Como UFC nasceu de luta brasileira e chegou à Casa Branca – 11/04/2026 – Ilustríssima

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[RESUMO] Nas últimas duas décadas, o MMA se livrou da imagem de luta de nicho e selvagem para se tornar um esporte de influência mundial e um negócio bilionário, com repercussões inclusive políticas, como no evento que será realizado nos jardins da Casa Branca, nos 80 anos de Trump. Nem todos sabem, contudo, que no centro dessa arena de combate está uma tradição brasileira de mistura de lutas, que remonta ao início do século 20 e espelha um país em que a violência corporal nunca saiu da vida cotidiana.

No dia 14 de junho, quando Donald Trump completa 80 anos, acontecerá o UFC Freedom 250. Esse programa de lutas, ou “card”, será transmitido dos jardins da Casa Branca para todo o mundo.

A ideia de que homens com pouca roupa entrem em combate corporal em um evento público, ainda mais na sede do governo dos Estados Unidos, pode nos remeter aos espetáculos de gladiadores do Império Romano.

O evento atual, contudo, tem uma relação mais direta com circos viajantes de um passado relativamente recente —particularmente com um que funcionou na Amazônia brasileira, comandado por um empresário chamado Gastão Gracie no início do século 20. Foi lá que Carlos, seu primogênito, aprendeu jiu-jitsu com um lutador itinerante.

De toda forma, além do paralelo entre presidentes e imperadores, outras razões ligam o UFC Freedom e a Casa Branca. Trump vem de Nova York, cidade do Madison Square Garden, talvez o palco mais famoso do mundo para esportes de combate.

O presidente americano já atuou como promotor de boxe e sediou disputas em seus cassinos. Além disso, os chamados esportes de combate guardam afinidade com a visão do empresário Trump sobre negócios: um ambiente bélico de competição, risco, resistência e vitória conquistada após enfrentamento.

Esse card no jardim da Casa Branca também pode ser lido como uma espécie de resposta tardia, três décadas depois, aos críticos, defensores do politicamente correto, que tentaram impedir a consolidação do UFC.

Nos anos 1990, quando a organização surgiu, muitos políticos e comentaristas denunciaram o esporte como brutal. O senador John McCain, que foi candidato à Presidência dos EUA, chegou a chamá-lo de “rinha de galos humana”. Canais de televisão se recusavam a transmitir as lutas e arenas evitavam abrigar os eventos.

Foi nesse período que Trump abriu suas casas de espetáculo para o UFC, organização de Artes Marciais Mistas (MMA) que produz eventos ao redor de todo o mundo, desafiando a resistência que, naquele momento, vinha de diferentes setores da política americana, inclusive de conservadores.

O Brasil no aniversário presidencial

Neste evento que também celebra os 250 anos de independência dos Estados Unidos, o Brasil estará no centro das atenções. Um dos grandes participantes é um ex-borracheiro que lutou contra o alcoolismo na juventude e hoje é uma das grandes estrelas do esporte.

Descendente do povo pataxó, do sul da Bahia, Alex Poatan Pereira fará uma das principais lutas da noite, enfrentando o francês Ciryl Gane na divisão dos pesos pesados. Se vencer, seu nome passará a figurar entre as lendas do esporte como o primeiro lutador a conquistar cinturões em três categorias de peso.

A relação brasileira com o esporte, contudo, vai além de recordes e é bem mais profunda. A história do UFC está enraizada em uma modalidade de combate surgida no país.

Em Belém do Pará, enriquecida pelo ciclo da borracha no início do século 20, ocorreu o encontro entre um jovem brasileiro de temperamento difícil e um lutador japonês que percorria o mundo participando de desafios públicos em circos e teatros.

Desse encontro nasceu o jiu-jítsu brasileiro, hoje conhecido internacionalmente como brazilian jiu-jitsu (BJJ). Considerado por muitos especialistas uma das formas mais eficientes de combate corpo a corpo, o BJJ tornou-se uma das expressões do soft power brasileiro. Foi a partir dessa tradição que surgiu o MMA, as artes marciais mistas, modalidade praticada pelos lutadores do UFC.

UFC no Brasil depois de Anderson Silva

No começo de março, o apresentador Luciano Huck celebrou com vastos elogios a participação de Alex Poatan Pereira em seu programa na Globo, o que contrasta com o desconhecimento do brasileiro comum e o desinteresse de patrocinadores em relação a campeões nacionais do UFC. Celebridades internacionais, muitos permanecem quase anônimos no próprio país.

