Argentina: ex-presa relembra 50 anos de golpe militar – 27/03/2026 – Ilustríssima

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[RESUMO] Há 50 anos um golpe militar na Argentina deu início a uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina. Na entrevista a seguir, a jornalista Miriam Lewin comenta sua participação política no período, os dois anos de prisão em centros de tortura, os assassinatos e desaparecimentos de companheiros da esquerda e o julgamento que puniu os militares, retratado no filme “Argentina, 1985”, de 2022, indicado ao Oscar.

Em julho de 1985, a jornalista e ex-presa política Miriam Lewin, então com 27 anos, chegou à Câmara Federal, no Palácio de Tribunales de Buenos Aires, para prestar seu primeiro depoimento ao Juicio a las Juntas, o histórico julgamento civil das três juntas militares que governaram o país entre 24 de março de 1976 e 10 de dezembro de 1983.

Os representantes das Forças Armadas que impuseram uma das ditaduras mais truculentas do Cone Sul tornavam-se réus em decorrência dos crimes de lesa-humanidade cometidos durante sete anos: sequestros, torturas, homicídios e o desaparecimento de corpos, a grande marca do regime militar argentino.

Embora não tenha sido criado pelo Processo de Reorganização Nacional, como se autodenominava a última ditadura do país, o desaparecimento de pessoas foi sistematizado por ele. Era uma forma de “evitar denúncias similares às que recebia a ditadura chilena”, conforme narra o sociólogo Emilio Crenzel em “Pensar los 30.000” (inédito no Brasil).

O título do livro se refere à estimativa de grupos de direitos humanos para o número de desaparecidos na ditadura. Conforme o Archivo Nacional de la Memoria citado por Crenzel, abarca as vítimas do desaparecimento forçado, menores apropriados que ignoram sua identidade e sobreviventes dos centros clandestinos.

O desaparecimento, segundo o autor, “permitia a seus executores estender sem limites a tortura, desconcertar seus inimigos e eliminá-los sem obstáculos legais”.

Como disse o próprio general Jorge Rafael Videla, ditador que governou a Argentina de 1976 a 1981: “O desaparecido é uma incógnita. Não tem identidade, não está nem morto, nem vivo. Está desaparecido”.

A história, porém, mostrou a forte presença desses desaparecidos na sociedade argentina. Em 19 de agosto de 1983, 40 mil pessoas ocuparam as principais avenidas de Buenos Aires numa manifestação organizada pelas Madres de Plaza de Mayo, grupo surgido em abril de 1977, unindo mães em busca de seus filhos.

A marcha foi um golpe no projeto de anistia que os militares planejavam a eles mesmos. Com o fim da ditadura e a eleição de Raúl Alfonsín, da Unión Cívica Radical (UCR), nas eleições de 1983, foi instituída a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Miriam, que permaneceu presa por dois anos, foi uma das depoentes na comissão.

O trabalho da Conadep durou nove meses e chegou ao número de 8.961 desaparecidos. Esse dado é utilizado pelo atual presidente, Javier Milei, e parte da direita argentina para contestar a cifra de 30 mil “detenidos-desaparecidos” defendida por grupos de direitos humanos, como as Madres de Plaza de Mayo. Documentos do Exército, ainda em 1978, afirmam ser 22 mil os detidos e desaparecidos. De acordo com Miriam, muitas pessoas deixaram de depor à Conadep.

“Cada vez que eu lanço um dos meus livros, alguém me diz: ‘A mim também me levaram, mas foram só quatro dias, e nunca fiz a denúncia”, conta. “Há toda uma gama de situações. Havia o trabalhador que dizia à família, ‘vou trabalhar’, e, depois, não aparecia mais. E a família não o identificava como desaparecido por razões políticas. Inclusive algumas famílias de classe média não fizeram a denúncia, porque eram famílias de direita e as culpabilizavam seus filhos porque haviam desaparecido.”

