Argentina: ‘Pude começar nova vida’, diz neto encontrado – 23/03/2026 – Mundo

177429314469c19098efa3d_1774293144_3x2_rt.jpg


Para Daniel Santucho Navajas, foi como se a vida começasse aos 46 anos. Sequestrado ainda bebê e entregue a um policial que apoiava a última ditadura argentina (1976-1983), ele descobriu ser filho da ativista Cristina Navajas e se tornou, em 2023, o neto nº 133 das Avós da Praça de Maio.

Ele nasceu em 1977, em um centro de detenção clandestino de Buenos Aires. Sua mãe foi sequestrada quando estava grávida do terceiro filho e nunca foi encontrada.

Agora, no aniversário de meio século do golpe, quando os argentinos se organizam para uma megamanifestação em Buenos Aires, ele transformou a identidade roubada em memória coletiva, passou a trabalhar com direitos humanos e percorre escolas e centros comunitários para contar a sua história.

“Cresci em uma família que defendia a ditadura, que justificava as ações dos militares durante o regime e passei a infância no interior da Argentina, na província de Santiago del Estero, de onde era o homem que eu acreditava ser meu pai.

Na adolescência, tive a oportunidade de aprender mais, ver filmes e entender que o que era dito naquela casa não correspondia à realidade. Conforme fui crescendo, me distanciei da maneira como pensavam, mas nunca me passou pela cabeça que eles não fossem meus pais.

As dúvidas só começaram quando eu tinha 21 anos. Uma irmã me disse que achava que eles não eram meus pais, que sempre mentiram para mim. Ela disse que não tinha provas, mas que a principal pista era a idade da mulher que eu acreditava ser minha mãe.

Quando eu nasci, essa mulher já tinha 50 anos, e era muito improvável que pudesse engravidar, ainda mais na década de 1970. Procurei o homem que eu acreditava ser meu pai e pedi uma explicação. Ele negou tudo e me disse que minha irmã estava mentindo.

Vivi com essas dúvidas por mais de 20 anos e só em 2023, aos 46 anos, depois de confrontá-lo e exigir a verdade, percebi que ele continuava mentindo para mim.

Sentindo-se encurralado, ele construiu uma nova versão, me disse que, na verdade, havia se separado da minha mãe e que ela havia me deixado ainda bebê. Percebi que ele nunca me contaria a verdade, então, procurei as Avós da Praça de Maio e pedi ajuda.

Elas me ouviram e me aconselharam a tentar encontrar minha certidão de batismo, pois em vários casos, os apropriadores escolheram a pessoa que entregou o bebê para adoção como padrinho ou madrinha da criança. Fui à paróquia onde fui batizado e, para minha surpresa, vi que havia sido batizado em 19 de março de 1977, embora minha data de nascimento registrada era 24 de março —ou seja, fui batizado cinco dias antes de nascer.

Seguindo o caminho que as Avós foram trilhando, marquei um teste de DNA para 28 de abril de 2023. Alguns dias antes de fazer o exame, um irmão adotivo me contou que, quando ele tinha 12 anos, estava visitando a casa dos meus apropriadores e ouviu dois policiais dizerem: ‘Não se preocupem, vamos arranjar um bebê para vocês’.

Cada passo que eu dava, cada informação que eu descobria, me reforçava a certeza de que eu poderia ser um dos netos das Avós da Praça de Maio. Fui restituído em 26 de julho de 2023.

Poder recuperar minha identidade, a da minha família e poder dar às minhas filhas suas verdadeiras identidades foi muito importante.

Antes de descobrir quem eu era, era uma pessoa muito antissocial, bastante tímida e reservada. Tinha poucos amigos, quase nenhum, eu diria. E minha vida mudou completamente. Isso me ajudou a socializar, a fazer amigos, a deixar para trás muitos daqueles medos, dúvidas e inseguranças e pude começar uma nova vida.

Foi incrível saber que tinha um pai e três irmãos que me procuravam. Foi uma sensação de imensa felicidade.

