A startup chinesa DeepSeek anunciou nesta semana que vai reescrever do zero o código de seu próximo modelo de inteligência artificial (conhecido até agora como V4) para funcionar exclusivamente em chips da Huawei, abandonando a americana Nvidia. A decisão é a aposta mais explícita já feita por um laboratório de ponta chinês de que o silício nacional já é capaz de sustentar o estado da arte da IA.
Para dimensionar o que isso significa, é preciso entender como funciona a infraestrutura da IA. Modelos como o ChatGPT não rodam em computadores comuns, dependendo de chips especializados (os chamados aceleradores) que processam volumes colossais de operações matemáticas em paralelo.
A Nvidia reina quase sozinha nesse mercado, e Washington apostou nessa dependência ao restringir a venda dos modelos mais avançados à China. Americanos apostaram que, sem acesso ao melhor hardware, Pequim não teria como competir na fronteira da IA. A DeepSeek acaba de sinalizar que essa premissa caducou.
Fabricado pela chinesa SMIC, o chip Ascend 950PR da Huawei tem tecnologia de 5 nanômetros. Não é o modelo mais avançado do mercado (que já trabalha em 2 nanômetros), mas ele entrega 1,56 petaflops de capacidade de processamento em operações de baixa precisão utilizados por modelos de IA.
Isso é quase três vezes mais que o Nvidia H200, uma versão piorada dos chips mais poderosos da empresa e os únicos autorizados por Washington para exportação. A variante mais poderosa H200 ainda favorece a Nvidia em largura de banda de memória e velocidade com que o chip acessa dados armazenados, mas a Huawei compensa essa diferença com uma rede de interconexão óptica capaz de conectar até 8.192 processadores numa única máquina lógica. É até possível fazer isso no ecossistema Nvidia, mas a um custo altíssimo e difícil de escalar.
Com o mercado chinês avançando na migração, o resultado tem sido sentido no bolso da empresa dos EUA. Alibaba, ByteDance e Tencent encomendaram centenas de milhares de unidades do Ascend 950PR, fazendo os preços dos chips locais subirem em 20% com a demanda.
Máquinas pré-carregadas com modelos DeepSeek estão sendo vendidas por algo entre ¥ 300 mil e ¥ 5 milhões (R$ 220 mil a R$ 3,67 milhões). É caro, mas significativamente mais em conta que os sistemas com chips Nvidia que chegam a até ¥ 20 milhões (R$ 14,6 milhões) no mercado paralelo.
Mas o ponto que mais deveria incomodar Washington é outro. A verdadeira barreira da Nvidia nunca foi apenas o silício, mas o Cuda, um ecossistema de software que há mais de uma década prende desenvolvedores às suas placas como os programas do seu computador Windows te obrigam a pagar um adicional à Microsoft toda vez que você troca de aparelho.
A Huawei lançou no ano passado uma alternativa de código aberto chamada CANN e os engenheiros da DeepSeek já demonstraram que conseguem atingir 60% do desempenho de um chip Nvidia H100 usando hardware Huawei no primeiro dia de operação. A comunidade de desenvolvedores integrou suporte aos novos modelos em semanas. Se o Cuda era o fosso que protegia o castelo da Nvidia, a água está baixando rápido.
A lógica das sanções presumia que cortar o acesso ao melhor hardware bastaria para congelar o avanço chinês, mas a resposta do país asiático foi inventar o próprio hardware, otimizar o software para extrair o máximo de cada transistor e treinar modelos de fronteira com orçamentos a uma fração do que gastam laboratórios americanos. Deixou de ser uma corrida por capacidade e passou a ser uma disputa por otimização de engenharia industrial.




