A semana foi dominada por dois filmes que ainda ninguém viu. No Brasil, “Dark Horse“, sobre Jair Bolsonaro. Fora do Brasil, “A Odisseia”, de Christopher Nolan. Como essa é uma coluna nas páginas do noticiário internacional, vou falar do segundo.
Se o seu algoritmo for como o meu, é possível que tenha visto dezenas de publicações de homens furibundos com o fato de nesse filme ser uma atriz negra, Lupita Nyong’o, a representar o papel de Helena de Troia. Elon Musk, sempre ele, já disse que Nolan “perdeu a sua integridade” por essa escolha, e há gente que trata o caso como uma ofensa à Grécia, ao Ocidente e à civilização.
Mas o escândalo já vem da tradução escolhida para o filme, feita pela helenista Emily Wilson. Isso interessa-me: há muito que sigo a polêmica sobre esta tradução, a primeira em língua inglesa a ser feita por uma mulher e que homens conservadores usam como alvo do seu ódio por, supostamente, ser um ataque ao herói Ulisses enquanto homem.
O crime de Emily Wilson? Chamar-lhe “complicado”.
O tema, fascinante, prende-se com a tradução a dar ao primeiro adjetivo que Homero usa para descrever Ulisses: πολύτροπος (leia-se polítropos), que aliás aparece no acusativo πολύτροπον (polítropon). À partida, a palavra não oferece grandes dúvidas: o prefixo poli- quer dizer “muitos” e é bem conhecido de palavras que usamos todos os dias; “tropos” é uma palavra que se usa para caminhos. De muitos caminhos.
Aparecendo logo no início do poema, trata-se de uma das primeiras escolhas que qualquer tradutor tem de fazer, e a decisão que tomar diz-nos muito sobre a maneira como funciona a cabeça de cada um (ou cada uma). As escolhas normalmente andam em torno de “astuto” ou “engenhoso”, aproximando-nos da manha de Ulisses, ou para quem deseja ser mais literal, “polivalente” ou “multifacetado”.
Mas há sempre outro caminho, e foi o que Emily Wilson encontrou. Aquele “tropos” refere-se às “voltas que a vida dá” — às curvas e contra-curvas de que Ulisses seria experimentado. Procurando primeiro um correspondente latino, descobriu-o no verbo “plicare”, que significa “dobrar”, mas que podia também usar para se referir às guinadas e reviravoltas da vida. É de “plicare” que vêm palavras latinas (usadas também em inglês) como “implicado” ou… “complicado”.
“Eureka!”, deve ter dito a tradutora. E escreveu: “Fala-me de um homem complicado. Ó musa, diz-me como ele vagueou e se perdeu…”
Crime de lesa-masculinidade! —dizem os machistas do teclado, quando lhes dá para alegarem erudição. Ulisses, um herói com H, não pode ser complicado.
Eu, que até gosto de assumir o acusativo e traduzir da maneira mais simples mesmo (“Fala-me, ó musa, do homem de muitos caminhos”) fico doido com esta ideia de que homem que é homem tem que ser simples. Leram “A Odisseia” e não entenderam nada?
O homem simples é aquele que diz logo “a cavalo dado não se olha o dente” e aceita logo assim uns milhões dados por um banqueiro.
O homem astuto, polivalente e, sim, complicado, é aquele que olha para o presente e diz: “Pessoal, não vamos pôr esse cavalo dentro das muralhas da cidade”. Nem que seja um dark horse.




