‘Garota de Ninguém’ detalha horrores da rede de Epstein – 07/04/2026 – Mundo

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“Garota de Ninguém” é um livro póstumo. Virginia Roberts Giuffre, sua protagonista, foi encontrada morta no dia 25 de abril de 2025, meses antes de lançá-lo. Saber disso de cara faz da experiência de leitura algo um tanto melancólico, quase profético.

Nessa autobiografia, coescrita com a jornalista Amy Wallace e publicada agora em português pela Objetiva, Virginia faz um inventário de violências. E elas começam cedo. “Na minha infância”, conta, “sofri quase todos os tipos de abuso: incesto, negligência parental, punições corporais severas, assédio sexual, estupro“.

E então seu caminho se cruzou com os de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. “Esses dois dobraram o meu sofrimento. Durante os anos que passei com eles, eles me emprestaram para muitas pessoas ricas e poderosas. Eu costumava ser usada e humilhada… E, em algumas ocasiões, sufocada, espancada e deixada ensanguentada. Eu acreditava que morreria como escrava sexual.”

Para o grande público, Virginia é a adolescente que sorri para a câmera, com seu top rosa e seu jeans estilizado com detalhes dessa mesma cor. Príncipe Andrew a abraça pela cintura. Maxwell está ao lado, também sorridente. É uma das fotos mais conhecidas dela. Foi Epstein quem a tirou.

Anos depois, e ficamos assim: Virginia e Epstein se mataram, ela em casa, ele na prisão; Maxwell, a ex-namorada e cúmplice do financista, está presa; e Andrew, irmão mais novo do rei Charles 3º, perdeu o título real. É oficialmente um ex-príncipe.

A semanas do suicídio, Virginia pediu que Wallace lançasse “Garota de Ninguém” mesmo se ela morresse. “Acredito que ele tem o potencial de impactar muitas vidas”, disse à colaboradora. Em dado momento, ela afirma que não tinha voz alguma “quando era uma escrava sexual”, e bastava disso. “Prometi a mim mesma que nunca mais ficaria sem voz.”

Enquanto estava viva, contudo, nem sempre conseguiu se fazer ouvir. Em 2015, o New York Daily News publicou na manchete: “Acusadora de Jeffrey Epstein não era escrava sexual, mas uma gatinha sexual ávida por dinheiro, dizem amigos antigos”. O texto descrevia Virginia como “a principal puta” do bilionário americano acusado de comandar uma rede de exploração sexual.

Não importa se ela era uma adolescente entre alguns dos homens mais ricos do planeta. Siga o dinheiro! Claro que ela só podia estar atrás disso. É o que o tabloide insinuava, e com o que muitos dos seus leitores concordavam. Mais uma vez a suspeita recai sobre a mulher que denuncia, e não sobre quem tem poder, sobrenome e bons advogados para demolir a credibilidade da vítima.

O que não faltam são poderosos a cruzar seu caminho, inclusive o atual e um ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e Bill Clinton. Virginia recorda seu primeiro dia em Mar-a-Lago, resort de luxo de Trump na Flórida, onde o pai trabalhava na manutenção de aparelhos de ar-condicionado e quadras de tênis de saibro.

Aos 16 anos, ela passou a dar expediente lá. O uniforme era uma camisa polo e uma saia branca curta. O pai a levou para conhecer o “sr. Trump”. Em Mar-a-Lago, ela conheceu a socialite Ghislaine Maxwell.

Virginia a descreve como uma “predadora”. Nas páginas seguintes, detalha o dia a dia sob domínio de Maxwell e Epstein, como a manhã de 10 de março de 2001, quando, conforme conta, a socialite a acordou, cantarolando: “Saia da cama, dorminhoca!”.

Disse que, assim como Cinderela, a jovem conheceria “um belo príncipe”. Era Andrew, o filho da rainha Elizabeth 2ª. Naquele dia, as duas passaram o dia fazendo compras. Ganhou uma bolsa cara da Burberry e três roupas diferentes.

Não havia nada de conto de fadas na rotina de brinquedinho sexual de Epstein e seus amigos. Omitindo nomes, Virginia afirma que recebeu ordens para levar um “primeiro-ministro conhecido” a uma cabana na ilha de Epstein no Caribe. Relata que foi sufocada até perder a consciência por um homem que “ria ao me machucar e ficava mais excitado quando eu implorava para ele parar”.

Saiu de lá “com a boca, a vagina e o ânus sangrando”, diz. Depois implorou “de joelhos” para não ter de encontrar de novo com o tal primeiro-ministro. Epstein “comentou com frieza” que episódios do tipo iriam “acontecer às vezes”, ela rememora.

Há espaço para sentimentos confusos que atingem vítimas de abusos afins. Virginia não tem medo de encará-los. Conta que havia tanto estímulo de brinquedos sexuais, sobretudo durante orgias organizadas por Epstein, que às vezes ela tinha um orgasmo. “Significava que eu era uma participante disposta?”, questiona-se. “Desconfiava que sim, e isso só aumentava o nojo que sentia de mim mesma.”

A obra decepciona quem a lê atrás de fofocas e nomes graúdos inéditos em um dos maiores esquemas de abuso sexual do século 21. Não há novos fatos relevantes. É justamente daí que ela tira sua força: ao deslocar o foco do escândalo para a estrutura que permitiu que ele acontecesse em primeiro lugar.

Mais do que reconstituir encontros com pessoas tão influentes, Virginia expõe o ecossistema que os tornou possíveis e, por tanto tempo, impunes.

Em “Triste Tigre“, ensaio autobiográfico devastador sobre o abuso sexual que sofreu de seu padrasto, a romancista francesa Neige Sinno diz que, como tantos sobreviventes desse mal, também ela não sente “esse maldito sentimento de final feliz”. Até porque, “enquanto uma criança deste mundo estiver a viver isto, nunca terá acabado, para nenhum de nós”. Para Sinno, porém, só de conseguir falar do trauma “é porque já fomos, em parte, salvos”.

Virginia está morta. Não seria responsável cravar o que a levou ao suicídio, fenômeno sempre multifatorial. O que sabemos é que seu casamento também foi envelopado por violência doméstica, e que, semanas antes de sua morte, o marido havia obtido uma medida restritiva que a impedia de ver os três filhos adolescentes deles.

Essa trama paralela, exposta por sua coautora, torna o fim do livro agridoce, com Virginia apostando que seria feliz na fazenda que ela e o marido compraram, onde já tinham três ovelhas e três colmeias de abelhas. Foi encontrada morta ali, aos 41 anos.

A “garota de ninguém” foi em parte salva, no entanto, ainda que seu desfecho seja trágico. No livro, ela credita à filha Ellie sua força para interromper o ciclo de silêncio. Virginia diz que, ao olhar para “a adolescente mais corajosa do mundo”, percebe que não pode mais “ficar sem voz”.

Sua autobiografia é difícil de ler, como aqueles filmes de horror para o qual viramos o rosto nas cenas mais perturbadoras. É bem escrita, ainda que sem maior mérito literário. Funciona melhor como um documento incômodo sobre como instituições e elite podem convergir para produzir e encobrir violência.



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