Só se fala disso em Santa Elena de Uairén: dá para passar normalmente na fronteira? Estão fiscalizando todos os carros? Há algum bloqueio? O ataque dos Estados Unidos a Caracas que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, neste sábado (3), fica em segundo plano, em conversas à boca miúda, na cidade que faz fronteira com o Brasil.
Distante 1.250 km da capital e vazia na tarde deste domingo (4), quando a maioria do comércio fecha as portas, Santa Elena divide com Pacaraima (RR) a dinâmica de fronteira entre os países.
O trânsito diário de carros e pessoas entre a cidade de Pacaraima é constante, mas com o breve fechamento da passagem, no sábado, em razão da queda do ditador, quem vive desse deslocamento passou a repensar os próximos passos.
Ao lado da estátua de Simón Bolívar na praça central de Santa Elena, o vendedor ambulante Alejandro (nome fictício) perguntou, ao ver a placa brasileira do carro da reportagem, se a fiscalização no lado brasileiro da fronteira estava parando todos os veículos. Ele costuma ir a Pacaraima comprar itens para vender na região —conhecida, como Roraima, pela atividade garimpeira.
O ataque americano deste sábado é alvo de especulações dos venezuelanos que se dispõem a falar sobre o tema na região de fronteira. Do lado brasileiro, há celebração, mas a conversa muda de tom na cidade venezuelana, o que sugere um receio de falar de forma aberta sobre o tema.
Em um dos poucos mercados abertos da cidade, John (nome fictício), rodeado de produtos brasileiros etiquetados em reais (aceita-se Pix), baixa um pouco o volume da voz ao especular que a velocidade e facilidade da captura de Maduro podem significar que autoridades próximas do ditador o entregaram.
O fluxo de migrantes para Pacaraima é reduzido nos finais de semana, quando a Operação Acolhida não presta os serviços de acolhimento e triagem dos dias úteis.
Nem por isso Santa Elena fica cheia de pessoas à espera de cruzar para o Brasil: diferentemente de Pacaraima, cujo núcleo urbano principal fica colado à fronteira, é preciso passar cerca de 15 km e alguns vilarejos, em meio a terras indígenas, para chegar ao centro de Santa Elena.
Ainda no meio do caminho para a cidade, a reportagem passou pelo aeroporto nacional de Santa Elena, que fica em frente à base militar de Forte Roraima, além de apenas um posto de controle da Força Armada Nacional Bolivariana, que fez fiscalização semelhante à do lado brasileiro.
Em volta da praça principal de Santa Elena há uma série de pequenos comércios, uma agência permanentemente fechada de um banco privado e um cinema desativado, cujas paredes são pintadas por um grafite em comemoração de cem anos de Santa Elena com a frase “eu me alisto em defesa da pátria”.
Em Pacaraima, o fluxo de carros e pessoas não diferia de outros dias de fronteira aberta, segundo relatos de taxistas, militares e agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
A fronteira do Brasil com a Venezuela é porosa. Do lado esquerdo do marco da fronteira e da passagem oficial, olhando pelo lado brasileiro, funciona a base da Operação Acolhida e o 3º Pelotão Especial de Fronteira do Exército.
Do lado direito, no entanto, há uma série de caminhos à vista de qualquer um pela savana, cenário típico do bioma do lavrado, característico do norte roraimense. As chamadas “trochas” têm pouca fiscalização, a despeito de estarem a poucos metros da rota asfaltada, e é usada diariamente por migrantes e por quem quer burlar eventual vistoria.
“Compramos de tudo aqui, principalmente a carne, é melhor. Às vezes também levamos combustível, que agora está muito caro na Venezuela, e também acaba muito rápido em Santa Elena”, afirma Kerlis, que estava chegando, pela manhã, em Pacaraima e preferiu dar apenas seu primeiro nome.
Sobre a queda de Maduro, ela é menos esperançosa que outros compatriotas. “Outros estão felizes. Nós, que vivemos e sofremos, na Venezuela, não estamos tão felizes porque não sabemos o que vai acontecer. Tem gente que fica feliz sem saber a situação por lá”, diz ela, que chegava a Pacaraima para compras.
Já em Boa Vista, a 200 km da fronteira, venezuelanos celebram quase sem filtros. “Você vai comigo na minha casa na Venezuela e a gente vai tomar cachaça”, disse Yenni, 55, a uma colega de trabalho em um hotel da capital roraimense. “Agora que pegaram o Maduro ela é estrangeira, até ontem dizia que era daqui”, brincou a colega brasileira.




