
Um navio-cruzeiro que saiu da Argentina está no centro das atenções após pelo menos três passageiros terem morrido com sintomas de hantavírus. No fim de semana, a embarcação parou em Cabo Verde, onde recebeu o apoio da equipe da Organização Mundial da Saúde, OMS, no país africano de língua portuguesa.
O episódio com o cruzeiro MV Hondius mantém autoridades globais em estado de alerta. Nesta quinta-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, concedeu uma entrevista a jornalistas na sede da agência, em Genebra.
Para ele, essa crise de saúde não deve ser confundida com a pandemia de Covid19, apesar de a transmissão de humanos para humanos já ter sido confirmada.
Historicamente, o hantavírus teve origem em espécies silvestres. Ele foi identificado, pela primeira vez, na década de 1970, próximo ao rio Hantan, na Coreia do Sul.
Horas depois da evacuação dos passageiros infectados, na cidade da Praia, em Cabo Verde, a representante da OMS no país, Ann Lindstrand, falou à ONU News sobre a operação de emergência.
“Uma equipa nacional do Hospital Central de Agostinho Neto foi vestida de roupas protetivas dentro do navio. E tirou três pessoas, duas com sintomas e um contacto muito próximo de um dos doentes. Então, estas três pessoas foram num barco, uma outra pequena embarcação seguiu até o porto acompanhado por uma ambulância. Foi um pouco complicado no aeroporto, uma complicação última hora, mas seguramente, eles foram às 11 horas da manhã para Holanda. Eu ouvi que 7 horas mais tarde chegaram à Holanda e seu estado clínico era estável. Depois foi também um dia em que o navio tinha que sair para a Ilhas Canárias. Chegamos cedo de manhã, um médico OMS, um especialista em epidemiologia e clínica, juntos, com um epidemiologista e o CDC no barco para seguir com o barco até às Canárias.”
A embarcação deixou Cabo Verde em direção ao arquipélago vizinho das Canárias.
A resposta à crise, no entanto, começou muito antes de o navio deixar o continente africano. Com a embarcação ainda nas proximidades da capital cabo-verdiana, equipes médicas locais, com apoio e supervisão da OMS, embarcaram para prestar os primeiros cuidados de saúde e realizar testes essenciais.
Na operação logística considerada complexa, a agência da ONU, a atuação conjunta das autoridades de Cabo Verde e o governo dos Países Baixos coordenaram a transferência médica urgente dos dois tripulantes em estado crítico.
A estirpe identificada neste surto específico é o Hantavírus do tipo Andes, uma variante conhecida na comunidade científica por permitir, em circunstâncias específicas, a transmissão de pessoa para pessoa.
Até ao momento, as autoridades de saúde contabilizam cinco pacientes com casos confirmados.
Ann Lindstrand explicou a dinâmica de contágio da doença e os rigorosos protocolos de isolamento implementados quando questionada sobre os riscos reais para quem continua confinado no navio e as medidas preventivas adotadas.
“A transmissão não é tão fácil. Tem que ser por contacto muito próximo, físico. Pode ser por se ficar no mesmo lugar. É também por saliva e por muita proximidade. Dentro do barco foi adotado um sistema onde cada um dos passageiros ficava na sua cabine o mais possível. Houve uma aproximação em termos de distância tal como foi durante a pandemia Covid: um metro meio de distanciamento físico. Também lavar as mãos e ter proteção pessoal com máscaras e outros meios. Estes são os conselhos da OMS dados a quem estava dentro do barco.”
Apesar da gravidade dos casos confirmados e dos óbitos registados, a representante reafirmou que o conhecimento epidemiológico atual sobre o hantavírus tranquiliza quanto à escala de um eventual perigo global.
A chefe da OMS em Cabo Verde explicou por que as populações devem manter-se atentas, mas não entrar em pânico, ao detalhar o minucioso rastreio de contactos que está a ser conduzido em nível internacional para conter o vírus na sua origem.
“Não há nada a ver com, por exemplo, a Covid-19. Não há risco de uma pandemia. A ameaça global agora está baixa e se pode contar com as autoridades em cada Estado-membro do OMS, porque temos uma rede que se chama RSI, Regulamento Sanitário Internacional. Dentro deste sistema trocamos informações. E agora, todos os Estados-membros com passageiros ou contactos dos passageiros neste navio estamos a seguir fazer um seguimento, para informar a gente que estava talvez próxima, num avião ou num barco ou outro.”
A dispersão geográfica dos pacientes deve-se à rota do navio e às movimentações de passageiros anteriores à imposição da quarentena.
“Vamos contactar cada pessoa que tem uma proximidade suspeita com os casos e informar que, em caso de sintomas, que é febre como influenza, febre, uma fatiga ou uma anorexia, e depois dores dos músculos, ou problemas respiratórios. Se a pessoa tem estes sintomas tem que procurar a saúde, seus sistemas e serviços.”
No caso de Cabo Verde foram confirmados dois pacientes sintomáticos, correspondentes aos tripulantes que necessitaram de evacuação médica de emergência.
Na África do Sul, ocorreu um dos registos mais graves, com um caso fatal e um outro paciente atualmente internado numa unidade de cuidados intensivos.
Já na Suíça, um paciente que abandonou o navio antes da chegada a Cabo Verde, regressou ao seu país de origem, desenvolveu os sintomas e encontra-se agora hospitalizado.
Segundo as autoridades de saúde, todos se encontram em boa condição física e sem qualquer sintoma no navio a caminho da Espanha.
No entanto, o período de incubação do hantavírus varia entre uma e oito semanas, o que significa que o risco está longe de terminar. A vigilância é constante e médicos foram colocados a bordo para garantir auxílio imediato, caso seja preciso.
A OMS e os governos dos países envolvidos continuam a acompanhar de perto e diariamente a evolução da situação.
A meta é assegurar que o rastreio envolva de forma proativa qualquer pessoa que possa ter estado exposta, de modo a isolar o surto e proteger, em definitivo, a saúde pública global.
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