“Eu só poderia ser caçada por alguém que me conhecesse bem.” O verbo escolhido pela sobrevivente ruandesa no documentário “Beyond the Genocide” (além do genocídio), “caçar”, dá a dimensão do que aconteceu no país entre abril e julho de 1994, há 32 anos.
Em cem dias, 1 milhão de pessoas foram assassinadas. A maioria, tutsis. Mas também hutus que se recusaram a matar, esconderam vizinhos ou não aderiram aos “Dez Mandamentos Hutus”, evocando ideias que cresceram ainda na década de 1950, durante a colonização belga.
Os povos originários de Ruanda, tuás, conviveram com uma maioria hutu e uma minoria tutsi por centenas de anos. Casavam entre si, conviviam, atribuíam importância variada à divisão étnica. Com a colonização alemã, depois da Conferência de Berlim, em 1895, a monarquia tutsi passou a fazer a mediação com a metrópole.
Ao fim da Primeira Guerra, a Alemanha entregou o domínio de Ruanda à Bélgica, que tirou os tutsis do poder, mas se empenhou em pesquisar e registrar diferenças entre hutus e tutsis. Mediam nariz, altura, contavam cabeças de gado e assim definiam o grupo étnico daqueles que não se identificavam com nenhum.
Passaram a exigir a classificação nos documentos de identificação e a estimular a percepção das diferenças entre os grupos e o ódio de uns contra os outros. Antes da independência de Ruanda, colocaram hutus que propagavam a inferioridade tutsi no poder.
Todos os males de Ruanda, toda a pobreza e a violência, nada tinha a ver com a colonização, era responsabilidade dos “baratas”, como eram chamados os tutsis.
A revista Kangura, que publicou em 1990 os mandamentos hutus, dedicou-se a disseminar a ideia de que baratas deveriam ser caçadas. E que Ruanda precisava de uma solução final. A Radio Télévision Libre des Mille Collines teve papel fundamental em espalhar o ódio e convocar a violência.
Mais de três décadas depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a mesma lógica de propaganda nazista, o mesmo vocabulário contra um povo.
O Estado importou facões em larga escala. Os distribuiu, com amplo apoio popular. E também porretes com pregos, machados. Organizou listas de nomes que eram repetidos na rádio com endereços e instruções de como matar.
No Memorial do Genocídio, em Kigali, capital de Ruanda, me marcou o depoimento de um jovem, criança em 1994, que contou o alívio sentido quando abriu a porta, depois de fortes batidas, e encontrou o rosto conhecido de um vizinho, amigo de seu pai, com quem compartilhou inúmeras refeições e colheitas.
Por um instante, sentiu-se seguro porque um amigo tinha vindo ajudar. O vizinho assassinou seu pai, mãe e irmãos com um porrete. Bateu nele também, como aconteceu com tantas crianças, e só foi embora quando achou que todos estavam mortos.
Os que aderiram à convocação genocida, procuravam pessoas pelo nome, iam a lugares onde poderiam estar escondidas. Igrejas abrigaram quem buscava proteção e depois abriram as portas para assassinos. A rádio convocava: “Nas igrejas, eles estão escondidos nas igrejas.”
Por isso o verbo caçar.
A ONU reduziu sua presença no momento mais crítico. O general Roméo Dallaire, comandante da missão em Ruanda, pediu ajuda insistentemente. Nos meses que antecederam aquele abril, repetia que com mais recursos poderia evitar mortes iminentes. Recebeu a ordem de retirar as tropas e deixar o país.
A interrupção veio com a chegada da Frente Patriótica Ruandesa, organizada por refugiados e exilados nos países ao redor, liderada por Paul Kagame, atual presidente de Ruanda, desde o ano 2000. O genocídio foi interrompido militarmente pelo grupo que ocupa o poder no país desde então.
(Este texto integra uma série em duas partes. A continuação será publicada na próxima semana.)




