Fragmentos retorcidos de mísseis que supostamente seriam do ataque que atingiu uma base naval e uma escola primária no sul do Irã no dia 28 de fevereiro trazem marcações de um míssil de cruzeiro dos Estados Unidos, de acordo com nova análise do The New York Times.
Fotos dos fragmentos foram publicadas no Telegram pela emissora estatal do Irã e descritas como mostrando “os restos do míssil americano que caiu sobre as crianças da escola de Minab“, o nome da cidade atingida.
Nas imagens, os destroços estão expostos em uma mesa próxima à estrutura da escola primária Shajarah Tayyebeh, cuja maior parte foi destruída em um ataque, segundo análise anterior do Times. Pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças, teriam sido mortas.
Embora não esteja claro onde ou como os fragmentos foram recuperados —ou se eles se referem especificamente ao ataque à escola—, eles contêm números de série e outros detalhes consistentes com a forma como o Departamento de Defesa e seus fornecedores categorizam e rotulam munições. Os restos parecem ser de um míssil de cruzeiro Tomahawk fabricado nos Estados Unidos em 2014 ou posteriormente.
As evidências analisadas pelo New York Times têm se acumulado no sentido de que a escola foi atingida durante uma série de ataques americanos direcionados a uma base naval adjacente. No domingo (8), um vídeo foi publicado pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr, que o jornal americano e outros veículos identificaram como um Tomahawk atingindo um prédio médico na base naval. O Pentágono classifica o Tomahawk como uma munição guiada de precisão.
O Departamento de Defesa divulgou vídeos de navios de guerra da Marinha dos EUA disparando Tomahawks contra o Irã em 28 de fevereiro, o primeiro dia dos ataques e o dia em que a escola foi atingida. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse em duas ocasiões na semana passada que Tomahawks lançados pela Marinha foram usados para atacar alvos ao longo da costa sul do Irã durante as primeiras horas da guerra.
No sábado, o presidente Donald Trump afirmou que a escola foi atingida pelo Irã sem apresentar qualquer prova. Na segunda-feira, ele voltou a sugerir esse cenário.
“O Irã também tem alguns Tomahawks”, disse ele em resposta a perguntas de um repórter do NYT em uma entrevista coletiva. “Como vocês sabem, várias outras nações têm Tomahawks. Elas compram de nós.”
Na verdade, o Irã não possui Tomahawks. Qualquer país para o qual os EUA tenham vendido Tomahawks precisaria obter autorização do Departamento de Estado antes de transferi-los a terceiros, como o Irã.
Trump também acrescentou que foi informado de que o incidente de Minab estava sob investigação e que, quaisquer que sejam os resultados da apuração, ele estava “disposto a aceitar”.
Além dos EUA, apenas dois países são conhecidos por possuírem mísseis Tomahawk: Austrália e Reino Unido. Dois países adicionais concordaram em comprá-los —o Japão em 2024 e a Holanda em 2025. Em outubro, Trump cogitou abertamente fornecer Tomahawks à Ucrânia, mas não levou a ideia adiante.
Mesmo que o Irã conseguisse de alguma forma obter um Tomahawk, ele não possui o equipamento técnico e as capacidades usadas para programar suas trajetórias de voo e carregar esses dados no computador de bordo do míssil. O Irã também precisaria ter um lançador capaz de disparar um Tomahawk sem danificá-lo.
Teerã produziu dois modelos de mísseis de cruzeiro para atacar alvos terrestres. Mas as duas armas têm características de design que as distinguem visualmente de um Tomahawk, mesmo quando vistas à distância.
Nas fotos dos destroços das armas, um fragmento está marcado como “SDL Antenna”, uma antena permite conexão com dados enviados por satélite, parte de um sistema de comunicações instalado em versões mais modernas do Tomahawk. Um número exclusivo de contratos do Departamento de Defesa indica que o componente foi fornecido às Forças Armadas dos EUA como parte de um pedido de 2014. O nome da Ball Aerospace Technologies, fabricante de armas sediada em Boulder, no Colorado, que foi adquirida pela BAE em 2024, está impresso na peça.
Outro fragmento está carimbado com “Made in USA” e traz o nome da Globe Motors, fabricante sediada em Ohio. De acordo com a fonte oficial de dados abertos sobre gastos do governo federal americano, a empresa recebeu milhões de dólares em contratos do Departamento de Defesa para componentes, incluindo os motores atuadores usados para mover as aletas de direção que guiam os mísseis Tomahawk.
As fotos correspondem a fragmentos documentados em ataques de mísseis Tomahawk em conflitos anteriores, incluindo o componente da Globe Motors, bem como uma placa de circuito, ambos fotografados no Iêmen e arquivados pelo Open Source Munitions Portal, um banco de dados de fragmentos de armas encontrados em zonas de conflito. Um componente similar da Globe Motors também foi encontrado na Síria.
Trevor Ball, ex-técnico de desativação de explosivos do Exército dos EUA que trabalha com o coletivo de pesquisa Bellingcat, também identificou os componentes como sendo parte de um míssil Tomahawk. Ele identificou fragmentos de mísseis semelhantes fotografados em outros locais de ataque no Irã desde o início da guerra entre Israel e EUA.