Havia também o receio de perseguição política. Era, afinal, o começo da democracia, e nada estava garantido. Esse sentimento perpassava, inclusive, as testemunhas do Julgamento das Juntas.

“A sensação era de extrema vulnerabilidade. A mim me diziam na Procuradoria: “Recomendamos que, nos dias prévios à declaração, não vá à sua casa, e que nos dias posteriores, tampouco. Nós não podemos garantir sua segurança. O que podemos oferecer é uma escolta da Polícia Federal.”

O depoimento de Miriam, disponível no YouTube, durou três horas e 15 minutos. O general Videla e o almirante Emilio Eduardo Massera, governantes da primeira Junta Militar, foram condenados à prisão perpétua ao final daqueles meses. Outros militares receberam penas menores.

O julgamento, porém, não foi o fim da história. Foi o começo de uma longa batalha com dinâmica pendular de avanços e retrocessos, que vive hoje um de seus momentos mais delicados em mais de quatro décadas de democracia na Argentina.

Nascida em uma família de classe média portenha, Miriam iniciou sua militância política no Colégio Nacional de Buenos Aires, instituição ligada à Universidade de Buenos Aires.

Era 1973. Os peronistas voltavam ao poder por meio da eleição de Héctor Cámpora para a Presidência após 18 anos de proscrição política, três golpes de Estado e a derrota do ditador Juan Onganía pela união de universitários e sindicalistas nos protestos do Cordobazo em 1969.

Empolgada com tantas vitórias, a esquerda se equipava com trabucos e máquinas de escrever, organizada em movimentos armados como os montoneros, de linhagem peronista e revolucionária. “A ameaça comunista” chegou a ser uma realidade para as oligarquias. Sem alternativa, elas tiveram de apelar para a única liderança capaz de unificar o país: o general Juan Domingo Perón, que haviam derrubado em 1955, com ajuda dos militares. Perón foi eleito presidente pela terceira vez.

O primeiro mandato dele, de 1946 a 1952, havia sido o último instante de uma Argentina unida e próspera. O segundo (1952 a 1955), prejudicado pelas adversidades da conjuntura econômica internacional, ficou marcado pela repressão política e terminou com sua caída.

Em 1973, as adversidades da conjuntura econômica tornaram impossível sustentar uma coalizão na qual todos estivessem atendidos. No lugar da paz, veio a espada da Aliança Anticomunista Argentina (Triple A), grupo paramilitar da direita peronista, que perseguia a esquerda armada. Em consequência, os montoneros passaram à clandestinidade, perdendo parte do vínculo com trabalhadores e estudantes.

A morte de Perón, em julho de 1974, agravou a crise econômica e política. Sua sucessora, Isabelita Perón, vice-presidente e primeira-dama, vista com desconfiança pelas bases peronistas, conduziu um governo errático e fortaleceu a Triple A.

“Os desaparecimentos começaram no governo de Isabel”, lembra Miriam. “Mas os militantes reapareceriam. Torturados, machucados, mas reapareciam.”

Após o golpe de 24 de março, a situação mudou. A aliança entre as elites econômicas e os militares pretendia pôr fim a duas décadas de instabilidade política e econômica. Para eles, as oscilações econômicas argentinas eram um problema político, oriundo das demandas dos setores trabalhistas e de empresários considerados ineficientes, habituados às políticas do peronismo, baseadas no protecionismo e na legislação sindical.

“Acreditava que a repressão na ditadura ia ser mais organizada. Pensava que os militares iam sequestrar, prender, julgar. O único que fizeram foi aprofundar a metodologia que já se havia esboçado durante o governo de Isabel”, afirma Miriam.

Sequestrada em 17 de maio de 1977, após um atentado imputado a uma companheira, Miriam foi levada para a inteligência da Força Aérea. Mantida em isolamento, sofreu diversos tipos de tortura.

