Indignada, Francesca Albanese decidiu escrever um livro. “Indignada e envergonhada”, nas palavras que abrem a obra. Relatora especial da ONU para a Palestina, ela acusa a comunidade internacional de não ter feito o suficiente para frear a crise humanitária que assola a região.
A premissa de “Quando o Mundo Dorme” é que governos e instituições multilaterais permitiram que Israel bombardeasse a Faixa de Gaza por dois anos, matando mais de 72 mil pessoas e deixando uma infraestrutura devastada.
“Israel está escrevendo uma das piores páginas da história”, escreve Albanese. Todos são coniventes, sugere.
O livro, publicado em 2025 na Itália, sai no Brasil pela Tabla, editora especializada em temas relacionados à cultura árabe e islâmica. Soma-se a outras obras desfavoráveis a Tel Aviv, como o recente “Vítimas Perfeitas”, do ativista Mohammed el-Kurd.
Albanese, 48, é uma das críticas mais duras de Israel no sistema internacional. Nascida na Itália, cursou direito em Pisa e fez mestrado em direitos humanos em Londres. Foi nomeada relatora para a Palestina em 2022. Seu mandato de três anos foi renovado em 2025.
No cargo, ela incomodou Israel ao descrever o país como um regime de apartheid em que os palestinos não têm os mesmos direitos que os israelenses. Enfadou ainda mais ao acusar aquele país de genocídio.
Albanese condenou o Hamas pelo atentado terrorista que deixou 1.200 mortos em Israel em 7 de outubro de 2023. A relatora afirma, entretanto, que o governo israelense reagiu com uma campanha militar cujo objetivo é a limpeza étnica. Tel Aviv nega as acusações.
O livro está organizado em torno de dez personagens, aos quais Albanese amarra seu argumento. É uma mescla de narrativa e de caso legal que também incorpora as reflexões mais pessoais da relatora.
No primeiro capítulo, por exemplo, Albanese conta a história de Hind Rajab, uma menina de 5 anos morta em Gaza enquanto aguardava o resgate da Cruz Vermelha. O caso inspirou o longa “A Voz de Hind Rajab”, que concorreu ao Oscar de melhor filme internacional contra “O Agente Secreto”.
Albanese usa essa narrativa para descrever a situação das crianças em Gaza. Fala sobre o que é conhecido no mundo dos direitos humanos como “unchilding”, um termo que se refere à negação da infância.
A isso a relatora acrescenta ponderações sobre a diferença entre a vida dos palestinos e a sua. Albanese conta, por exemplo, que entrevistava crianças palestinas por chamada de vídeo enquanto via seus filhos brincarem, alheios à guerra e às privações. Aquele contraste, afirma, contribuía para sua indignação e vergonha.
Para além do registro da guerra e das violações de direitos humanos, há outras passagens impactantes, como aquela em que fala sobre Alon Confino, professor ítalo-israelense de estudos judaicos.
É aqui que Albanese comenta e rejeita as acusações de que seja antissemita. Faz isso demonstrando sua amizade com Confino e com outros estudiosos do Holocausto. Evoca também os comentários de figuras do judaísmo que a defendem contra as críticas.
Israel acusa Albanese de antissemitismo. Em parte, baseia a acusação em algo que a relatora escreveu durante a guerra de 2014 em Gaza. A italiana sugeriu, na época, que um suposto lobby judaico influenciava os Estados Unidos. No livro, Albanese diz reconhecer seu erro —e que, no passado, pecou por não distinguir judeus de sionistas.
Baseado na lei internacional e na experiência de Albanese, o livro é sólido. Um de seus pontos mais frágeis, dito isso, é o tom.
As menções à vida pessoal de Albanese e aos seus sentimentos diante da catástrofe estão deslocadas. Também destoam as fórmulas que pertencem ao gênero da autoajuda, como as frases “você não pode mudar nada se de alguma forma não tiver mudado a si mesmo” e “não pode trabalhar pela paz no mundo se antes não tiver paz interior”.
Ora, segundo a tese central do próprio livro, a questão não é a paz interior —e sim o fato de que o mundo dorme enquanto Gaza sofre.




