A Rússia anunciou nesta terça-feira (19) o maior exercício de simulação de guerra nuclear desde o fim da Guerra Fria, em 1991. Por três dias, as forças estratégicas de Vladimir Putin irão treinar mobilização e combate “sob ameaça de agressão”, disse o Ministério da Defesa.
Com 64 mil militares e 7.800 equipamentos bélicos envolvidos, incluindo mais de 200 lançadores de mísseis, 140 aeronaves, 73 navios e 13 submarinos, o escopo anunciado é provavelmente o maior de toda a história —os anos da competição entre União Soviética e Estados Unidos são de difícil escrutínio.
Com a ação, Putin volta a sacar sua carta nuclear, padrão recorrente desde a véspera da invasão da Ucrânia em 2022, quando advertiu os rivais da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, a não se envolver no conflito.
Putin teve sucesso razoável, adiando sucessivamente o envio de armamentos mais sofisticados para Kiev, mas só por algum tempo. Ainda assim, a entrada de forças ocidentais diretamente no embate nunca ocorreu, pelo risco presumido de uma Terceira Guerra Mundial.
Putin movimentou seu maior ativo militar para demonstrar força em um momento de pressão na Ucrânia. Sem o avanço decisivo que seus generais prometiam para este ano, após algumas vitórias importantes, o conflito se arrasta cada vez mais violento.
Da semana passada para cá, russos e ucranianos trocaram os ataques aéreos mais intensos desde o começo do conflito, deixando dezenas de mortos. Nesta terça, quatro pessoas morreram no norte do país invadido, e no fim de semana Moscou ficou sob fogo direto.
Trump deixou a guerra que considerava prioritária de lado para cuidar de sua própria, no Oriente Médio. Putin se beneficiou da suspensão de embargos para venda de seu petróleo, com os EUA preocupados com o preço global: a Rússia dobrou o nível pré-guerra de receita com óleo em abril.
Mas isso atraiu mais ataques de Kiev contra sua infraestrutura energética, e, na prática, as negociações seguem congeladas.
Por fim, o presidente russo chegou nesta terça a Pequim, onde se encontrará com o líder Xi Jinping poucos dias após a visita de Trump ao chinês. Desde as vésperas da guerra na Ucrânia, os desconfiados aliados aprofundaram sua relação econômica e militar.
Com uma economia dez vezes menor do que a chinesa, contudo, Putin tenta mostrar com seu poderio nuclear que não é o sócio minoritário da aliança. Xi, por sua vez, tem interesses estratégicos maiores e dissonantes da retórica russa, mas busca mais energia —o sempre anunciado gasoduto Força da Sibéria 2 estará de novo em pauta.
Os exercícios também são desenhados para assustar os europeus, com sucesso: além da Ucrânia, Estados Bálticos e Polônia protestaram contra as manobras, particularmente porque mais uma vez elas incluem simulações do uso de armas estacionadas em Belarus —que faz fronteira direta com o flanco leste da Otan.
Em 2023, Putin posicionou ogivas táticas, que miram uso restrito a campo de batalha, no vizinho e aliado. Neste ano, deslocou o novo supermíssil Orechnik, que tem capacidade de empregá-las contra qualquer alvo europeu, para o país.
Analistas ocidentais ainda não avaliaram o escopo anunciado do exercício, que supera o maior feito até aqui depois do colapso soviético: o Grom (trovão, em russo) de 2019, que mobilizou 12 mil militares, 15 navios, 5 submarinos e 105 aviões, além dos mesmos 200 lançadores de mísseis.
Além disso, o Grom é anual e previsível, ocorrendo sempre por volta de outubro. A data coincide com os maiores jogos de guerra nuclear da Otan, os também rotineiros Steadfast Noon. A edição do exercício ocidental de 2025 foi a maior do pós-Guerra Fria, mas com apenas 2.000 militares e 70 aviões.
Nos próximos dois dias, serão vistos lançamentos de mísseis intercontinentais e de cruzeiro por terra e de navios. Segundo a Defesa russa, o objetivo é “dissuadir um potencial adversário e testar o nível de prontidão”.
O exercício, que não foi nomeado, também coincidirá com um teste de rotina do único míssil nuclear disparado de silos terrestres dos EUA, o Minuteman-3. As forças americanas emitiram um alerta de janela de lançamento desta quarta (20) até a quinta (21), a partir da usual base em que isso ocorre na Califórnia.
Não são eventos correlatos, dada a programação definida há meses, mas Washington já cancelou lançamentos para não elevar tensão com Moscou. Na semana passada, Putin ainda anunciou um teste bem-sucedido do seu novo míssil nuclear pesado, o Sarmat, considerada a arma mais poderosa do gênero no mundo.
Por fim, há o preocupante contexto atual no setor nuclear. Em fevereiro, Donald Trump deixou caducar o último acordo com os russos que previa o controle do número de armas operacionais em cada país, alegando obsolescência e a ausência da China no arranjo.
Pequim tem um arsenal crescente, estimado em 600 ogivas, mas não chega perto das mais de 5.000 que Moscou e Washington têm cada.
A guerra no Irã, nominalmente para conter as pretensões nucleares dos aiatolás, acendeu o alerta óbvio: países poderão buscar a bomba para se proteger de agressões semelhantes e para sair do agora pouco confiável guarda-chuva atômico dos EUA.




