Atualmente, aos 37 anos, a brasileira Priscila Sousa tem cidadania americana e é deputada estadual pelo Partido Democrata no estado de Massachusetts. Quando chegou aos Estados Unidos aos 7 anos, porém, ela era mais uma entre milhões de crianças que vivem sem documentos no país.
Sousa recebeu oficialmente o direito de permanecer nos EUA quase dez anos depois. “Podia respirar um pouco mais leve, porque você não estava na iminência de ser tirado do país a qualquer momento”, contou em entrevista à Folha neste mês, durante viagem ao Brasil promovida pela WEC (Women’s Equality Center) e o SIX (State Innovation Exchange).
Hoje, Sousa representa um distrito da cidade de Framingham, na região metropolitana de Boston, onde há uma das maiores concentrações de imigrantes brasileiros nos EUA. Como mostrou a Folha, o endurecimento nas políticas migratórias estabelecido pelo presidente Donald Trump tem mudado o cotidiano da cidade.
A cidade tem cerca de 72 mil habitantes, sendo 8 mil brasileiros, segundo dados oficiais de 2022. Outras estimativas apontam que mais de 25 mil desses imigrantes moram em Framingham. Já o estado de Massachusetts concentra o segundo maior número de brasileiros nos EUA, perdendo apenas para a Flórida.
A deputada afirma que além da baixa no comércio, o medo de deportação tem levado crianças a abandonarem a escola, e que recebeu denúncias de que agentes no serviço de imigração, o ICE (Immigration and Customs Enforcement), têm realizado prisões sem mandado e sem se identificar.
“Agora os policiais estão simplesmente falando “we don’t need a warrant” [nós não precisamos de mandado]. Ou não estão se identificando, ou estão usando máscaras. E realmente a preocupação é que o sistema não está funcionando, quase uma sensação de sequestro”, disse.
A sra. foi para os Estados Unidos como imigrante indocumentada. Como foi o seu processo para regularizar o status migratório?
Nós viemos com visto e ficamos além da permanência, igual muitos fazem. Depois disso não tivemos a oportunidade de… não tinha caminho para a legalização. Meus pais aplicaram para loteria do green card [residência permanente nos EUA] e não deu certo.
Alguns anos depois, eles conseguiram dar início ao processo, mas por nove anos e meio a gente estava com status irregular.
E o que mudou na sua vida quando a sra. conseguiu o status migratório regular?
Antes da cidadania, eu consegui o green card, que é a residência permanente nos EUA. Com isso, eu podia planejar a faculdade. Mudou o meu relacionamento com autoridade, com polícia. Podia respirar um pouco mais leve, porque você não estava na iminência de ser tirado do país a qualquer momento.
Como as políticas imigratórias do presidente Donald Trump têm impactado a população brasileira nos EUA e na cidade de Framingham, onde está o distrito que a sra. representa e que tem uma das maiores concentrações desses imigrantes?
Têm causado pânico. Somos uma cidade que, além de brasileiros, temos imigrantes de tudo quanto é lado. O comércio caiu bastante, as crianças não estão indo para a escola por medo. O funcionamento da cidade parou um pouco.
E acho que tem coisas que a gente ainda não está vendo. Deve ter gente que não está buscando cuidado médico, vítimas de violência doméstica ficando em casa por medo procurar a polícia, de serem entregues para a imigração. Ele está causando terror e eu acho que nós ainda não sabemos o tamanho real disso.
Como estão sendo as abordagens policiais a imigrantes na cidade? A sra. recebeu alguma denúncia em relação aos agentes de imigração?
Sim, eu estou recebendo relatos de policiais que não estão se identificando [na hora das abordagens].
A maioria do treinamento que nós demos para os imigrantes no “Know Your Rights Training” [conheça seus direitos] no início do ano falava que a primeira coisa que eles tinham que perguntar para o policial era “você tem um mandado judicial?”
Antigamente eles mostravam ou não prosseguiam com a abordagem quando a pessoa conhecia os seus direitos e pedia o mandado. Agora os policiais estão simplesmente falando “we don’t need a warrant” [nós não precisamos de mandado]. Ou não estão se identificando, ou estão usando máscaras. E realmente a preocupação é que o sistema não está funcionando, quase uma sensação de sequestro.
Além disso, fica difícil saber se são agentes do ICE ou pessoas maldosas querendo colocar medo na comunidade imigrante.
Em relação ao medo, a sra. mencionou a questão das escolas. O que está sendo feito na cidade para mitigar essa perda educacional causada pelo medo de deportação?
O nosso superintendente escolar tem mandado mensagem após mensagem, educando os pais sobre o que vai acontecer se a imigração entrar aqui, o que nós vamos fazer para proteger os seus filhos. Dando apoio emocional.
Muitas crianças não querem ir para a escola porque elas estão com medo e dizem: “Se meus pais forem levados durante o dia, o que vai acontecer comigo? Quem vai me buscar da escola?”
Além disso, muitos pais já estão optando por se autodeportar e fazendo preparações para ir daqui alguns meses. Dizem: “Nós vamos voltar para o Brasil, então, de agora em diante, meu filho não vai voltar para a escola”. Mas se você tem um filho de sete, oito anos, são meses durante o desenvolvimento acadêmico, social e intelectual que ele vai perder. A gente também está vendo isso acontecer muito.
Como a sra. vê as tentativas de oposição do Partido Democrata às medidas de Trump? Estão sendo suficientes?
Não, mas acho que não é por falta de interesse nem competência. É porque nós estamos lidando com um governo com medidas tão imprevisíveis e tão… estamos com um estilingue para brigar com alguém que tem uma bazuca.
E tendo que ajustar e fazer as mudanças a todo momento tem sido difícil. Então, realmente, a resposta não tem sido satisfatória, mas não é por falta de esforço.
Priscila Sousa, 37
Nascida em Ipatinga (MG), imigrou para os Estados Unidos aos 7 anos. Desde 2023, é deputada estadual pelo Partido Democrata em Massachusetts. É formada em ciência política pela Simmons College.
A repórter viajou a convite do Women’s Equality Center e do SIX




