Sobreviventes do genocídio em Ruanda dizem que viveram o apocalipse nos cem dias e depois deles. Crianças sem adultos que pudessem alimentá-las. Todos procurando parentes que ainda poderiam estar vivos ou tentando identificar os milhares de corpos. Casas e plantações destruídas. Perpetradores do genocídio buscando refúgio nos países do entorno.
Um tribunal internacional foi estabelecido na Tanzânia para julgar as lideranças políticas, militares e da mídia. A Justiça ruandesa julgou centenas de milhares de casos. Mas os tribunais não tinham condições para julgar os 2 milhões de pessoas que praticaram crimes contra seus vizinhos. Extrapolaria o tempo de vida de todos.
O governo decidiu então instituir os gacaca, uma espécie de tribunais comunitários que existiam em Ruanda antes da colonização para resolver questões locais, mas não crimes. De 2002 a 2012, as comunidades se reuniam para os gacaca, escolhiam a pessoa em que o grupo confiasse para ser uma espécie de mediadora, registravam todo o processo à mão e julgavam coletivamente o destino dos que aderiram ao genocídio.
Penas de morte não podiam ser estabelecidas pelos gacaca, uma regra fundamental para que não se tratasse de vingança, mas de justiça. Todos eram estimulados à confissão pública da verdade e a compartilhar o máximo de informações possíveis, incluindo a localização dos corpos.
No documentário “Beyond the Genocide”, dirigido por Zion Sulaiman Mukasa Matovu, uma sobrevivente explica que, em comunidade, era possível saber se a pessoa estava contando a verdade. Alguém tinha visto por onde andou, o que carregava, em que dia cada pessoa desapareceu.
Os que defenderam que fariam tudo de novo, porque a solução final era necessária, foram condenados à prisão perpétua. Há casos em que a pessoa dava todas as informações e sinais de que tinha compreendido a gravidade das próprias ações. Em muitos desses, a comunidade decidia pelo perdão, tirava a pessoa da cadeia e atribuía a necessidade da prestação de mais serviços. Mais, porque todas as pessoas em Ruanda precisam dedicar um sábado por mês à comunidade.
A escritora Yolande Mukagasana conta, no livro “Not My Time to Die”, o momento em que retorna ao país, durante os gacaca. Ela tinha 40 anos de idade quando o marido e os três filhos foram assassinados.
Durante um gacaca, um vizinho, que conhecia sua rotina e sua intimidade, confessa o assassinato do marido dela. Descreve. Indica o local onde enterrou o corpo. Yolande pode, finalmente, enterrar seu companheiro. Além do luto e de toda a dor, sente gratidão pelo vizinho ter permitido que ela oferecesse um funeral adequado ao marido.
No documentário, vamos ouvindo detalhes daqueles cem dias de homens e mulheres de diferentes idades. É espantoso perceber que um senhor doce, que conta do terror dos corpos empilhados, foi um dos assassinos. Ele fugiu para o Congo temendo retaliação. Mas decidiu voltar quando soube dos gacaca. Consciente da gravidade, confessou seus crimes, foi para a cadeia e hoje está reintegrado à comunidade, depois de cumprir a pena.
Os gacaca não trouxeram pessoas de volta nem apagaram o que aconteceu. Mas ofereceram a possibilidade de continuar. Tanto para os sobreviventes e familiares de vítimas como para os que perpetraram o genocídio.
A palavra “ubumuntu”, que conheci na entrada do Memorial do Genocídio, em Kigali, ancora uma prática fundamental para a reconstrução do país. “A humanidade de cada pessoa existe na relação com a outra.” Uma variação do “eu sou porque nós somos”, do ubuntu. “Eu sou você. Você sou eu”, nas palavras de Paul Kagame no documentário.
Uma escala, no memorial, busca mostrar o caminho de um povo até o genocídio. Discurso de ódio e polarização estão no início da linha.




