Pouco antes de o vice-presidente J. D. Vance deixar Islamabad no início da manhã de domingo (12), ele descreveu o Irã e os Estados Unidos como mundos completamente diferentes, principalmente na questão das garantias de que o Irã nunca poderá construir uma arma nuclear —”não apenas agora, não apenas daqui a dois anos, mas a longo prazo”.
Acontece que a ideia de longo prazo do governo Trump é de 20 anos.
À medida que os detalhes da visita de 21 horas de Vance ao Paquistão vieram à tona na segunda-feira (13), pessoas familiarizadas com as negociações disseram que a posição dos EUA não era uma proibição permanente do enriquecimento nuclear pelo Irã. Em vez disso, os EUA propuseram uma “suspensão” de 20 anos de toda atividade nuclear.
Isso permitiria aos iranianos sustentar que não haviam desistido permanentemente de seu direito, sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear, de produzir seu próprio combustível nuclear.
Em resposta, o Irã renovou uma proposta de suspender a atividade nuclear por até cinco anos, segundo dois funcionários iranianos de alto escalão e um funcionário americano. Os iranianos haviam feito uma proposta muito semelhante em fevereiro, durante uma rodada fracassada de negociações em Genebra que convenceu o presidente Donald Trump de que era hora de ir à guerra. Dias depois, ele ordenou o ataque ao Irã.
Há várias outras questões pairando sobre as negociações, incluindo a restauração da livre passagem no estreito de Hormuz e o fim do apoio iraniano a grupos como Hamas e Hezbollah. Mas a recusa do Irã em abandonar suas ambições nucleares, desmantelar sua enorme infraestrutura atômica e enviar seu estoque de combustível para fora do país sempre foi a disputa central.
Portanto, a revelação de que os dois lados agora estão discutindo sobre o período de tempo para suspender a atividade nuclear sugere que pode muito bem haver espaço para um acordo, e houve indicações na segunda-feira de que os negociadores podem se reunir novamente nos próximos dias. Funcionários da Casa Branca disseram que nenhuma reunião havia sido finalizada, mas outra rodada de negociações presenciais estava sendo discutida.
Mas para Trump e seus assessores também há o risco de que qualquer acordo que surja possa se assemelhar ao acordo nuclear de 2015, do qual o presidente se retirou três anos depois e chamou de “um acordo horrível e unilateral que nunca, jamais deveria ter sido feito”.
No cerne da reclamação de Trump sobre o acordo de Obama, formalmente chamado de Plano de Ação Abrangente Conjunto, estava o fato de que ele continha “cláusulas de expiração”. E continha: os iranianos tinham permissão para aumentar gradualmente a atividade de enriquecimento até 2030, quando todas as restrições evaporariam. (Os compromissos do Irã sob o tratado de não proliferação ainda o proibiriam de construir uma bomba.)
Mas o acordo de Obama não envolvia uma suspensão total da atividade nuclear, o que garantiria pelo menos alguns anos de atividade nuclear zero —ultrapassando o mandato de Trump.
O status das negociações atuais foi descrito por autoridades e especialistas que se recusaram a falar oficialmente devido à sensibilidade das conversas. Assim como o governo Obama, a Casa Branca de Trump está tentando preservar o sigilo da sala de negociações, para ter o máximo de margem para fechar um acordo. E assim como o governo Obama, está descobrindo que ambos os lados se envolvem em vazamentos estratégicos.
Vance disse na noite de segunda-feira que houve “algumas boas conversas” com o Irã no Paquistão, e a bola agora está com Teerã. “A grande questão daqui para frente é se os iranianos terão flexibilidade suficiente”, disse ele à Fox News.
Vance disse que o Irã mostrou alguma flexibilidade, mas “não avançou o suficiente”. Quanto a se haveria conversas adicionais, ele disse que a pergunta seria “melhor direcionada aos iranianos”.
Na Casa Branca, Karoline Leavitt, a secretária de Imprensa, disse que “o presidente Trump, o vice-presidente Vance e a equipe de negociação deixaram muito claras as linhas vermelhas dos EUA”.
Outro ponto de impasse está centrado na exigência dos EUA de que o Irã remova 440 quilos de urânio quase em grau de bomba do país, para garantir que nunca possa ser desviado para um projeto de bomba. Trump considerou enviar tropas terrestres a Isfahan para assumir o controle da maior parte do urânio altamente enriquecido, que está armazenado no subsolo em estruturas que parecem grandes tanques de mergulho.
Os iranianos insistiram que o combustível deve permanecer dentro do Irã. Mas ofereceram, como fizeram em Genebra, diluí-lo significativamente para que não possa ser usado para produzir uma arma nuclear.
Isso também estenderia o cronograma para uma bomba. O risco, é claro, é que os iranianos ainda teriam posse do combustível e no futuro poderiam ser capazes de reenriquecê-lo ao seu estado atual de cerca de 60% de pureza, logo abaixo dos 90% necessários para fabricar uma arma.
À medida que as conversas avançam para a próxima etapa, algo a observar é se o Irã receberá de volta o dinheiro que acredita lhe ser devido.
Trump reclamou por anos, e repetiu nas últimas semanas, que o governo Obama liberou “aviões cheios” de dinheiro para o Irã —uma referência à devolução de US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões na cotação atual) em ativos iranianos há muito congelados pelos Estados Unidos, mais US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) em juros acumulados. Parte do dinheiro foi de fato enviada em espécie por avião, já que bancos ocidentais estavam proibidos de fazer negócios com entidades iranianas.
É cedo demais para saber como isso vai terminar, mas parte das negociações em andamento agora envolve a demanda do Irã de que o Ocidente descongele cerca de US$ 6 bilhões em fundos de vendas de petróleo, que estão retidos no Qatar por causa de sanções que remontam ao primeiro mandato de Trump.




