Esta é a edição da newsletter China, terra do meio desta terça-feira (17). Quer recebê-la toda semana no seu email? Inscreva-se abaixo:
A China enviou navios de guerra para o Pacífico ocidental em meio a uma escalada de tensão militar com o Japão. Liderada pelo contratorpedeiro Baotou, a frota cruzou as ilhas japonesas de Amami Oshima e Yokoate no sábado (19) rumo ao oceano aberto, segundo comunicado do braço militar responsável pela região.
É a primeira vez que Pequim anuncia a passagem de navios pelo canal de Yokoate, mais próximo do território japonês do que a rota que a Marinha chinesa costuma usar, pelo estreito de Miyako, mais ao sul.
A mudança de rota é um sinal de que a China está testando novos caminhos para furar o que estrategistas militares chamam de “primeira cadeia de ilhas”, a linha de arquipélagos que vai do Japão até as Filipinas, passando por Taiwan. Ela funciona como uma barreira natural ao avanço chinês no Pacífico.
Os exercícios chineses coincidem com o início do Balikatan, a maior série de manobras militares conjuntas entre EUA e Filipinas, que reúne mais de 17 mil militares de sete países e conta, pela primeira vez, com tropas de combate japonesas.
Nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, soldados japoneses com capacidade de combate tinham pisado em solo filipino. A ação é resultado de um acordo de acesso militar recíproco entre Tóquio e Manila em setembro.
O Japão enviou cerca de 1.400 militares e vai disparar pela primeira vez um míssil antinavio em exercício fora do seu território.
A crise entre China e Japão se arrasta desde novembro do ano passado, quando a primeira-ministra, Sanae Takaichi, disse no Parlamento que Tóquio poderia mobilizar suas Forças Armadas caso a China tente tomar Taiwan pela força.
A líder se recusou a retirar a declaração após reações de Pequim. Desde então, a China desaconselhou seus cidadãos de viajar ao país, suspendeu a importação de frutos do mar japoneses e proibiu a exportação de produtos com potencial uso militar para o Japão.
Por que importa: a ação expõe a escalada da tensão entre China e Japão. Os países vêm testando movimentos militares mais ousados.
Se o ciclo de ação e reação não for interrompido, o risco é de um incidente no mar que force Washington a escolher entre apoiar o aliado japonês ou tentar se manter neutro para evitar um confronto direto com Pequim.
pare para ver
“Grande Guerra entre o Japão e a China – Ocupação de Fenghuang (1894)”, trabalho de Yoshu Chikanobu, bastante conhecido por suas gravuras de guerra. Durante a Guerra Sino-Japonesa, Nobukazu consolidou sua reputação desenhando cenas de batalha em terra e no mar. Saiba mais sobre o artista aqui.
o que também importa
★ A China manifestou preocupação com a revisão do Regulamento de Cibersegurança da União Europeia. O documento publicado em 2019 recebeu atualizações no início do ano. A revisão ampliou o escopo e introduziu pela primeira vez critérios “não técnicos” de risco na cadeia de suprimentos de tecnologia da informação, incluindo fatores geopolíticos. Na prática, o texto permite à Comissão designar “países que representam preocupações de cibersegurança” e “fornecedores de alto risco”, excluindo-os de cadeias de suprimento em 18 setores. Pequim pediu a remoção das disposições e alertou que adotará contramedidas caso a UE discrimine empresas chinesas.
★ Xi Jinping pediu pela primeira vez a reabertura do estreito de Hormuz. Um quinto do petróleo e do gás mundial transita pela passagem. Em telefonema com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman na segunda, o líder chinês defendeu um “cessar-fogo imediato e abrangente” no conflito entre EUA, Israel e Irã. Ele afirmou que a China apoia a resolução de disputas por canais diplomáticos, um sinal de que o país possa assumir um papel de mediação do conflito.
★ Pequim diz que concluirá em 2026 o núcleo da Cidade dos Satélites, complexo de fabricantes, operadores e prestadores de serviços de satélites comerciais. O projeto fica no distrito de Haidian e faz parte de uma estratégia municipal que divide a cadeia aeroespacial em dois eixos: um voltado a foguetes e lançamentos e outro que se concentra em satélites e aplicações de dados. O setor comercial responde por mais de 60% de todos os lançamentos espaciais chineses. Diversas empresas do ramo estão preparando aberturas de capital.
fique de olho
A startup chinesa de inteligência artificial DeepSeek negocia com investidores uma captação de pelo menos US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,7 bilhão) a um valuation de US$ 10 bilhões, informou o site The Information. É a primeira vez que a empresa busca dinheiro de fora desde sua fundação em 2023.
A DeepSeek sempre foi bancada pelo fundador Liang Wenfeng com lucros de seu fundo de investimentos, Zhejiang High-Flyer, e recusou ofertas repetidas de investidores. Segundo o site Yicai, a mudança serve para reter funcionários com participação acionária e cobrir custos de pesquisa cada vez maiores.
A rodada é pequena perto dos concorrentes. A OpenAI fechou em março uma captação de US$ 122 bilhões a um valuation de US$ 852 bilhões. Mesmo assim, a distância técnica entre os melhores modelos americanos e chineses era de apenas 2,7 pontos percentuais em março, segundo relatório anual de Stanford.
A captação coincide com o lançamento previsto para o fim de abril do DeepSeek V4, que deve ter cerca de 1 trilhão de parâmetros totais, o dobro do antecessor V3. Isso significa que ele terá muito mais contexto para responder às perguntas dos usuários. O V4 será o primeiro modelo otimizado para rodar nos processadores Ascend da chinesa Huawei, em vez de chips da Nvidia.
Por que importa: a plataforma DeepSeek abalou o setor ao treinar modelos competitivos gastando uma fração do que rivais americanos investem e oferecendo preços até 95% mais baratos.
A entrada de investidores externos traz pressão por retorno financeiro, que pode forçar a empresa a abandonar essa política de preço baixo e queima de caixa bilionária para vencer a corrida da IA.
fique de olho
A Tsinghua, em parceria com a UFRJ, a Universidade do Chile e a Universidade do Pacífico no Peru, lançou nesta semana o Desafio China-América Latina para Redução da Pobreza. A competição quer ouvir soluções criadas por estudantes da China e da América Latina que contribuam para a redução da pobreza global através de colaboração intercultural. Os vencedores vão ganhar uma viagem de estudos para a China. Saiba mais aqui.
O Instituto Confúcio da Universidade do Estado do Pará (Uepa) está com inscrições abertas para 50 vagas gratuitas no curso livre de mandarim do primeiro semestre. O curso atenderá estudantes de ensino médio, servidores e comunidade externa. Informações pelo e-mail institutoconfucio@uepa.br ou WhatsApp (91) 98895-2256.




