Se os 2.500 anos de civilização persa não foram apagados em quatro horas como Donald Trump havia prometido, o presidente americano conseguiu promover um estrago irremediável no legado dos 250 anos de presença dos Estados Unidos no palco global.
Washington nunca foi uma força benigna, como suas guerras provaram, com a exceção devidamente manicurada pela ótica do vencedor nos dois conflitos mundiais.
Mas a aventura de Trump no Irã provoca um abalo sísmico na imagem dos EUA como centro de gravidade responsável na política global. Adversários, China à frente, tomaram nota da agressividade do americano ante seus próprios rivais e sua falta de confiabilidade para com os aliados.
Sorri Vladimir Putin, ao menos por ora, ao ver um dos pilares de sua política externa desde os anos 2000, o desmonte da aliança euroatlântica, se acelerar: Trump alienou os parceiros e depois os cobrou por não ajudar na guerra que não declararam.
O republicano foi à batalha sem um plano senão o voluntarismo, para não citar a adoção de metas mais imediatas de Israel sob Binyamin Netanyahu. Seu cessar-fogo após cinco semanas de combates é naturalmente bem-vindo, mas nada sugere a solução das questões alegadas como “casus belli”.
A teocracia iraniana vivia seu momento mais enfraquecido desde 1979 quando as bombas caíram e, no médio prazo, pode até ruir. Mas a campanha militar e a ameaça desassombrada de um genocídio por Trump fortaleceram a sobrevivência do que sobrou do regime de forma mais imediata.
Os 441 kg de urânio enriquecido a 60%, cujo uso militar possível era talvez o mais sólido argumento para um conflito, seguem em algum buraco no Irã. O estreito de Hormuz poderá ser reaberto, mas o que era uma via livre agora provavelmente terá uma cabine de pedágio iraniana e omani em cada costa.
Trump até mencionou como base das negociações agora um programa de dez pontos que soa como vitória estratégica para o Irã, incluindo o pagamento de reparações pelos danos da guerra. Soa como desespero para o público interno e o externo, este horrorizado com a ameaça existencial ao povo iraniano.
O presidente americano é um dos poucos homens que pode de fato apagar um país, dono do segundo maior arsenal de armas nucleares do planeta. A trivialização da bravata tem consequências.
Ao longo do conflito no Oriente Médio, adotou seu manual de conduta empresarial, “A Arte da Negociação”, para lidar com vidas humanas sob fogo. O resultado foi a sucessão de ultimatos e adiamentos, na crença de que o inimigo iria ceder em condições favoráveis a Washington.
Por evidente, o regime de Teerã não tem nada a comemorar a não ser a sobrevivência. Sua liderança foi decapitada, e houve uma degradação presumivelmente enorme de suas capacidades ofensivas. Isso para não falar no custo humano e material.
Esse cenário acaba, contudo, ofuscado pelas duas vantagens táticas dos iranianos na guerra. A geografia lhe permitiu manter Hormuz fechado apesar do assalto que sofria, e o emprego inteligente de uma força de retaliação que não havia mostrado a cara na guerra de 2025 com Israel.
No médio prazo, por outro lado, isso asseverou a posição de Teerã como uma ameaça a seus vizinhos. Se o sonho de Trump de ver Israel e a Arábia Saudita assinando a paz pode não se concretizar, a animosidade comprada pelos iranianos no golfo Pérsico renderá um rearranjo geopolítico certo.
Não deixa de ser irônico que a crise, nascida há 47 anos, ganhou o contorno atual graças a um aliado da teocracia, o Hamas. Foi o ataque do grupo terrorista palestino ao Estado judeu em 2023 que disparou os sortilégios em curso.
A conta está na mesa de Trump, que agora tenta fingir que ela está paga. As duas semanas de cessar-fogo não são suficientes para resolver todas as pendências à mesa, para não falar na questão do Líbano.
Temendo o julgamento dos mercados, ansiosos com a bagunça deixada pela guerra, e o de seu eleitor fiel que acreditou no fim do militarismo que prometia, Trump agora tenta se descolar do estrago. Não soa como provável.




