No intuito de eliminar a ameaça do terrorismo islâmico, estamos vendo algumas das cenas mais dantescas das últimas décadas. Durante dois anos Gaza foi impiedosamente bombardeada. Cerca de 70 mil pessoas morreram, a esmagadora maioria civis. Agora, a mesma lógica militar se estende ao Irã e ao Líbano, cujas capitais exemplificam o desastre humanitário que toma proporções alarmantes. Chama a atenção a passividade com que olhamos para essas cenas. Há de se perguntar se estamos anestesiados diante de desastres dessa magnitude.
Certamente a questão é complexa. Em publicação recente, o New York Times resume a ameaça que o regime dos aiatolás representa: o governo do Irã “é claramente perigoso, tendo passado décadas oprimindo o seu próprio povo, patrocinando o terrorismo, tentando destruir Israel, transformando o Líbano em um Estado falido, protegendo um regime horrível na Síria e desenvolvendo um programa nuclear.” As minorias são cruelmente perseguidas e os cristãos, constantemente condenados à prisão ou à pena de morte.
A questão, portanto, não é se o governo iraniano ou seus aliados, como o Hezbollah e o Hamas, constituem uma ameaça. Obviamente o são. Mas a pergunta central é se lançar milhares de toneladas de bombas sobre populações civis resolverá a ameaça terrorista. As potências ocidentais matam exponencialmente mais do que os próprios terroristas —e, apesar disso, o ímpeto dos grupos radicais arrefece por um período, eles se reagrupam e voltam à tona com força.
O Afeganistão é um caso emblemático. Foi o conflito mais caro e mais longo da história dos Estados Unidos. O custo humano foi altíssimo: mais de 2.000 militares norte-americanos e 450 britânicos mortos, mais de 60 mil mortes entre as forças afegãs e mais de 100 mil civis. No entanto, de maneira quase concomitante à retirada das últimas tropas, o Talibã reconquistava Cabul e voltava a impor a doutrina radical islâmica.
O egípcio Sayyid Qutb, descrito pelo acadêmico John Esposito como o pai da jihad militante, defendia em seu livro “Milestones” que, para o islã radical, a pátria do muçulmano não é um pedaço de terra —sua nacionalidade não é determinada por um governo, sua bandeira não é a de um país. O que importa é a convicção de que seus atos contribuirão para estabelecer o domínio de Alá sobre toda a terra. É uma questão ideologizada, impulsionada por elementos de fé, que extrapola o racional. Por isso, como a fênix, essa ideologia continua renascendo das cinzas.
Estudos indicam que a vasta maioria dos muçulmanos rejeita a ideologia jihadista militante. Essa maioria define seu modo de vida não pelos chamados versículos da espada, mas por passagens como a Sura 5.8: “que o ódio de um povo não vos leve a ser injustos. Sede justos; isso está mais próximo da piedade”.
Se as bombas não estão solucionando o problema e a vasta maioria dos muçulmanos prefere viver em paz, qual seria o caminho? Muito depende dos governos ocidentais e dos países muçulmanos. Mas em nível pessoal, um bom começo seria que, dentro de nossa área de influência, nos esforçássemos para olhar para o muçulmano enquanto ser humano —tal qual você e eu, criado à imagem e semelhança de Deus.
Deveríamos também convencer nossos políticos, líderes cristãos, igrejas e amigos de que, “se for possível, na medida em que depender de vocês, vivam em paz com todos” (Romanos 12.18). Assim estaríamos contribuindo para diminuir a animosidade em relação ao muçulmano e criando condições para que pequenas mudanças ocorressem —até que as altas esferas políticas percebam a inutilidade de tentar vencer uma ideia pela força. A história mostra que, com frequência, uma ideia só é derrotada quando outra melhor é proposta.




