O Vaticano publicou um documento em que inclui depoimentos de dois fiéis LGBTQIA+ e reconhece o papel da Igreja Católica na “solidão, angústia e estigma” enfrentados por pessoas dessas minorias. O texto ainda critica os impactos da chamada terapia de conversão, conhecida popularmente como “cura gay“, e descreve seus efeitos como devastadores.
O relatório foi elaborado por integrantes de um grupo de estudos que inclui bispos, padres, uma freira e um leigo. Publicado na terça-feira (5) com o título “Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas emergentes”, o texto aborda questões consideradas controversas na Igreja, incluindo a inclusão de pessoas LGBTQIA+.
“Desejamos destacar o seguinte: a solidão, a angústia e o estigma que acompanham as pessoas com atração pelo mesmo sexo e suas famílias, não apenas na sociedade, mas também dentro da Igreja;
isso muitas vezes está ligado à tentação de se esconder em uma ‘vida dupla'”, diz trecho do documento.
O relatório foi produzido com base em testemunhos. Em um deles, um homem gay em Portugal diz ter cicatrizes provocadas por experiências na comunidade cristã. Ele relata ter passado por processos de terapias de conversão que, segundo ele, atingem a dignidade das pessoas. Num dos episódios marcantes, diz ter sido aconselhado por um diretor espiritual a se casar com uma mulher para “encontrar paz”.
“Senti-me ofendido: era uma sugestão para prejudicar uma mulher, roubando-lhe a chance de ser completamente amada e desejada, tudo para cumprir uma expectativa social. Trazendo tudo à luz: esse encontro inicial e doloroso levou-me a esvaziar minha oração diária, excluindo meu relacionamento e minha vida afetiva da minha conversa com Cristo”, diz trecho do depoimento.
O homem relata ainda a experiência de seu marido, que diz ter enfrentado resistência familiar com base em interpretações religiosas. Segundo ele, a mudança de postura ocorreu de forma gradual à medida que a família passou a reconhecer o compromisso do casal com a fé.
Ainda para o autor do depoimento, pequenos gestos de aceitação dentro da comunidade cristã podem ter impacto significativo na superação de conflitos familiares e na ampliação da inclusão social.
Em outro depoimento, um homem nos Estados Unidos afirma que sua sexualidade não é uma “perversão, um distúrbio ou um fardo”, mas um “presente de Deus”, e relata viver um casamento “feliz e saudável”. Segundo ele, esse processo foi construído ao longo de anos de oração, terapia e convivência em comunidades acolhedoras.
O fiel diz que iniciou sua primeira relação homoafetiva aos 28 anos, o que teria contribuído para seu amadurecimento pessoal e espiritual. Ele também aborda sua experiência com grupos católicos voltados a pessoas LGBT+. Quando mais novo, ainda sem tornar pública sua orientação sexual, diz ter participado de iniciativas ligadas à chamada terapia de conversão, que descreve como pouco eficazes e marcadas por sofrimento.
O homem também destaca a importância de paróquias com grupos voltados à população LGBTQIA+, nas quais diz ter encontrado acolhimento. Apesar dos avanços, aponta dificuldades, incluindo episódios de homofobia na Igreja.
Os homens que fizeram os depoimentos não são identificados. Os dois defendem que a Igreja Católica reconheça a dignidade das pessoas LGBTQIA+. O relatório foi produzido no âmbito do Sínodo sobre a Sinodalidade, convocado pelo papa Francisco, morto em abril de 2025, para debater o futuro da Igreja.
Embora não faça recomendações para mudanças na doutrina, o documento provocou reações. Setores mais conservadores manifestaram preocupação com possíveis questionamentos aos ensinamentos da Igreja, enquanto defensores da inclusão celebraram o avanço no reconhecimento de direitos LGBTQIA+.
No ano passado, o Vaticano publicou novas orientações para seminários que permitem que homens gays se tornem padres —desde que sejam celibatários. O documento, elaborado pela CEI (Conferência Episcopal Italiana), recuou de uma instrução de 2016 que barrava seminaristas que tivessem “tendências homossexuais profundas”.
O movimento da CEI foi mais um aceno do papado de Francisco à população LGBTQIA+, junto a decisões como a que permitiu que padres abençoem casais do mesmo sexo e pessoas em seu segundo casamento.
Leão 14, o primeiro papa americano, já afirmou que deve seguir algumas políticas de Francisco, incluindo o acolhimento de católicos gays e mais abertura para mulheres em cargos de liderança, mas que não pretende promover grandes mudanças na doutrina católica.




