O presidente Donald Trump estava sentado em uma mesa na Casa Branca enquanto a noite de terça-feira (7) se aproximava, refletindo sobre o que poderia acontecer nas próximas horas.
Ele havia prometido varrer “toda uma civilização” do mapa se seu prazo das 22h para o Irã reabrir o estreito de Hormuz não fosse cumprido. Enquanto uma série de reuniões não relacionadas acontecia, Trump interrompia para listar o número de pontes e usinas de energia que estava preparado para atacar no Irã.
Ele foi informado sobre iranianos se reunindo nessas pontes e em frente a essas usinas. Assistiu às imagens de pessoas se aglomerando ao redor das estruturas na televisão e disse a assessores que seria culpa do governo iraniano se as forças americanas atacassem e as matassem. Chamou os líderes iranianos de “malvados” por colocar pessoas inocentes em perigo.
Então, no meio da tarde em Washington, uma mensagem encorajadora sobre um acordo tomando forma foi verificada pela Casa Branca e publicada nas redes sociais pelo primeiro-ministro do Paquistão. Pouco depois, um acordo mediado às pressas por uma série de governos, incluindo Paquistão e China, chegou a um presidente que buscava uma saída de uma guerra profundamente impopular.
A comemoração começou rapidamente: o secretário de Defesa, Pete Hegseth e o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, declararam na manhã de quarta-feira que todos os seus objetivos militares haviam sido alcançados no que Hegseth chamou de “uma vitória histórica e esmagadora no campo de batalha”.
Mas menos de um dia após Trump anunciar uma trégua nas redes sociais, o acordo frágil já mostrava sinais de desgaste, em grande parte porque as duas nações não conseguiam concordar publicamente sobre um conjunto comum de objetivos para encerrar a guerra.
Após 36 horas tumultuadas oscilando de um extremo diplomático a outro, Trump se encontra, de certa forma, perto de onde começou. Seus esforços para contornar a realidade no terreno e avançar para um processo de paz foram prejudicados por um adversário que ainda mantém vantagem.
A situação do estreito de Hormuz não está clara, embora tenha sido a base do ultimato apocalíptico de Trump. E o destino do urânio enriquecido do Irã, que Trump sugeriu de forma otimista que poderia ser recuperado por americanos com ajuda iraniana, continua sem solução.
As oscilações refletem a abordagem de Trump à diplomacia com o Irã: ameaças extremas, mercados instáveis, aliados e adversários alarmados, pânico civil generalizado e uma saída de última hora que deixa ambos os lados acusando o outro de má-fé.
Agora Trump e seus assessores estão observando de perto para ver se o estreito permanece aberto. Se não permanecer, disse um alto funcionário, o acordo desmoronará.
Este relato é baseado em entrevistas com quase uma dúzia de pessoas nos Estados Unidos, Israel e Irã, a maioria das quais falou sob condição de anonimato para discutir um conflito em rápida evolução.
Uma ameaça desencadeia pânico generalizado
Na segunda-feira, um dia antes de Trump enviar uma mensagem ameaçando aniquilar a civilização iraniana, as conversas haviam progredido em privado e o líder supremo do Irã parecia ter sinalizado aprovação para avançar com as negociações, segundo vários funcionários iranianos e israelenses. O Paquistão continuou tentando mediar conversas entre o Irã e os EUA em um esforço para alcançar um cessar-fogo e ganhar tempo para as negociações de paz.
Mas na manhã de terça-feira, os americanos estavam ficando impacientes. Trump emitiu sua ameaça pública de aniquilar o Irã, uma mensagem que o Irã também havia recebido em privado via Paquistão, segundo três funcionários iranianos familiarizados com as negociações.
Líderes iranianos, já furiosos com o prazo de Trump e uma onda de ataques a infraestruturas críticas como ferrovias, pontes e plantas industriais, decidiram desistir. Disseram ao Paquistão que Teerã cortariam comunicações com Washington e que os planos para negociações de cessar-fogo seriam suspensos, disseram os três funcionários.
Funcionários iranianos, do presidente ao vice-presidente e comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica, postaram mensagens em tom desafiador nas redes sociais. Os líderes militares acreditavam que o Irã tinha vantagem com sua influência sobre o estreito e deveria dobrar a aposta, disseram os funcionários.
“O Irã claramente venceu a guerra e só aceitará um desfecho que solidifique seus ganhos e crie uma nova ordem de segurança na região”, disse Mahdi Mohammadi, assessor do presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, em uma publicação nas redes sociais.
No Irã, o pânico entre os civis se instalou à medida que o prazo de Trump para atacar usinas de energia se aproximava. A mídia iraniana começou a circular diretrizes sobre como sobreviver se a energia, o gás e a água fossem cortados. Moradores de Teerã correram aos supermercados para estocar alimentos secos e água engarrafada, esvaziando as prateleiras em muitos supermercados até o anoitecer.
“Compramos um cooler e blocos de gelo, caso perdêssemos energia e a geladeira parasse de funcionar”, disse Nazy, moradora de Teerã que pediu que seu sobrenome não fosse publicado por medo de retaliação, em uma entrevista. “Também comprei muitos alimentos secos, velas e pilhas para minha mãe, que está acamada e não pode ser evacuada.”
