Brasil precisa enxergar China como parceira também nas questões difíceis – 31/05/2024 – Igor Patrick

Brasil precisa enxergar China como parceira também nas questões difíceis


Geraldo Alckmin desembarca em Pequim amanhã, acompanhado de uma significativa comitiva que participa com ele da sétima reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN). Desconhecida pela maioria dos brasileiros, a estrutura é única no relacionamento do país com qualquer outro parceiro global e inaugura os trabalhos neste mandado de Lula em busca de uma função além da cerimonial.

Criada em 2004, a COSBAN é o espaço para que os vice-presidentes de ambos os países se encontram e promovam o aprofundamento dos laços diplomáticos. São 12 subcomissões e oito grupos de trabalho que ao longo da próxima semana discutirão temas tão distintos quanto propriedade intelectual, biotecnologia e esportes. Além de oferecer uma oportunidade para que projetos bilaterais alcancem capilaridade em nível ministerial, trata-se de uma rara chance para que homólogos brasileiros e chineses se sentem à mesa para entender como cada parte enxerga sua função.

Contudo, um descompasso entre o que espera o Brasil e o que a China está disposta a fazer relegaram a comissão a um papel quase figurativo e isso talvez não mude no encontro deste ano. Quando surgiu, o órgão tinha missões ambiciosas, como promover um entendimento acerca do protagonismo brasileiro em instituições multilaterais (mirando numa possível vaga no Conselho de Segurança da ONU) e em formas de avançar com Pequim uma agenda Sul-Sul de relevância.

É notável o quanto a diplomacia e credibilidade brasileira no exterior decaíram desde então. A despeito de alguns avanços de relevância como a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, Dilma deu pouca atenção às pautas internacionais mais ambiciosas —no segundo mandato, então, às voltas com o processo de impeachment, relegou política externa ao fim da lista de prioridades. Seguiu-se o governo esmagadoramente impopular de Michel Temer e os quatro anos de Bolsonaro, talvez a maior crise de credibilidade externa do Brasil nas últimas décadas. No meio do caminho, a COSBAN ficou esquecida e suas principais pautas, sequestradas pela agenda do dia da China.

Nas irregulares ocasiões em que se reuniu, a comissão tratou muito de assuntos comezinhos como certificação de frigoríficos ou unificação de marcos sanitários. Não há dúvidas de que são temas a serem endereçados, mas para fazer valer a pena o tempo de dois vice-presidentes e vários ministros, o encontro deveria servir para mais. É isso que busca Alckmin agora, na primeira vez que a COSBAN se reúne presencialmente em cinco anos.

O governo brasileiro pretende aproveitar o encontro para captar investimentos. Quer dinheiro para investir em infraestrutura para transição e resiliência climática, encontrar sinergias para que as indústrias brasileiras caminhem juntas. Se calhar, até um apoio ainda que verbal ao ambicioso plano de integração sul-americana avançado por Simone Tebet no Ministério do Planejamento. Mas argumento que a COSBAN precisa servir como algo além de apenas um roadshow de oportunidades a investidores estatais e privados.

Nesta semana que passou falei sobre o assunto com pessoas-chave a estudar o papel, relevância e impacto da comissão nas relações sino-brasileiras, como Larissa Wachholz (Cebri), Michelle Ratton (FGV) e Giorgio Shutte (UFABC). Todos são unânimes na avaliação de que deveríamos acionar mais e melhor as estruturas da COSBAN.

É preciso enxergar o mecanismo como um fórum para aparar arestas, discutir temas sensíveis da relação e alinhar expectativas. O Brasil aplicou medidas compensatórias severas ao aço chinês no mês passado, após anos de reclamação da siderurgia quanto à prática de dumping. O mesmo vem acontecendo em outros setores como o de fibra óptica, têxteis e calçados. Não seria o caso de encontrar caminhos para a cooperação que não impliquem na morte da frágil indústria brasileira? E os setores críticos à segurança nacional? Que tal debater formas de regular a presença chinesa em áreas vitais como telecomunicações, geração e distribuição de energia elétrica e serviços financeiros?

Para o bem e a longevidade dos laços com a China, o Brasil precisará enxergar o país de fato como parceiro também nas questões difíceis —e não apenas como fonte inesgotável de dinheiro para projetos há anos no papel.


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