Uma das primeiras coisas que eu precisava saber era sobre minha mãe, Cristina. Queria saber como ela conheceu meu pai, Julio. Descobri que ela era uma pessoa muito determinada, confiante, uma professora e estudante de sociologia.

Meu pai ia ser padre, estava estudando em um seminário quando conheceu minha mãe e abandonou os estudos por amor. Ele se tornou teólogo e depois, no exílio, professor na Europa de história da América Latina, diretor de cinema e escritor.

Viajei para a Itália para encontrar meus meio-irmãos, descobri que tenho 23 primos e pude compartilhar memórias com alguns deles. É difícil explicar como foi emocionante conhecer a história da minha avó materna, Nélida Gómez de Navajas [uma das Avós da Praça de Maio, morta em 2012].

Não tenho interesse em ter qualquer ligação com a família dos apropriadores. Eles escolheram fingir que não viam nada. Se eles tivessem dito a verdade, eu poderia ter conhecido a minha avó. Mas bem, essas são coisas que eu não posso mudar, o importante é o presente e o que eu posso fazer com o futuro.

Hoje, aos 49 anos, trabalho no departamento de direitos humanos da prefeitura onde moro, em Almirante Brown [na província de Buenos Aires], e compartilho meu testemunho em escolas, do ensino fundamental ao ensino médio e universitário.

Trata-se de honrar os que desapareceram durante a ditadura e reconhecer as pessoas que viviam no mesmo bairro, nos mesmos quarteirões, nas mesmas ruas, para que sua luta e sua história sejam conhecidas.

Tenho duas filhas: Camila, de 16 anos, e Mile, de 11. E foi por causa delas que consegui continuar neste caminho, entendendo que elas eram a única coisa real que eu tinha na vida e que era muito importante poder recuperar também as identidades delas.

Ouvir os políticos do atual governo [de Javier Milei] negarem e tentarem justificar o que aconteceu ou falarem em virar a página, em deixar essa parte da nossa história para trás, dá raiva. Mas por outro lado, trata-se de compreender quais interesses estão em jogo.

Talvez alguns sobrenomes mudem, alguns rostos mudem, mas eles também fazem parte do que aconteceu. A ditadura não era apenas militar, mas também envolvia os empresários que a apoiavam, parte da igreja que a apoiava.

No fim das contas, o que a ditadura tinha em mente eram interesses políticos, certo? Tratava-se de saquear a riqueza do país para ganho pessoal. E hoje, as políticas que estamos sofrendo têm o mesmo objetivo.”



Source link

Leia Mais

Grêmio supera Internacional por 2 a 1 no Brasileiro Feminino

Grêmio supera Internacional por 2 a 1 no Brasileiro Feminino

março 28, 2026

naom_6964d1616aa89.webp.webp

‘Tem que virar a página da desconfiança com Michelle e Tarcísio’, diz Flávio Bolsonaro

março 28, 2026

Rio: palácio sede do Império recebe exposição de mais de

Rio: palácio sede do Império recebe exposição de mais de 100 artistas

março 28, 2026

177429314469c19098efa3d_1774293144_3x2_rt.jpg

Argentina: ‘Pude começar nova vida’, diz neto encontrado – 23/03/2026 – Mundo

março 28, 2026

Veja também

Grêmio supera Internacional por 2 a 1 no Brasileiro Feminino

Grêmio supera Internacional por 2 a 1 no Brasileiro Feminino

março 28, 2026

naom_6964d1616aa89.webp.webp

‘Tem que virar a página da desconfiança com Michelle e Tarcísio’, diz Flávio Bolsonaro

março 28, 2026

Rio: palácio sede do Império recebe exposição de mais de

Rio: palácio sede do Império recebe exposição de mais de 100 artistas

março 28, 2026

177429314469c19098efa3d_1774293144_3x2_rt.jpg

Argentina: ‘Pude começar nova vida’, diz neto encontrado – 23/03/2026 – Mundo

março 28, 2026