O primeiro dia do cessar-fogo na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã foi marcado por desconfiança geral entre os rivais e pela ameaça da teocracia de deixar a trégua de duas semanas para negociações devido à continuidade dos ataques do Estado judeu a seu aliado libanês Hezbollah.
Com isso, diz a agência Fars, um número incerto de petroleiros já foi parado no estreito de Hormuz, cuja a mínima reabertura registrada nesta quarta-feira (8) está no centro do acordo anunciado na véspera por Donald Trump. Ainda não está claro o escopo desta ação, mas ela mostra as dificuldades em campo.
Israel não só deixou sua operação militar no Líbano fora da trégua como promoveu o maior ataque a instalações do grupo protegido de Teerã no vizinho nesta. Tel Aviv foi apoiada pelos EUA: a Casa Branca disse ao site Axios que aquela frente da guerra não está contemplada pelo acordo.
O regime islâmico também manteve ataques contra seus vizinhos árabes no golfo Pérsico após o cessar-fogo, que ocorreu pouco mais de uma hora antes do prazo que havia sido dado por Donald Trump para um acordo que reabrisse o estreito de Hormuz, na noite de terça-feira (7).
Houve lançamentos contra o Kuwait, considerados pelo governo como violentos, o Qatar, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, que registraram 17 mísseis e 35 drones contra seu território —o país foi o mais atingido pela retaliação iraniana no conflito, recebendo 37% dos 6.562 projéteis e aviões-robôs lançados por Teerã contra o golfo e Israel.
Mais sério foi um relato trazido pelo jornal britânico Financial Times de que os iranianos atingiram uma estação de bombeamento do oleoduto usado pela Arábia Saudita para driblar o bloqueio do estreito de Hormuz, enviando petróleo para exportação pelo mar Vermelho. Riad apenas disse que derrubou nove drones.
Forças iranianas também disseram ter abatido um drone israelense, e alertaram que qualquer aeronave que cruzar seu espaço aéreo sem autorização durante as duas semanas de duração do cessar-fogo.
Tudo isso mostra a fragilidade do arranjo anunciado por Trump poucas horas após dizer que “uma civilização inteira irá morrer nesta noite”. O próprio vice-presidente J. D. Vance disse, em Budapeste, que é uma “trégua frágil” que depende “da boa vontade do Irã”.
A máquina militar de americanos e israelenses parou de atingir o país persa, segundo os relatos disponíveis, mas segue mobilizada. “Vamos ser claros, o cessar-fogo é uma pausa, e as forças permanecem de prontidão”, disse o chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general da Força Aérea Dan Caine.
Apesar de não chegar a dizer o fatídico “missão cumprida” que assombrou George W. Bush após a invasão do Iraque em 2003, Caine e secretário Pete Hegseth (Defesa) pintaram um quadro de supremacia militar. O general disse que boa parte da capacidade de lançamento de mísseis iraniana foi atingida, algo impossível de saber agora, e que 90% da sua indústria militar foi destruída.
Em Teerã, a Guarda, principal ente político e militar do país hoje, emitiu um comunicado segundo o qual “não confia nos americanos e irá negociar com o dedo no gatilho”.
Na mesma linha foi o embaixador iraniano junto à ONU em Genebra, Ali Bahreni. “Nós não temos nenhuma confiança no outro lado. Nossas forças militares mantêm sua prontidão. Enquanto isso, vamos para as negociações para ver o quão sério o outro lado é”, disse à Reuters.
Nesta terça, um emissário do secretário-geral da ONU, António Guterres, chegou a Teerã para tentar azeitar conversas. As negociações em si, que devem ocorrer no mediador Paquistão, apresentam uma série de entraves.
Trump havia dito que o plano de dez pontos apresentado na segunda (6) pelo Irã seria a base para as conversas, mas o documento traz itens inaceitáveis até aqui aos EUA, como a manutenção da capacidade de enriquecimento de urânio para o programa nuclear dos aiatolás.
EUA e Israel são peremptórios acerca de acabar com as chances de o Irã ter a bomba atômica há anos, e Trump insistiu em uma postagem nesta quarta no veto ao enriquecimento e na entrega do urânio já enriquecido em mãos de Teerã.
A própria questão da navegação em Hormuz é central. O Irã provou que, mesmo sob intenso bombardeio, conseguia manter a rota fechada na prática. Há hoje cerca de 1.400 navios parados em torno do estreito, que é controlado ao norte por Teerã. Nesta terça, os primeiros 6 não iranianos cruzaram a rota.
O embaixador Bahreni afirmou que a guerra mudou a configuração econômica na via por onde passavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, reafirmando que o Irã quer cobrar pedágio pelo trânsito —no que deve ser seguido por Omã, que tem a maior costa ao sul.
Como passou a guerra se queixando da indisposição de aliados de mandar navios de guerra para garantir operações na região, Trump pode até aceitar algo nesse sentido alegando que os EUA não dependem das commodities que transitam por lá.
Mas isso manterá tensão no mercado de energia, afetando preços, além de complicar cadeias produtivas.
Em relação à mudança de regime em Teerã, que não ocorreu apesar de suas lideranças terem sido dizimadas, o americano já tem o discurso pronto, dizendo que ela aconteceu na prática.
Hoje o Irã está mais para um governo militar que teocrático puro, mas o forte componente ideológico da Guarda, seu centro nervoso, garante que está longe de ser uma amigável Venezuela pós-captura de Nicolás Maduro.