É o caso, por exemplo, da baiana Amanda Nunes, a maior lutadora da história do MMA feminino, que nunca desfrutou no Brasil de popularidade correspondente a sua reputação internacional.

Houve um período, contudo, entre o fim dos anos 2000 e o início dos anos 2010, em que o UFC teve grande visibilidade no Brasil. Era o reinado de algumas das maiores lendas brasileiras do esporte, em especial Anderson Silva.

Anderson, conhecido como Spider, dominou sua categoria por anos. Alto, longilíneo e tecnicamente refinado, ficou famoso pelas vitórias e pelo estilo provocador: muitas vezes lutava com a guarda baixa, desafiando adversários enquanto os desconcentrava com movimentos e gestos de desprezo.

Naquele período, o UFC assinou contratos de transmissão com a Rede Globo. O narrador Galvão Bueno chegou a apresentar algumas das lutas. Mais de uma década depois, a memória que muitos brasileiros guardam do UFC continua associada a essa fase. O card da Casa Branca com Poatan conquistará o país como fez o Spider?

Guerreiro pataxó

Poatan é uma palavra de origem tupi, geralmente traduzida como “mãos de pedra”, referência à potência dos golpes, algo que o lutador demonstrou repetidamente. Diferentemente de muitos apelidos no esporte, apenas jogadas de marketing, o nome expressa uma identidade real, os vínculos indígenas do atleta, algo que ele celebra em momentos cerimoniais das lutas.

Por exemplo, nas pesagens antes dos combates, ele aparece com o corpo pintado. Não são pinturas estilizadas segundo a imaginação americana, mas grafismos reais do povo pataxó.

Outro momento importante do espetáculo é a entrada de Poatan na arena, hoje uma das mais celebradas do UFC. Ele marcha ritualisticamente, como em uma dança de guerra, ao som de cantos do povo xingu, e termina disparando, em um arco imaginário, uma saraivada de socos. Após o grito final, o público explode.

A chegada do atleta ao UFC também se tornou uma pequena lenda. Na época, o campeão dominante dos médios era Israel Adesanya, nigeriano criado na Nova Zelândia. Adesanya construiu carreira no kickboxing internacional, especialmente na Glory, a maior liga do mundo dessa modalidade que mistura boxe e chutes, período em que foi derrotado duas vezes por Poatan .

Já como campeão do UFC, Adesanya citou o brasileiro em uma entrevista. Referindo-se ao passado difícil de Poatan e ao alcoolismo que marcou sua juventude, disse que ele provavelmente estaria em um bar naquele momento, contando que já havia derrotado o próprio Adesanya duas vezes.

A provocação teve efeito contrário. Poatan, já com mais de 30 anos, migrou para o MMA, transição que normalmente exige anos de adaptação. Os lutadores de MMA, modalidade consolidada pelo UFC, precisam dominar técnicas de queda e combate no chão, decisivas para o controle do adversário. Poatan era um lutador no auge no kickboxing, mas sem experiência nessas técnicas, vindas principalmente do jiu-jítsu brasileiro e da luta greco-romana.

Entre os comentaristas esportivos, Joe Rogan defendeu o potencial do brasileiro. Apresentador de um dos podcasts mais populares do mundo, Rogan foi campeão nacional de taekwondo na juventude e já acompanhava a carreira de Poatan. “Ele é diferente”, alertou.

Para surpresa de muitos, e confirmando a aposta de Rogan, Poatan fez a transição com velocidade incomum. Com o apoio do brasileiro Glover Teixeira, ex-campeão do UFC, em 15 meses conquistou a chance de disputar o título e surpreendeu o mundo ao derrotar Adesanya pela terceira vez.

Chama!

Poatan é mais do que um lutador tecnicamente heterodoxo. Seu estilo combina força, precisão, velocidade e a capacidade rara de ler o comportamento do adversário. Identifica padrões, provoca reações e cria armadilhas que abrem espaço para nocautes devastadores.

Poatan também contraria uma expectativa comum no UFC: a de que lutadores que falam inglês e dominam o espetáculo verbal tenham mais facilidade para conquistar o público.

Diferentemente de Anderson Silva ou do irlandês Conor McGregor, talvez o lutador mais famoso da história da organização, Poatan fala pouco. Raramente faz trash talk, as provocações antes das lutas, e celebra vitórias sem euforia. Seu humor é seco e enigmático, aura que se soma a uma história de superação.

