Nos sentimos reduzidos a animais, dizem iranianos nos EUA – 07/04/2026 – Mundo

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Iranianos que moram nos Estados Unidos vivem dias de angústia diante da escalada do conflito no Oriente Médio. À distância, acompanham bombardeios, ameaças e, sobretudo, a dificuldade de manter contato com familiares em meio a cortes de internet e risco de colapso de serviços básicos.

“É o nosso dinheiro que está sendo usado para matar o nosso povo”, afirma Samira Sahebi, 57, que vive em Portland. Questionada como se sente quando ouve o presidente Donald Trump declarar que vai dizimar o país em que ainda mantém familiares, ela responde: “Nos sentimos reduzidos a animais. Acho que os cães estão sendo tratados melhor do que os imigrantes”.

“Há uma absoluta falta de respeito pela vida humana e pelas regras da lei, como as regras internacionais de combate e guerra. É de partir o coração ver a falta de humanidade nisso”, afirma Sahebi.

Ela, assim como outros dois iranianos ouvidos pela Folha, faz parte do movimento Free Iran (Liberdade pelo Irã, em inglês). Segundo eles, o grupo surgiu em 2022 com objetivo de ser a voz do povo iraniano e denunciar violações de direitos humanos.

“Não temos nenhuma afiliação com partidos políticos, grupos de oposição ou algo do tipo”, diz Sahebi. Assim, é comum que dentro do próprio coletivo haja divergências políticas em meio a guerra, já que o único consenso é ser contra o regime teocrático.

Morando nos EUA desde a adolescência, ela expressa revolta com a escalada de ameaças por parte de Trump ao país persa —ao mesmo tempo em que rejeita o regime iraniano e relata sentimento de medo e impotência em meio às ameaças de Trump.

Após falar em acabar com o país, o republicano voltou atrás na noite de terça-feira (7) e anunciou um cessar-fogo de duas semanas.

Antes disso, os iranianos ouvidos pela reportagem relataram que, com a falta de acesso estável à internet, familiares no Irã recorrem a ligações esporádicas, muitas vezes para se despedir. “Recebi uma chamada antes de entrar nesta conversa. Era basicamente um adeus”, conta Sahebi. “Eles dizem para não nos preocuparmos, mas são eles que deveriam ser consolados.”

Desde o início dos ataques, em fevereiro, a comunidade iraniana —dentro e fora do país— se divide. Segundo os entrevistados, houve quem visse na ofensiva uma oportunidade de enfraquecer o regime.

Para eles, o cenário atual fortalece setores mais radicais dentro do Irã. “A guerra não vai resolver. Até a morte do líder supremo [Ali Khamenei], que muitas pessoas celebraram, eu não celebrei”, diz Mehra Rezvan, 37. “Ele era velho, estava doente e provavelmente morreria em breve. O que fizeram foi transformá-lo em mártir. Isso acabou servindo como combustível para extremistas no Irã fazerem exatamente o que quisessem. E a substituição dele foi um ponto de virada no país.”

“Eu realmente não acho que algo positivo pode sair disso. Antes disso, as pessoas ainda tinham alguma margem para agir; agora, não têm mais”, diz Reznan.

Entre as alternativas, defendem negociação, reparações e garantias mínimas de direitos humanos. Também pedem medidas práticas, como o restabelecimento do acesso à internet no país para que a população possa se informar e se comunicar. “Sem isso, as pessoas ficam completamente isoladas, sem saber nem mesmo onde haverá ataques”, diz Saeed Taheri, 37.

A distância não reduz o impacto emocional. Muitos deixaram o Irã por perseguição política ou falta de perspectivas, mas mantêm laços estreitos com familiares. “Todos nós fomos, de alguma forma, forçados a sair”, afirma Taheri, que chegou nos Estados Unidos após ser perseguido por atuar como ativista estudantil durante a faculdade. “Fui preso e impedido de estudar no Irã”, afirma.

Mais cedo, conseguiu conversar com a mãe pelo telefone. “Foi uma conversa muito difícil. Eles mandam mensagens dizendo que estão bem, mas estão se preparando para ficar sem água e energia. É muito duro”, afirma ele, emocionado. Hoje, acompanham de longe um cenário que mistura medo, incerteza e frustração.

Os entrevistados defendem mudanças no Irã, mas rejeitam a guerra e afirmam que o conflito aprofunda o sofrimento da população civil. “Somos contra o regime, mas não sentimos que a guerra seja o caminho para alcançar isso”, diz Sahebi.



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