Camilo Torres relembra Colômbia, ideologias e guerrilhas – 28/02/2026 – Sylvia Colombo

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Mais de 60 anos depois de ter sido abatido em seu primeiro combate como guerrilheiro, em 15 de fevereiro de 1966, os restos do padre revolucionário Camilo Torres foram identificados pelo Instituto de Medicina Legal da Colômbia na última semana.

Durante décadas, o Exército ocultou o local de seu sepultamento, temendo que o corpo se convertesse em símbolo político. Apenas em 2024 a Unidade de Busca de Pessoas Desaparecidas, criada após o acordo de paz entre o Estado colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), de 2016, localizou uma urna em um mausoléu militar em Bucaramanga, no departamento de Santander.

Após mais de um ano de análises de antropólogos, geneticistas e biólogos, e com testes de DNA, confirmou-se, com 99% de coincidência genética, que os restos pertenciam ao sacerdote.

A entrega ocorreu sob protocolos de “entrega digna”. De forma discreta, a urna foi depositada na capela Cristo Maestro da Universidade Nacional da Colômbia —a mesma instituição onde Camilo, sete anos antes de morrer, fundara a Faculdade de Sociologia.

É preciso afirmar desde o início: o ELN (Exército de Libertacao Nacional) contemporâneo, hoje altamente impopular no país por atentados que vitimaram civis e por sua vinculação à produção e ao tráfico de cocaína, não representa o horizonte ético que mobilizou a geração de Camilo Torres, ainda popular entre a esquerda latino-americana. A guerrilha que hoje suspende diálogos de paz e mantém ofensivas armadas no nordeste colombiano está inserida em dinâmicas de economia ilícita que nada têm de ideológicas.

Compreender o contexto histórico não é relativizar essa realidade.

Camilo nasceu em 1929, em uma família abastada de Bogotá. Estudou nos melhores colégios, formou-se sociólogo na Universidade Católica de Lovaina e poderia ter seguido carreira acadêmica confortável. Cofundou a Faculdade de Sociologia da Universidade Nacional e atuou como capelão. Desde cedo, porém, desenvolveu trabalho social em bairros populares e se deixou atravessar pelo impacto da desigualdade estrutural colombiana.

Influenciado pelo nascente pensamento da Teologia da Libertação e pelo impacto simbólico da Revolução Cubana, passou a defender o que chamava de “amor eficaz” —a necessidade de transformar as estruturas sociais para que a justiça deixasse de ser privilégio de poucos. Suas tensões com a hierarquia católica culminaram na laicização em 1965. Pouco depois, ingressou no ELN, então um grupo pequeno e mal armado, mas carregado de retórica revolucionária.

Sua morte teve efeito simbólico imediato. O Nobel Gabriel García Márquez recordaria que muitos passaram a acreditar nele porque havia se sacrificado pelo que defendia. Jovens padres, freiras e seminaristas ingressaram na guerrilha, que assumiu feição de cristianismo de esquerda com ecos em outros países.

Nada disso elimina o fato de que a opção armada abriu feridas profundas e não produziu a sociedade igualitária sonhada. A própria mãe de Camilo, Isabel Restrepo —uma das primeiras mães buscadoras do país, obrigada ao exílio em Cuba após ameaças— jamais recebeu oficialmente o corpo do filho em vida.

Seis décadas depois, a Colômbia continua desejando paz e justiça social dentro do marco do Estado social de direito, como lembraram autoridades religiosas nas cerimônias de memória. O presidente Gustavo Petro afirmou que os restos do sacerdote deveriam ser honrados como referência mundial da Teologia da Libertação.

Se o ELN pretendesse manter coerência com o legado de Camilo Torres, não estaria integrado a circuitos do narcotráfico nem sustentando economias ilegais. Estaria discutindo reforma agrária, democratização do acesso à terra, inclusão rural e transformação estrutural, temas que hoje tramitam no debate institucional proposto pelo próprio governo.

A identificação, tantos anos depois, dos restos de Camilo não reabilita a violência. Mas restitui à história a complexidade de um momento em que a insurgência se via como instrumento de justiça social —e apenas isso.


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