Ele nasceu e cresceu no ABC paulista, em uma família trabalhadora que enfrentou dificuldades. Começou a trabalhar ainda jovem em uma borracharia e viveu a tragédia de ter o irmão assassinado. É pai solo de dois filhos.

Ao longo dos últimos anos, seu sucesso foi acompanhado pela circulação, entre atletas e fãs de MMA, de uma palavra em português, “chama”, termo sem tradução direta para o inglês.

Dependendo da entonação, “chama” pode expressar entusiasmo, desafio, ironia ou indiferença. Dita com convicção, soa como um convite à ação; com desdém, pode significar algo próximo de “tanto faz”.

Hoje, em entrevistas após as lutas, não é raro que o próprio entrevistador comece ou termine a conversa repetindo a palavra, como se entrasse por um instante no idioma particular do vencedor.

O bordão se espalhou entre atletas do UFC e nas redes sociais, transformando uma expressão coloquial brasileira em um pequeno símbolo da persona enigmática de Poatan.

Poder, celebridade, testosterona e espetáculo

Internacionalmente, o UFC vem desbravando fronteiras nos últimos anos. Essa expansão ganhou nova escala em agosto de 2025, quando a Paramount fechou um acordo de US$ 7,7 bilhões pelos direitos de transmissão do esporte nos Estados Unidos. Pelo pacote iniciado neste ano, além do streaming do grupo, alguns eventos selecionados são também exibidos na CBS, um dos principais canais de TV do país.

O fato é simbólico não apenas pelo valor da negociação: uma organização que por anos viveu do pay-per-view (modelo em que o usuário compra produtos exclusivos) e da reputação de brutalidade excessiva passou a ocupar o centro do ecossistema audiovisual americano e agora disputa espaço com esportes estabelecidos na TV aberta.

A mudança de status é inseparável da política recente. Em 2024, um homem grandalhão e careca chamado Dana White, presidente do UFC, subiu ao palco da Convenção Republicana para anunciar Donald Trump como candidato do partido às eleições presidenciais. Poucos meses depois, na madrugada da vitória, Trump interrompeu o próprio discurso para chamá-lo ao microfone. White agradeceu nominalmente a influenciadores da nova ecologia digital masculina que mobilizou para a campanha.

O UFC não foi apenas pano de fundo estético dessa aproximação. Foi também uma ponte cultural com um eleitorado jovem e masculino que consome podcasts, que se interessa por games, apostas esportivas, humor agressivo e esportes de contato.

Para Trump, o octógono do UFC se consolida como uma espécie de comício sem púlpito: um espaço em que poder, celebridade, testosterona e espetáculo se misturam de modo eficiente, especialmente para homens da classe trabalhadora, uma de suas bases eleitorais.

UFC, de produto tóxico a império de mídia

Mas o salto decisivo para o mainstream começou bem antes. Em 2020, no auge da pandemia, o UFC 249 marcou uma das primeiras retomadas relevantes do esporte ao vivo nos Estados Unidos.

A organização conseguiu fazê-lo porque operava num modelo mais verticalizado do que ligas esportivas como NBA, NFL ou MLB: não é uma associação de franquias, mas uma empresa centralizada, capaz de negociar local, protocolo, calendário e transmissão de forma muito mais concentrada.

A trajetória empresarial do UFC já havia mudado de patamar em 2016, quando a companhia foi vendida por cerca de US$ 4 bilhões a um grupo liderado pela WME-IMG. Apenas 15 anos antes, os irmãos Fertitta a haviam comprado por US$ 2 milhões e colocado Dana White para comandar a operação.

Entre um ponto e outro, houve a reinvenção completa de um negócio quase radioativo. O ponto de virada foi The Ultimate Fighter, lançado em 2005. O reality serviu para driblar o bloqueio moral e comercial que limitava o UFC, oferecendo narrativa pessoais, rivalidade e pedagogia.

Em vez de apenas lutas, o UFC passou a vender a jornada do lutador. Deu certo. O esporte deixou de ser uma curiosidade de nicho e ganhou audiência.

O card Freedom 250 do UFC na Casa Branca será o ponto no tempo e no espaço em que todas essas linhas se encontram no centro de um octógono desenhado originalmente a partir da visão de um brasileiro, Rorion Gracie, um dos donos originais da organização.

O que hoje se chama MMA é, em grande medida, uma evolução daquele ambiente experimental conhecido como vale-tudo, que floresceu no Rio de Janeiro na primeira metade do século passado.

Do vale-tudo ao octógono

A lógica que sustenta o UFC nasceu no Brasil, dentro da história do jiu-jítsu desenvolvido pela família Gracie e por outros praticantes da chamada “arte suave”.

