Arquivos de Epstein revelam elite irresponsável – 20/02/2026 – Mundo

Arquivos de Epstein revelam elite irresponsável - 20/02/2026 - Mundo


Jornalistas e pesquisadores passarão os próximos meses vasculhando os arquivos de Jeffrey Epstein em busca de mais condutas criminosas ou de uma nova trama conspiratória. Mas uma verdade já emergiu.

Com detalhes implacáveis, os documentos expõem as atividades antes furtivas de uma elite irresponsável, composta em grande parte por homens ricos e poderosos dos negócios, da política, da academia e do entretenimento.

Os documentos contam a história de um criminoso hediondo que recebeu tratamento privilegiado da classe dominante em que vivia, tudo porque tinha algo a oferecer: dinheiro, conexões, jantares suntuosos, um avião particular, uma ilha isolada e, em alguns casos, sexo.

Essa história de impunidade é ainda mais ultrajante agora, em meio à crescente indignação popular e à desigualdade cada vez maior. As artimanhas à la Calígula de Epstein e seus amigos ocorreram ao longo de duas décadas que testemunharam o declínio do setor manufatureiro americano e a crise dos subprimes, na qual milhões de americanos perderam suas casas.

Se o objetivo de Epstein era construir uma muralha de proteção em torno de seus abusos, cercando-se de pessoas influentes, ele fracassou no fim. Mas, tanto antes quanto depois de ser processado pela primeira vez por abusar de meninas, sua correspondência descrevia uma rede de pessoas cujas vidas luxuosas contrastavam com as dificuldades enfrentadas pelos americanos comuns. E no centro dessa rede estava um predador sexual aparentemente no auge do poder.

“Ouvimos muito sobre o escândalo Epstein nos últimos anos”, diz Nicole Hemmer, professora de história da Universidade Vanderbilt que escreve frequentemente sobre cultura política. “E, no entanto, as pessoas parecem chocadas com a extensão da cumplicidade da elite em seu mundo. É um nível de corrupção que o público agora está vendo por completo.”

Em 2002, Epstein recebeu o ex-presidente Bill Clinton e o ator Kevin Spacey em uma viagem por países africanos a bordo de seu jato particular.

Seu talento para entreter despertou o interesse de um dos homens mais ricos do mundo, Elon Musk, que enviou um email a Epstein em 2012 perguntando: “Qual será o dia/noite da festa mais animada na sua ilha?” (Musk afirmou nas redes sociais que “teve pouquíssima correspondência com Epstein e recusou repetidos convites para ir à sua ilha”).

Havia, é claro, sua amizade com Donald Trump.

E ele distribuía favores e convivia com Woody Allen, ator e cineasta americano; Noam Chomsky, linguista e intelectual; Kenneth W. Starr, procurador independente na investigação de Clinton; Kathryn Ruemmler, ex-conselheira da Casa Branca de Barack Obama, que renunciou ao cargo de conselheira geral do Goldman Sachs em meio ao escrutínio de seus laços com Epstein; Steve Bannon, um dos principais aliados políticos de Trump; Deepak Chopra, o guru da Nova Era; Barry Josephson, produtor de cinema; Larry Summers, ex-reitor de Harvard e ex-secretário do Tesouro; Andrew Mountbatten-Windsor, o ex-príncipe Andrew; Sarah Ferguson, a ex-duquesa de York; a princesa herdeira Mette-Marit. da Noruega; e uma série de magnatas das finanças.

James E. Staley, que recentemente deixou o cargo de presidente-executivo do Barclays em decorrência das alegações envolvendo seus laços com Epstein, enviou um email ao financista em 2014 sugerindo que americanos de casta superior, como eles, dificilmente enfrentariam uma revolta popular como os protestos que ocorriam no Brasil na época.

Apontando para os comerciais do Super Bowl daquele ano, Staley escreveu: “É tudo sobre negros descolados em carros descolados com mulheres brancas. O grupo que deveria estar nas ruas foi comprado. Por Jay-Z.”

A natureza chocante de algumas das revelações, combinada com a proeminência e o status daqueles que orbitavam Epstein, não fez nada para silenciar as teorias da conspiração que seu comportamento gerou e que tanto a direita quanto a esquerda tentaram instrumentalizar para obter vantagens políticas. Pelo contrário, a enxurrada de novos detalhes alimentou novas especulações febris com pouca ou nenhuma base factual.

