Faltam pouco menos de cem dias para as eleições de meio mandato nos Estados Unidos. Um evento capaz de mudar o curso político do país caso os republicanos percam a maioria no Congresso, além de conter os impulsos autoritários de Donald Trump. Ou, ao contrário, reforçar todo o ecossistema de poder erguido em torno do presidente incumbente. A sorte está lançada.
Curioso notar como a imprensa americana vem cobrando a presença do campo democrata nos últimos dias. Com o fim da Copa do Mundo, Trump liberou o ego temporariamente enjaulado. Tarifou países, ameaçou o Irã, recebeu Netanyahu e Zelenski, voltou a falar em fraude eleitoral. Não parou por aí: no jantar reagendado com correspondentes, dias atrás, usou um boné com a inscrição “Trump 2028”.
Não cabe incredulidade: o presidente tem planos para o futuro. Ainda que se tenha formado um hub de forças pró-democracia para proteger as eleições de 3 de novembro, ele não jogará a toalha.
Cenários estão sendo desenhados: o FBI pode vir a apreender materiais e equipamentos no dia da votação. Tropas federais podem se deslocar pelo país, intimidando o eleitorado. Pode ser decretada emergência nacional. Talvez Trump venha a estar muito ocupado para intervir na eleição presidencial brasileira, cujo segundo turno acontecerá uma semana antes. A ver.
É nesse contexto que as cobranças sobre o Partido Democrata aumentam. Medalhões como os Clinton, os Obama, os Biden, já tão espinafrados por Trump, saíram em férias. Kamala Harris, que teve 48,5% da votação popular contra 50,5% de Trump na disputa presidencial, lançou um livro sobre a campanha e ficou nisso. O elenco dos notáveis, se fez alguma coisa, foi desperdiçar tempo e energia autopsiando a derrota de 2024.
Divisões internas viram feridas incuráveis. Ainda há dificuldade em assimilar a vitória de Zohran Mamdani na disputa pela Prefeitura de Nova York, bem como o avanço dos socialistas democratas nas primárias de junho. Ou o crescimento espontâneo do nome da deputada Alexandria Ocasio-Cortez em pesquisas para a Presidência —sendo ela mulher, jovem, latina e progressista. A renovação geracional se faz, o que empurra os medalhões para a aposentadoria; no entanto, o momento, hoje, é de união.
Ironicamente, o presidente tem contribuído para uma reação orgânica dos seus opositores. Sua aprovação não para de cair, no sentido inverso ao preço dos combustíveis —fruto de uma guerra impopular—, ao custo de vida, ao efeito das tarifas na economia doméstica, à crise climática, enfim, sobram motivos para os acomodados saírem da letargia.
Trump ganhou em 2016 com a maioria do voto latino. No entanto, em 2024, foi Kamala quem levou a melhor. Alcançou 54%. O que o Partido Democrata fez desse capital político? Em recente artigo no New York Times, Andrea Flores, ex-conselheira de Obama para imigrações, foi explícita: “Os latinos estão dizendo ‘Nós queremos uma fronteira segura e um caminho legal para quem construiu a vida neste país’”. O que falta para os democratas abraçarem uma campanha vigorosa pela legalização dos imigrantes?
O clima na sede do partido vai de mal a pior, mas sempre se poderá dizer que o problema vem da falta de fundos, na reta final até novembro. O que foi arrecadado é uma ninharia comparada à dinheirama dos republicanos. Porém, à falta de alternativas, resta transformar a vicissitude em motivação para atrair o eleitorado.