Quando Carlos Gracie abriu sua academia no Rio, em 1925, a proposta não era apenas ensinar uma arte marcial, mas testá-la constantemente. Ele e seus irmãos treinavam para enfrentar praticantes de outras modalidades em combates públicos que funcionavam como laboratório técnico e estratégia de divulgação.

Capoeiristas, boxeadores, lutadores de luta greco-romana, judocas e praticantes de outras disciplinas eram convidados a medir forças. As regras eram poucas. A ideia era descobrir qual técnica funcionava quando a luta deixava o terreno do ritual esportivo e se aproximava de um confronto real.

Foi nesse contexto que o jiu-jítsu brasileiro ganhou sua característica central: a busca por eficiência. Hélio Gracie, o mais franzino dos irmãos, tornou-se personagem central nesse processo.

Sem força física comparável à de muitos adversários, Hélio passou a enfatizar alavancas, controle de posição e técnicas de finalização capazes de neutralizar oponentes maiores. O resultado foi um sistema de combate que privilegiava estratégia, paciência e domínio técnico sobre a força.

Décadas depois, essa história e seus aprendizados foram transplantados para os Estados Unidos. Rorion Gracie, filho de Hélio, mudou-se para a Califórnia e começou a dar aulas de jiu-jítsu enquanto promovia desafios em sua garagem para provar a eficácia da técnica.

A ideia era a mesma que havia guiado os vale-tudos brasileiros: colocar estilos diferentes frente a frente e deixar que a luta demonstrasse qual funcionava melhor.

Foi assim que nasceu o UFC, em 1993. O torneio inicial foi concebido como um experimento público. Lutadores de diferentes modalidades (boxe, caratê, luta livre, sumô) entrariam na mesma arena para descobrir qual sistema prevaleceria.

Para tornar a demonstração mais convincente, Rorion escolheu como representante do jiu-jítsu seu irmão Royce Gracie, um lutador pequeno diante de muitos adversários.

A estratégia repetia a lógica usada décadas antes pela família: provar que técnica poderia superar tamanho. Royce venceu o primeiro torneio e se tornou o primeiro campeão do UFC.

A imagem de um lutador leve derrotando adversários muito maiores ajudou a transformar o jiu-jítsu brasileiro em referência mundial de combate corpo a corpo.

A matriz do MMA

Nos primeiros eventos da organização, o contraste entre estilos era quase didático: boxeadores e caratecas tentavam manter a luta em pé, apostavam em golpes de distância, enquanto wrestlers e praticantes de jiu-jítsu procuravam levar o combate para o chão.

As vitórias de Royce mostraram ao restante do campo das artes marciais algo que não era óbvio para muitos atletas: sem defesa contra quedas e sem conhecimento de luta de solo, um lutador podia ser neutralizado rapidamente.

A consequência foi uma transformação profunda no treinamento. Lutadores de modalidades tradicionais passaram a estudar jiu-jítsu para escapar de finalizações ou evitar que a luta chegasse ao chão.

Ao mesmo tempo, praticantes de jiu-jítsu começaram a incorporar técnicas de trocação —boxe, muay thai, kickboxing— para sobreviver enquanto buscavam a queda. O que no início era um confronto entre estilos distintos virou um processo de fusão.

Um dos primeiros atletas a perceber essa mudança foi Marco Ruas, veterano do vale-tudo brasileiro. Ruas ficou conhecido por defender um método de treinamento que chamava de cross-training: a ideia de que um lutador deveria dominar diferentes disciplinas em vez de representar apenas uma tradição. Sua vitória no UFC 7, em 1995, mostrou que essa abordagem podia ser eficaz.

Outro momento decisivo ocorreu no fim dos anos 1990, quando uma dissidência da equipe de Carlson Gracie levou à criação da Brazilian Top Team (BTT), que passou a representar a vertente mais sofisticada do jiu-jítsu aplicado ao vale-tudo. A Chute Boxe, em Curitiba, sob comando de Rudimar Fedrigo, formava lutadores moldados na trocação do muay thai.

A rivalidade entre essas duas escolas —o jiu-jítsu técnico da BTT e a agressividade em pé da Chute Boxe, que revelou nomes como Wanderlei Silva— funcionou como campo de teste para o esporte.

Para sobreviver, lutadores da trocação tiveram de aprender defesa de quedas e luta de solo; especialistas em jiu-jítsu foram obrigados a estudar boxe e muay thai. Desse choque entre estilos brasileiros nasceu boa parte da forma moderna do MMA, em que a fusão de técnicas deixou de ser exceção e se tornou regra.

