Cada ameaça de Trump à Otan a torna mais vazia – 02/04/2026 – Mundo

Cada ameaça de Trump à Otan a torna mais vazia


Desde sua reeleição, o presidente Donald Trump ameaçou deixar a aliança da Otan diversas vezes. Nesta quarta-feira (1º), o fez novamente, frustrado porque as nações europeias se recusaram a participar da até agora inconclusiva guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Mas quanto mais ele deprecia a Otan e ameaça abandoná-la, mais ela se esvazia.

A aliança, construída após a Segunda Guerra Mundial para dissuadir a União Soviética e manter a paz na Europa, está em crise, com alguns questionando se ela pode sobreviver.

A guerra no Oriente Médio trouxe à tona dúvidas já existentes sobre o compromisso americano com a aliança, argumenta Ivo Daalder, ex-embaixador dos EUA na Otan. “É difícil ver como qualquer país europeu agora será capaz e estará disposto a confiar que os EUA virão em sua defesa. Esperança, talvez. Mas não podem contar com isso.”

Em seu discurso à nação na noite de quarta, Trump não mencionou a Otan, para alívio dos aliados. Um alto funcionário europeu diz, porém, que achava que a maioria dos europeus não acreditava que o Artigo 5, o compromisso da Otan com a defesa coletiva, ainda tivesse força. Sob anonimato, dada a sensibilidade do tema, ele argumenta que os EUA agora parecem fazer parte do problema da desordem mundial. O país não é mais a solução e o garantidor de última instância, afirma.

Nesta quinta-feira (2), falando em Seul, na Coreia do Sul, o presidente da França, Emmanuel Macron, foi explícito ao dizer que Trump estava minando a Otan com suas repetidas ameaças de se retirar dela. “Se você cria dúvidas diárias sobre seu compromisso, você o esvazia”, afirmou.

Na semana passada, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, refletindo a insatisfação de Trump com os aliados europeus, alertou que as relações com a Otan precisariam ser reexaminadas após a guerra no Irã ser resolvida. “Sem os Estados Unidos, não há Otan”, disse Rubio na ocasião. “Uma aliança tem que ser mutuamente benéfica. Não pode ser uma via de mão única. Esperemos que possamos consertar isso.”

Outros não têm tanta certeza. Os EUA são o centro nervoso e a espinha dorsal da aliança, porque Washington sempre quis assim. Mas a Europa está longe de ser indefesa e está gastando muito mais dinheiro com o setor militar agora, em parte por causa da invasão da Ucrânia pela Rússia e em parte por causa das exigências de Trump, incluindo ameaças anteriores de deixar a aliança a menos que seus membros “pagassem suas contas”.

Mesmo que Washington retirasse os 70 mil soldados americanos da Europa, uma Otan europeia seria concebível, dizem altos funcionários europeus. O sistema de comando e a infraestrutura da Otan permanecem, e os europeus poderiam preencher a maioria dos cargos. Houve vários estudos sobre o que a Europa precisaria fazer para substituir a contribuição dos EUA em guerra convencional.

Um levantamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em maio passado deu uma estimativa aproximada de custo ao longo de 25 anos de US$ 1 trilhão. O Bruegel, uma instituição de pesquisa em Bruxelas, fez um estudo semelhante há um ano com o Instituto Kiel para a Economia Mundial e estimou que a Europa poderia precisar de mais 300 mil soldados e um aumento anual nos gastos militares de pelo menos US$ 290 bilhões no curto prazo para dissuadir a agressão russa.

Camille Grand, ex-secretário-geral adjunto da Otan para investimento em defesa, escreveu seu próprio estudo detalhado sobre as lacunas que a Europa precisaria preencher para substituir os EUA.

Autoridades de Trump dizem que os europeus deveriam gerenciar a defesa convencional enquanto Washington mantém seu guarda-chuva nuclear. O prazo para fazer isso, a maioria concorda, é 2029. O general Carsten Breuer, que lidera as forças armadas alemãs, alertou que até esse ponto a Rússia provavelmente será capaz de lançar um ataque sério contra a Otan. Mas a Alemanha e as forças da Otan podem oferecer uma resistência muito boa até lá, diz.

Como disse no ano passado o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, sobre a Europa: “Não precisamos ser tão bons quanto os EUA. Só precisamos ser melhores que a Rússia”.

O que é insubstituível é o guarda-chuva nuclear americano sobre a Europa, que Trump repetidamente prometeu manter. Mas as nações europeias estão discutindo alternativas ativamente.

Reino Unido e França, as duas potências nucleares na Europa, junto com Alemanha e Suécia, têm discutido como estender seu guarda-chuva nuclear para pelo menos se aproximar do americano.

A França diz que aumentará seu próprio arsenal nuclear, e o Reino Unido afirma que recriará uma vertente aérea de bombardeiros com capacidade nuclear para adicionar aos seus submarinos nucleares. Ainda assim, a dissuasão nuclear britânica depende de tecnologia americana, e a francesa é projetada para proteger os interesses franceses conforme decidido por seu presidente.

O impulso para a Europa fazer mais foi sublinhado pela decisão de Trump de bombardear o Irã sem consulta e depois exigir ajuda. Para muitos, como Bruno Maçães, ex-secretário de Estado para Assuntos Europeus de Portugal, a “incursão” dos EUA parece uma derrota.

“Isso dará um grande impulso à Europa”, diz ele. “Não é apenas querer que os EUA estejam lá por nós; é a sensação agora de que os EUA não serão capazes mesmo que estejam dispostos.” Para a Europa, afirma, “está tornando a escolha entre autonomia e América mais nítida a cada mês”.

Apesar da frustração de Trump, muitos se perguntam como destruir a aliança beneficiaria os EUA. Wolfgang Ischinger, ex-embaixador alemão em Washington, disse nas redes sociais que deixar a Otan seria um presente para uma Rússia em militarização.

“Vamos ser claros que remover as tropas americanas da Europa finalmente permitiria à Rússia declarar vitória estratégica: expulsar os EUA da Europa tem sido o principal objetivo estratégico do Kremlin, nos tempos soviéticos e desde então”, escreveu ele. “Isso é algo que os EUA podem permitir que aconteça??”

Para Nicholas Burns, ex-embaixador dos EUA na Otan, a retirada seria “catastrófica para a América como potência global”. Ele ficaria surpreso se o Congresso concordasse, diz.



Fonte CNN BRASIL

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