Em 2024, durante a visita de Xi Jinping a Brasília, o líder chinês e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinaram um acordo de cooperação que previa trocas culturais entre os países.
Em vigor neste 2026 (o ano cultural, como foi batizado), o acordo busca consolidar a cooperação internacional para além do comércio e da política. Especialistas avaliam, porém, que não há um plano definido para trocas culturais sólidas e que a própria celebração exemplifica o problema.
Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, a iniciativa não é apenas de intercâmbio artístico entre os países, mas uma estratégia de governo que aproveita a abertura de novos mercados para fomentar a economia criativa.
O objetivo é colocar a cultura como um ativo de soberania, mercado e projeção internacional, segundo a titular da pasta. “Existe essa dimensão econômica no setor das artes e da cultura que a gente explora pouco, inclusive dentro do Brasil. Então, nesse momento da relação bilateral Brasil-China, que tem se ampliado cada vez mais, precisamos também trazer oportunidades para o setor cultural e artístico”, diz ela, que passou por Pequim e Xangai para cumprir agendas ligadas à celebração.
Menezes realizou ainda uma reunião com seu homólogo chinês, Sun Yeli, em que foram discutidas formas de cooperação cultural bilateral, como o turismo, segundo comunicado do governo brasileiro.
O acordo que culminou no ano cultural, assinado em meio às comemorações dos 50 anos das relações diplomáticas entre os países, prevê um calendário de apresentações musicais, audiovisuais e de artes cênicas, além de lançamentos de livros e exposições de artes plásticas.
Um dos principais eventos até o momento foi o lançamento, na China, da primeira tradução para o mandarim de “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro.
Também estreou em abril o longa-metragem “O Agente Secreto”, estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho. O filme ganhou projeção internacional com indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, filme internacional, ator e direção de elenco, mas não levou nenhuma estatueta.
Apesar da comunidade brasileira na China, as apresentações no país asiático miram principalmente o público chinês, como forma de promover o intercâmbio cultural. Foi o caso dos shows da cantora Luedji Luna em Pequim, marcados pela presença majoritária de espectadores locais.
Para Maurício Santoro, pesquisador do país asiático e professor de relações internacionais do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, o acordo é um reconhecimento de que a agenda cultural entre os países, ao longo das cinco décadas de relações formais, ficou aquém do potencial.
“Há um enorme intercâmbio econômico, mas poucas trocas no âmbito da literatura, do cinema e das artes plásticas”, afirma. Para o especialista, apesar de iniciativas importantes durante as celebrações, “chama a atenção a falta de políticas públicas mais sistemáticas e constantes para promover o diálogo cultural”.
“A sensação é que os dois governos não têm o tema como prioridade”, conclui.