Em 2014, Epstein recebeu um email de um associado, cujo nome foi omitido, que dizia, na íntegra: “Obrigado por uma noite divertida… sua filhinha foi um pouco travessa”. Em outro email, Epstein instruiu um destinatário, cujo nome também foi omitido, a comprar vários brinquedos sexuais, acrescentando: “Quero que você fale o mais obsceno, vulgar e imaginativo possível… Isso vai libertar sua mente. É como um espirro mental”.

Epstein escreveu para outro destinatário não identificado em 2009, que foi identificado na quarta-feira passada (11) em uma audiência na Câmara como Sultan Ahmed bin Sulayem, um poderoso empresário dos Emirados Árabes Unidos: “Onde você está? Você está bem? Adorei o vídeo de tortura”.

Sem contexto, essas mensagens estão sujeitas a especulações sobre seu significado e oferecem novas oportunidades para aqueles que pretendem chamar a atenção para si mesmos e para suas opiniões.

Uma assistente de Epstein escreveu-lhe em 2011: “Encomendei cocos verdes e doces da Tailândia para você e eles acabaram de chegar… só para você não ter que beber água de cocos velhos e peludos.”

Ressaltando como até mesmo o aparentemente banal pode ser transformado em algo potencialmente conspiratório, as frequentes referências a pizza deram novo fôlego à desacreditada teoria da conspiração “Pizzagate” de 2016, na qual democratas proeminentes seriam acusados de torturar e estuprar crianças no porão de um restaurante em Washington.

O fato de os locais e personagens do Pizzagate serem quase totalmente diferentes daqueles que aparecem nos arquivos de Epstein não impediu que alguns insistissem na existência de uma conexão.

Hemmer, professora da Universidade Vanderbilt, afirmou que a natureza obscura da vida de Epstein, juntamente com a divulgação desorganizada dos documentos pelo governo Trump, “certamente alimentará uma série de teorias da conspiração”.

Vídeos recentemente divulgados da ala da prisão onde Epstein foi encontrado morto, por exemplo, sugerem que uma figura humana não mencionada anteriormente nos registros se movia na direção da cela de Epstein no final daquela noite.

Isso levou alguns detetives amadores da internet a concluir que Epstein, cuja morte sob custódia federal em 2019 foi considerada suicídio, pode ter sido assassinado. Outros especularam que ele poderia não estar morto, visto que Epstein testemunhou em um depoimento em 2017 que tinha uma tatuagem de arame farpado no bíceps esquerdo, mas nenhuma tatuagem desse tipo é visível na foto de seu corpo divulgada recentemente.

O deputado Ro Khanna, democrata da Califórnia, que trabalhou com a ex-deputada republicana Marjorie Taylor Greene e o deputado Thomas Massie, republicano do Kentucky, para aprovar uma legislação que obrigava a divulgação dos documentos, descartou as teorias da conspiração.

Mas, disse ele em uma entrevista, “devemos nos perguntar como criamos uma elite tão imatura, imprudente e arrogante”.

Embora a notável rede de conexões de Epstein sugira a alguns que ele era um mestre manipulador que comandava uma conspiração de poderosos, essa mesma rede oferece pelo menos algumas evidências em contrário. Epstein contava com presidentes e membros do gabinete como amigos, mas sua influência na formulação de políticas americanas era insignificante.

Seus amigos na mídia não eram editores de jornais e diretores executivos de redes de TV, mas sim pessoas de posições inferiores na hierarquia, incluindo o escritor Michael Wolff e o repórter financeiro do New York Times, Landon Thomas Jr., que deixou o jornal americano após admitir ter solicitado dinheiro de Epstein para uma instituição de caridade pessoal.

Notavelmente ausentes de seu círculo estavam quaisquer promotores federais, juízes ou figuras da lei que pudessem tê-lo ajudado a escapar da justiça.

No fim, Epstein foi preso, acusado de crimes sexuais graves e morreu na prisão enquanto aguardava julgamento. Sua associada, Ghislaine Maxwell, também permanece encarcerada.



Fonte CNN BRASIL

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