“Eles não sabiam o que fazer comigo. A princípio, disseram que iam me deixar sair do país. Depois, se arrependeram e me levaram à Esma.”

A Escola de Mecânica da Armada foi o maior centro clandestino, dentre os mais de 800, da ditadura argentina. Por seus porões passaram cerca de 5.000 presos políticos. Desses, apenas 500 saíram com vida, segundo dados da própria instituição.

Hoje denominada ex-Esma, tornou-se um espaço de memória reconhecido pelas Nações Unidas. O local, contudo, vem sofrendo cortes no governo de Javier Milei. Em 2024, seu orçamento caiu em mais de 88%, em termos reais. Para este ano, como aconteceu em 2025, não há dotação orçamentária prevista. Os dados são da Oficina Nacional de Presupuesto.

Miriam ficou presa ali entre março de 1978 e janeiro de 1979. Assim como os demais “detenidos-desaparecidos”, como são definidos na Argentina, ficava no sótão, no último andar de um de seus edifícios, um espaço de teto baixo e triangular, sem acesso à luz. As presas políticas grávidas ficavam em uma pequena sala retangular à parte, a qual poucos, como Miriam, tinham acesso.

“Ninguém dizia a elas que iam roubar seus filhos. Diziam para escolher o nome da criança e escrever uma carta à família, confiando-lhe a criança e dizendo que iam cumprir um período na prisão e depois iam reunir-se com seus filhos e familiares. E isso não acontecia.”

Segundo dados das Abuelas de Plaza de Mayo, organização que surgiu naquele período para encontrar os filhos das detidas sequestradas grávidas, 240 crianças nasceram e foram apropriadas nos centros clandestinos da ditadura. O total é estimado em 392, das quais 140 foram recuperadas até março de 2026.

Na Esma, Miriam também via, às quartas e sábados, companheiros de prisão serem chamados pelos repressores e levados dali. Soube-se depois que eram dopados e jogados de aviões ou helicópteros na Bacia do Prata. A prática, conhecida como “voos da morte”, foi tema de um dos livros de Miriam, “Skyvan. Aviones, Pilotos y Archivos Secretos”. Sua investigação para a obra ajudou a identificar o piloto de um desses voos, que acabou condenado à prisão perpétua.

Ela narrou os crimes sexuais da ditadura em “Putas y Guerrilleras”, coescrito com a jornalista Olga Wornat. Também é coautora de “Ese infierno. Conversaciones con Cinco Mujeres Sobrevivientes de la Esma”.

Ao deixar a Esma, Miriam passou por um período de liberdade vigiada em Buenos Aires. Ou do que havia restado da capital argentina.

“Notava-se a falta de uma geração. Caminhava-se pela avenida Corrientes e se notava a falta dessa geração de 20 a 30 anos. Os bares em que a gente ia estavam vazios: o La Paz, La Giralda, o Bar Ramos. Você não encontrava as pessoas da sua geração porque as pessoas evitavam ir a esses lugares ou estavam exiladas, ou desaparecidas.”

Aqueles que sobreviveram ao terror carregavam uma dor adicional. “Os companheiros que não haviam caído [sido presos] não queriam, por desconfiança, se juntar com aqueles que haviam sobrevivido. Por que algumas pessoas sobreviveram se quase todo mundo estava morto ou desaparecido? Era uma situação de merda. Não havia explicação lógica, era parte da loucura dos repressores. Alguns prisioneiros haviam delatado [seus companheiros] e sido assassinados da mesma maneira. Outros não. Isso deixava o sobrevivente culpado em qualquer circunstância. Depor nos Juicios a las Juntas, contar o que vivemos nos campos de concentração, fez com que nos sentíssemos melhor.”

A crise econômica da segunda metade dos anos 1980 quebrou qualquer iniciativa de dar continuidade ao julgamento dos repressores. Pressionado pelos militares, Alfonsín promulgou em dezembro de 1986 a Lei de Ponto Final, que estabeleceu um prazo máximo de 60 dias a partir dali para o início de novos processos judiciais contra membros da ditadura, o que, na prática, paralisou as ações.