MMA no Brasil além do jiu-jítsu

Antes de o termo vale-tudo se tornar comum, o Brasil já era um palco de confrontos públicos entre diferentes tradições de combate. No início do século 20, circos e feiras itinerantes apresentavam desafios entre lutadores de estilos distintos, misturando espetáculo e demonstração técnica.

Um episódio célebre ocorreu em 1909, quando o capoeirista baiano Francisco da Silva Ciríaco derrotou o lutador japonês Sada Miyako em um confronto anunciado como teste entre capoeira e jiu-jítsu.

A luta, registrada na imprensa da época e ilustrada em revistas humorísticas como O Malho, tornou-se um dos primeiros exemplos documentados no Brasil de combate entre artes marciais diferentes, algo que décadas depois seria a essência do vale-tudo.

Esse tipo de desafio revela que a lógica do confronto entre estilos não nasceu de um projeto esportivo formal, mas de um ambiente cultural mais amplo, no qual luta, espetáculo e contexto social se misturavam. Foi nesse terreno híbrido —metade demonstração marcial, metade entretenimento popular— que se consolidou a tradição brasileira de colocar sistemas de combate frente a frente diante de uma plateia.

Cabra macho

Mas por que o Brasil? Seria coincidência geográfica? Ou haveria algo na história social brasileira para explicar por que uma forma particularmente eficiente de combate corporal emergiu aqui, e não apenas em países historicamente associados às artes marciais, como Japão, China ou Tailândia?

Uma hipótese é que o Brasil produziu um ambiente singular para esse tipo de experimentação. Além do samba e do Carnaval, também somos conhecidos pela violência. Episódios como chacinas, feminicídios e ataques contra a população LGBTQIA+ compõem esse cenário.

O antropólogo Leonardo Sá parece ter sido predestinado a estudar esportes de combate. Professor na UFC, a Universidade Federal do Ceará, ele se interessou pelo tema a partir de estudos sobre violência policial.

“Tornar-se homem no Brasil, desde a Colônia, está ligado a aprender a lidar com armas, brancas ou de fogo. Vemos isso, por exemplo, em “Grande Sertão: Veredas” ou em “Noites do Sertão” [livros de Guimarães Rosa], em que o protagonista é um homem duro, pistoleiro”, diz Leonardo, praticante de artes marciais. “É o que no Nordeste se descreve como ‘cabra-macho’: o homem não leva desaforo para casa, dá a resposta”, observa.

Isso aparece na forma como as masculinidades se encenam e se fazem reconhecer na sociedade brasileira. Em bailes funk, festas de bairro ou bares de periferia, brigas podem surgir de disputas por respeito, provocações ou conflitos de reputação.

A antropologia urbana e a sociologia do crime mostram que esses confrontos raramente são aleatórios. Obedecem a códigos implícitos de honra, coragem e reconhecimento. Em certos contextos, a disposição para enfrentar fisicamente um adversário funciona como mecanismo de afirmação social, especialmente onde a autoridade do Estado é percebida como distante, irregular ou seletiva.

Leonardo Sá observa que os discursos associados ao jiu-jítsu brasileiro foram elaborados nesse ambiente em que ser homem significa saber “se garantir”. O BJJ radicaliza essa masculinidade ao oferecer uma promessa sedutora: habilitar o homem para enfrentar agressores mais fortes ou se proteger de um ataque covarde, inclusive armado.

Isso dialoga com formas brasileiras de imaginar mando, autoridade e reputação: quem se garante, quem dá ordens, quem não pode ser subjugado. Essa figura ocupa lugar central no imaginário social do país.

Leonardo Sá argumenta que a violência deve ser analisada não apenas como fato bruto, mas como linguagem social. Nessa perspectiva, práticas como o vale-tudo são também formas de organizar e dar sentido a um repertório corporal já presente na vida social. O combate deixa de ser simples agressão e passa a funcionar como campo em que força, técnica e honra são testadas publicamente.

O fato de essa mistura de combates ter se desenvolvido no Brasil diz algo sobre o país, um lugar em que a violência corporal nunca desapareceu completamente da vida cotidiana. Exatamente por isso, foi possível transformá-la em técnica, espetáculo e, por fim, em um dos esportes globais mais influentes do século 21.

Quando o UFC monta uma arena nos jardins da Casa Branca, leva consigo, ainda que poucos percebam, uma história profundamente brasileira.



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