A saída de Wes Streeting do gabinete de Keir Starmer, nesta quinta-feira (14), aumenta a pressão dentro do Partido Trabalhista para que o primeiro-ministro apresente sua renúncia nos próximos dias. O secretário de Saúde se preparava, segundo a imprensa britânica, para lançar um desafio formal à liderança do premiê, mas não chegou a esse ponto. Talvez por não ser o único integrante da legenda a cobiçar o cargo nem mesmo o favorito.
Além de Streeting, que pertence à ala mais direitista dos Labours, almejam abertamente o posto ou têm seu nome lançado por aliados Angela Rayner, ex-vice de Starmer, Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, e Ed Miliband, o atual secretário de Energia.
Em sua carta de renúncia, endereçada a Starmer, Streeting pediu a saída do primeiro-ministro e sugeriu a realização de um pleito aberto pela liderança. Qualquer um que tenha apoio de ao menos 20% dos parlamentares da sigla eleitos (81), teria condição de concorrer. Starmer entra na lista automaticamente se não renunciar, daí a enorme pressão por um gesto de sacrifício.
Streeting já teria apoio declarado de 80 parlamentares para entrar na disputa. Era um dos membros mais combativos do gabinete e tem no currículo um dos poucos sucessos visíveis da atual gestão, a diminuição das filas no NHS, o sistema público de saúde britânico —debilitado nas últimas décadas por sucessivos governos conservadores.
O parlamentar é visto como um centrista, na linha do ex-premiê Tony Blair, o que não é exatamente uma vantagem no caso dos trabalhistas. Em sua carta a Starmer, Streeting afirmou que já está claro que o premiê “não liderará o partido nas próximas eleições gerais” e que seus integrantes querem que o próximo debate “seja uma batalha de ideias, não de personalidades ou de faccionalismo mesquinho”.
Ainda que seja protagonista do pior momento político de Starmer, Streeting, segundo pesquisa interna conduzida pela própria legenda, não teria força suficiente em um embate direto contra o premiê, diferentemente de outros postulantes ao posto.
Andy Burnham, primeiro prefeito eleito da região metropolitana de Manchester, em 2017, bateria Starmer com larga vantagem, segundo o levantamento. Reeleito duas vezes, é chamado de “rei do Norte” por suas disputas frequentes com o governo central. Para concorrer ao comando trabalhista, no entanto, teria que voltar a ser parlamentar. Isso só aconteceria se algum aliado em Westminster renunciasse, e o partido deixasse Burnham disputar o cargo vago em uma eleição suplementar.
Talvez a aliada mais próxima de Starmer na construção da vitória histórica sobre os conservadores em 2024, Angela Rayner, também uma figura popular na ala mais à esquerda dos trabalhistas, foi secretária de Habitação até o ano passado.
Acusada de sonegar impostos na compra de uma propriedade, acabou renunciando. Sintomaticamente, divulgou nesta quinta, horas antes da carta de Streeting, que seu processo tributário havia sido concluído, sem que ficasse provado dolo de sua parte.
Ed Miliband, por sua vez, já foi líder dos trabalhistas na década passada, com fracasso diante dos conservadores na eleição de 2015. Seu desempenho como secretário de Energia é elogiado, ainda que o setor seja um dos flancos frequentemente explorados por rivais políticos de Starmer e setores negacionistas da crise do clima na imprensa britânica.
Miliband nega qualquer intenção de concorrer, expressando apoio público à permanência de Starmer. Observadores ponderam, no entanto, que o secretário pode acabar sendo apresentado como solução de consenso para evitar que a crise no partido se estenda.
Na semana passada, trabalhistas e conservadores sofreram uma derrota histórica nas chamadas eleições locais. O Reform UK, do populista de ultradireita Nigel Farage, conquistou mais de 1.440 assentos em conselhos e distritos, mesmo saindo quase do zero; os Verdes mais do que duplicaram sua representação, com 589 assentos.
A erosão dos partidos tradicionais, que interrompeu 14 anos de poder conservador em 2024, atinge agora fortemente os trabalhistas. A próxima eleição geral está prevista para 2029.




