Com a derrota do primeiro-ministro Viktor Orbán na Hungria neste domingo (12), consolida-se o histórico do americano Donald Trump de pé-frio em pleitos mundiais —com exceção da América Latina.
Candidatos e partidos alinhados a Trump perderam eleições no Canadá, na Austrália, na Romênia e na Hungria desde que o republicano assumiu, em janeiro de 2025. O único candidato apoiado por Trump que venceu foi o atual presidente da Polônia, Karol Nawrocki, em agosto do ano passado.
O contraponto foi a América Latina, onde políticos e legendas mais alinhados ao trumpismo venceram na Argentina, no Chile, em Honduras e na Bolívia.
Peru, Colômbia e Brasil serão os próximos testes da Doutrina Donroe na região. As eleições do Peru, também realizadas no domingo, devem avançar para um segundo turno em 7 de junho. A apuração de votos ainda está em curso, e a conservadora Keiko Fujimori lidera com margem apertada. O pleito da Colômbia, em que concorre um candidato de esquerda apoiado por Gustavo Petro, realiza-se em 31 de maio, e o do Brasil, em outubro.
A vitória de lavada do partido Tisza de Péter Magyar na Hungria também coloca em xeque a eficiência das tentativas ostensivas de Trump de interferir em eleições de outros países —uma marca da política externa do republicano.
Mesmo com pesquisas indicando o desempenho medíocre do partido de Orbán nas urnas, Trump não economizou esforços para apoiar o aliado. O vice-presidente americano, J. D. Vance, esteve no país cinco dias antes do pleito e transmitiu juras de amor de Trump a Orbán.
“Nenhum país estrangeiro pode interferir nas eleições húngaras. Este é o nosso país”, escreveu Magyar no X, afirmando que a história húngara “não é escrita em Washington, Moscou ou Bruxelas”.
No Canadá e na Austrália, candidatos alinhados ao trumpismo eram favoritos, mas acabaram perdendo para centristas. O Partido Liberal canadense se recuperou nas pesquisas após Trump lançar sua guerra comercial contra Ottawa e ameaçar anexar o país. Mark Carney se tornou primeiro-ministro.
Na Austrália, o candidato “Maga” Peter Dutton foi derrotado, e o Partido Trabalhista conquistou a maioria.
Na Romênia, o candidato presidencial centrista Nicusor Dan derrotou, em maio de 2025, o candidato alinhado ao trumpismo, o radical George Simion, que era favorito. Simion contestou o resultado na Justiça, que rejeitou o recurso.
O ponto fora da curva foi o candidato conservador à Presidência da Polônia, Karol Nawrocki, que venceu a eleição. Ele foi recebido por Trump na Casa Branca durante a campanha e já como presidente. A então secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, instou os poloneses a votarem em Nawrocki, em discurso na CPAC, a maior conferência conservadora do mundo, na Polônia.
Já na América Latina o histórico foi muito positivo para o americano. Em Honduras no final do ano passado, Trump apoiou abertamente o candidato da ultradireita, Nasry “Tito” Asfura. A ex-presidente do país, a esquerdista Xiomara Castro, chegou a afirmar que tinha havido um “golpe eleitoral” por causa da “interferência do presidente dos Estados Unidos“.
Antes da eleição, Trump afirmou que a candidata governista, Rixi Moncada, era comunista e que sua vitória entregaria o país ao ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e a seus “narcoterroristas”. Disse também que não cooperaria com o novo líder do país caso Asfura não vencesse a eleição. Ele venceu.
Na eleição legislativa argentina do ano passado, Trump condicionou a concessão de um pacote de ajuda financeira ao país de US$ 20 bilhões a um bom desempenho do partido de Javier Milei no pleito — resultado que se confirmou.
O governo brasileiro monitorou a eleição húngara para avaliar a eficácia de uma possível interferência dos EUA no pleito presidencial em outubro.
No fim de março, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RS), pré-candidato à Presidência, fez um discurso na CPAC no Texas pedindo que os EUA “monitorem a liberdade de expressão” do povo brasileiro e “apliquem pressão diplomática para que as instituições funcionem corretamente”. Ele afirmou que seria o escolhido para presidente desde que houvesse “eleições livres e justas”.
No caso da Hungria, a avaliação é que, embora Magyar tenha usado as tentativas de interferência da Rússia e dos EUA como mote de campanha, elas não foram determinantes no resultado. Analistas não veem um voto pró-soberania em Magyar —voto que também era perseguido por Orbán, que se vendia como o candidato anti-intervenção da União Europeia e advertia para uma imaginária ameaça da Ucrânia.
Mas o fato é que, apesar dos esforços americanos para turbinar Orbán, a grande maioria do eleitorado húngaro foi guiado pela insatisfação com os rumos da economia do país e os casos de corrupção —e o aliado trumpista, um ícone da ultradireita, perdeu por ampla margem.




