Donald Trump passou outra semana vociferando. Mandou abrir a “porra do estreito“, ameaçou dizimar uma civilização, cantou vitória numa guerra em metástase. Nesse meio tempo, conversou com os quatro astronautas embarcados na cápsula Orion, da missão espacial Artemis 2. Disse-lhes que não pede autógrafos, mas que fará isso quando o quarteto for recebido na Casa Branca.
Em meio a tensões, o mundo admirou as belas imagens vindas da Orion ao circundar a Terra e a Lua. A Nasa está em festa com a missão? Supõe-se que sim. No entanto, recente edição da revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) diz o contrário. A Nasa está em choque.
É o que revela o dossiê do premiado jornalista científico Robin George Andrews, cujo título é “A América estava ganhando a corrida para encontrar vida em Marte. Até que a China entrou em cena”. Para quem se interessar por pesquisa planetária, corrida espacial e jogo político, recomenda-se a leitura.
Andrews ultrapassa o já sabido, ou seja, os Estados Unidos voltaram a se interessar pela Lua diante do avanço do programa espacial chinês. A verdade é que as duas potências competem para abocanhar, em algum momento e até mesmo por acaso, algo capaz de redefinir o que sabemos sobre o universo e a nossa humanidade.
Vale lembrar: após as missões Apollo, a Nasa olhou para Marte. Há 50 anos pousou por lá a sonda Viking, que detectou nutrientes no solo, sugestivos de vida microbiana. Em 2001, foi a vez da Mars Odyssey, ainda hoje no espaço, enviar imagens dos Vales Marineris com seus cânions imensos. E, em 2020, a agência lançou missão para recolher amostras de Marte e retorná-las à Terra.
Só que esse desafio ganhou urgência em 2024, quando o robô explorador Perseverance, que há cinco anos anda pelo planeta vermelho, encontrou rochas com pontos pretos semelhantes a sementes de papoulas e manchas como as do pelo de um leopardo. Aí, sim, a Nasa celebrou: fortes sinais de vida.
Só que Trump acabou com a festa. Enxugou o financiamento da agência, enquanto o Congresso cogitou suspender a missão. Assim estamos: Nasa em choque, caos administrativo interno, cientistas em debandada ou com medo de se manifestar.
E o que fizeram os chineses? Entraram tarde na corrida, sem perda de tempo. Enviaram orbitadores e módulos de pouso para a Lua no projeto Chang’e (nome de uma deusa lunar). Bem-sucedidos, em 2020 retornaram à Terra com amostras bem importantes da superfície lunar.
No ano seguinte, lançaram a primeira missão Tianwen (“pergunte ao céu”), para estudar a Utopia Planitia, grande bacia marciana. Em 2024, nova missão para investigar o lado oculto da lua. No ano seguinte, anúncio de que amostras de Marte podem chegar íntegras à Terra antes de 2030, em desafio aos EUA.
O que se diz é que as missões espaciais americanas, em parceria com agências europeias, reúnem interesses difíceis de conciliar. Já as missões chinesas, num país de poder centralizado, contam com financiamento e apoio constantes. Fora isso, parecem ir no rumo correto: cientistas concordam que o transporte seguro de amostras, especialmente as pristinas, será um salto decisivo.
Esta coluna está sendo escrita enquanto os astronautas da Orion voltam à Terra. Que cheguem bem nesta sexta. Quanto a Trump, além de pedir autógrafos, que cuide da saúde financeira da Nasa.