Dezenas de milhares de pessoas fugiram para as margens do Mar Cáspio, criando um engarrafamento tão intenso que a polícia fechou a estrada da montanha para todo o tráfego, exceto para aqueles que saíam de Teerã em direção às praias do norte.
Nos Estados Unidos, aliados de Trump pediram que ele esclarecesse suas mensagens beligerantes, e outros expressaram publicamente a esperança de que o presidente não fosse realmente cumprir sua ameaça. O senador Ron Johnson, de Wisconsin, um aliado republicano próximo de Trump, deixou espaço para a possibilidade de que Trump estivesse blefando. “Espero e rezo para que o presidente Trump esteja apenas usando isso como bravata”, disse ele.
Os principais democratas rapidamente prometeram forçar outra votação sobre uma resolução para restringir o uso das forças militares no Irã.
Negociações frenéticas se desenrolam
Com os iranianos ameaçando se retirar das negociações, esforços diplomáticos se desenrolaram do Oriente Médio à China. Autoridades passaram a ligar para diversas partes na tentativa de salvar um plano de cessar-fogo e afastar o Irã e os EUA da beira de uma catástrofe maior, segundo os três funcionários iranianos e um funcionário paquistanês familiarizado com os esforços.
O primeiro-ministro e o ministro das Relações Exteriores do Paquistão fizeram diversas ligações, falando tanto com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, quanto com o chanceler Abbas Araghchi. Turquia, Egito e Qatar também entraram em contato com o Irã, disseram os funcionários. Mas, no fim, foi a China, que tem laços econômicos estreitos com o Irã, que quebrou o impasse, segundo os iranianos e o funcionário paquistanês.
A China mantém estreitas relações comerciais com o Irã — é a maior compradora de petróleo iraniano— e também coopera com as Forças Armadas iranianas. Funcionários chineses disseram a seus homólogos iranianos para concordar com o cessar-fogo agora porque poderia ser sua única oportunidade, disseram os funcionários iranianos.
A China também pediu ao Irã que mostrasse mais flexibilidade e abrisse o estreito de Homuz para navegação marítima por duas semanas e considerasse o impacto econômico da guerra em seus aliados, incluindo a China.
Pouco depois das 19h, o chefe do Exército do Paquistão, Syed Asim Munir, ligou para Trump para discutir os contornos do acordo de cessar-fogo. Munir disse ao presidente que os iranianos haviam concordado com a proposta do Paquistão.
Se os iranianos concordassem, Trump disse a Munir, então os americanos também concordariam.
O presidente então ligou para o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, para dizer que os EUA entrariam em um cessar-fogo de duas semanas.
Um acordo frágil começa a se desfazer
Trump anunciou no Truth Social que havia concordado em suspender a campanha de bombardeio no Irã por duas semanas para elaborar um acordo de paz. Mas mesmo alguns dos assessores de Trump estavam céticos de que a pausa se manteria.
Divergências sobre o escopo do acordo surgiram quase imediatamente.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou o acordo de cessar-fogo e disse que se aplicava “em todos os lugares, incluindo o Líbano”.
Mas na manhã de quarta-feira, o presidente Trump disse a um repórter da PBS que via o conflito entre Israel e o Hezbollah, que é apoiado pelo Irã, como uma “escaramuça separada”. Na quarta-feira, Israel lançou os ataques mais devastadores contra Líbano em mais de um mês de guerra com o Hezbollah.
Trump e seus assessores, enquanto isso, disseram que não apresentariam publicamente os termos que disseram estar negociando para trazer um fim duradouro à guerra, mas criticaram uma proposta separada de dez pontos que os iranianos tornaram pública na quarta-feira.
“[A proposta] Foi literalmente jogada no lixo pelo presidente Trump e sua equipe de negociação”, disse Karoline Leavitt, secretária de Imprensa da Casa Branca, a repórteres.
Ainda assim, ela anunciou que o vice-presidente J. D. Vance, junto com Steve Witkoff, o enviado especial do presidente, e Jared Kushner, genro de Trump, viajariam ao Paquistão para realizar conversas com os iranianos. Seria a reunião de mais alto nível entre funcionários americanos e iranianos desde 1979.
Mas pouco depois do anúncio de Leavitt, altos funcionários iranianos acusaram os EUA de violar o acordo.
Ghalibaf, o presidente do Parlamento, que deve participar da reunião no Paquistão, escreveu em uma declaração que a trégua e as negociações com os EUA eram “irracionais” porque Israel estava atacando o Líbano, um drone hostil entrou no espaço aéreo do Irã e os EUA continuavam a se opor ao enriquecimento nuclear iraniano.
Questionado sobre a declaração de Ghalibaf, Vance questionou sua compreensão do idioma.
“Na verdade, me pergunto quão bom ele é em entender inglês, porque há coisas que ele disse que francamente não faziam sentido no contexto das negociações que tivemos”, disse ele a repórteres enquanto partia da Hungria.




