do Kuwait. “Eles concordaram em continuar trabalhando juntos nisso e manter contato próximo nas próximas semanas.”




