Esta semana, a revista Chronicle of Philanthropy divulgou um relatório anual sobre os 50 maiores doadores privados dos Estados Unidos em 2025. É uma publicação aguardada que destaca homens e mulheres que patrocinam projetos sociais relevantes pelo mundo. A boa notícia do documento: apesar do efeito desestabilizador de Donald Trump, os filantropos abriram mais a carteira no ano passado do que no anterior.
Em 2024, os 50 maiores doaram US$ 16 bilhões (R$ 83 bilhões). Em 2025, subiram a régua para US$ 22,4 bilhões (R$ 117 bilhões). Lidera o ranking o empresário Michael Bloomberg (investiu US$ 4,3 bilhões no ano), seguido de Bill Gates (US$ 3,7 bilhões), do falecido Paul Allen, co-fundador da Microsoft, representado pelo seu fundo (US$ 3,1 bilhões) e de outros 47 nomes.
Mackenzie Scott, ex-esposa de Jeff Bezos, com quem fundou a Amazon, não consta na lista. Sempre discreta, ela não divulga dados financeiros de suas doações, que podem somar US$ 26 bilhões desde 2020.
Embora Trump tenha decretado guerra às políticas de inclusão e diversidade, cortado financiamento a órgãos multilaterais, organizações sociais e universidades, e ordenado investigações sobre fundações com as quais não simpatiza, ainda assim a filantropia demonstra resiliência ao apoiar áreas cruciais. Por exemplo: Bloomberg foca em mudança climática, Gates mantém-se forte na saúde, o grupo de Allen financia a pesquisa médica e por aí vai.
Muito se especula sobre o que leva um milionário, ou bilionário, a destinar fortunas para o bem comum, em vez de trocar de iate. Bloomberg foi claro a respeito. Não entende como seus amigos ricos esperam morrer para depois destinar o dinheiro a causas nobres. Ele prefere sentir este prazer em vida.
Pois recentemente chegou às livrarias americanas “O fundo radical: como um bando de visionários e um milhão de dólares reviraram a América” (Simon & Schuster). No livro, John Witt, professor de Direito de Yale, trata do célebre Fundo Garland, criado em 1922, registrado oficialmente como Fundo Americano para Serviço Público e visto como berço do pensamento progressista nos EUA.
É uma história fascinante, a começar por Charles Garland (1899-1974), um americano de Massachusetts cuja mãe era uma Tudor, daí por que fora educado em Eton, a mais seleta escola britânica. Aos 21 anos, ele herdou US$ 1 milhão, parte da fortuna amealhada pelo avô, um banqueiro. Recusou. Disse que nada fizera para merecer o dinheiro e que iria sobreviver como mecânico de carros.
Depois de muito convencimento, o tipo excêntrico aceitou usar a herança na constituição de um “fundo para melhorar o mundo”, entregando-o a Roger Baldwin, militante dos direitos civis.
O Fundo Garland, cachorro magro no banquete da filantropia, estrelado por Carnegies e Rockfellers, fez história. Com um conselho enxuto misturando liberais de direita e ativistas de esquerda, enfrentou as leis Jim Crow, que sustentavam a segregação racial, apoiou sindicatos, defendeu a liberdade de expressão, financiou pesquisas e influenciou decisões da Suprema Corte. Garland, o doador, teve vida atribulada, mas viu seu fundo gastar até o último centavo antes de fechar as portas em 1941.
O livro de Witt faz pensar sobre como a filantropia, que para ele não é politicamente neutra, pode enfrentar tempos autoritários. O Fundo Garland preparou o terreno para a América moderna. E deixou uma lição aos filantropos: toda paciência com os movimentos sociais. Neles germina a transformação.