No ano seguinte, decretou a Lei de Obediência Devida, que isentou militares de baixa patente da responsabilidade por crimes cometidos sob as ordens das Forças Armadas.

As duas leis, bastante impopulares, somaram-se ao agravamento da crise econômica. Entre 1987 e 1989, a inflação saltou de 127% a mais de 3.000% ao ano. Em 1989, a economia caiu 7,2%, segundo dados do Banco Mundial.

Alfonsín foi sucedido por Carlos Menem, peronista histórico que passou seis anos preso durante a ditadura e, na campanha, prometeu uma revolução produtiva e um “salariazo”. Na prática, entregou uma política econômica que era uma continuidade daquela iniciada em 1976 pelo “chicago boy” de Videla, José Alfredo Martinez de Hoz, e indultou generais que haviam sido condenados, como Videla.

Entre 1976 e 1979, a combinação de juros altos e desaparecimentos criou, na imagem do escritor Marcos Aguinis em “O Atroz Encanto de Ser Argentino”, “tempos de cruzamentos sinistros entre o júbilo e a tragédia”. Entre 1991 e 1999, a combinação da paridade dólar-peso e o indulto a militares promoveu a “pax menemista”, que também duraria pouco.

Em 1998 Videla voltou para a cadeia por alguns dias pelo crime de sequestro de bebês. No começo dos anos 2000, quando veio abaixo o frágil edifício da paridade peso-dólar, provocando a maior crise econômica da história de um país pródigo no assunto, caíram também as Leis de Ponto Final e da Obediência Devida.

Em 2005, durante o governo do peronista Néstor Kirchner, foram retomadas as ações penais contra os repressores, que seguem até hoje. Três anos depois, o indulto a Videla foi anulado, e em 2010 ele foi novamente condenado à prisão perpétua. Morreu na prisão, sentado em uma privada, em 2013. Seu cadáver peregrinou por três cemitérios, que se negaram a enterrá-lo.

Hoje, contudo, o país não conta com o mesmo consenso de anos atrás em relação à ditadura. Pelos muros de Buenos Aires e outras cidades argentinas, é comum deparar-se com uma disputa de pichações sobre o número de desaparecidos: “No son 30 mil” e “Son 30 mil”.

Os cortes de gastos têm atingido os processos judiciais por delitos contra a humanidade e o Banco Nacional de Dados Genéticos, que perdeu quase 30% de recursos no último ano. A instituição, criada na década de 1980, foi fundamental para restituir a identidade de crianças apropriadas pela ditadura.

Na última terça (24), novamente o governo Milei defendeu a necessidade de divulgar o que chama de “memória completa” do período, por meio da chamada “teoria dos dois demônios”. Essa tese equipara os crimes dos grupos armados aos do Estado. A vice-presidente, Victoria Villarruel, propõe que as famílias de vítimas dos grupos armados de esquerda também sejam indenizadas e recebam seu devido lugar nos espaços de memória.

“Não podemos comparar os crimes do Estado com os crimes que se cometeram nas organizações armadas, por mais graves que sejam”, avalia Miriam. “O Estado, durante a ditadura, se converteu em terrorista. O Estado se converteu em torturador, assassino, violador de mulheres, se apropriou de crianças e bens de maneira fraudulenta.”

Ainda assim, ela acredita que há razões para esperança. Também na terça milhares de argentinos foram às ruas em repúdio à ditadura. “A Argentina, com idas e vindas, se transformou em um farol, em termos de políticas punitivas a violadores de direitos humanos.”

Não apenas. Por onde se passe, em Buenos Aires, haverá uma placa numa calçada para lembrar que ali viveu uma pessoa que, por razões políticas, foi sequestrada e desaparecida. E uma madre, uma abuela, um filho ou quem quer que seja para perguntar: “Donde están?”



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