O fenômeno da desinformação em saúde não só avança no tempo, como na persistência. Antes mesmo da Covid-19, era visível o fluxo de falsas afirmações sobre doenças na blogosfera.
Foi assim com a dengue no Brasil, alvo de suspeitas infundadas sobre as quais não se deu muita trela, mas que engrossam o caldo do negacionismo. Como lembra em editorial a conceituada revista The Lancet, “a desinformação tornou-se instrumento deliberado de ataque a cientistas e profissionais de saúde, com finalidades e ganhos políticos”.
Nas últimas semanas, chamou atenção o caos do governo Donald Trump na saúde pública. A audiência de Robert F. Kennedy Jr. num comitê do senado americano revelou a desastrosa escolha de Trump ao fazer dele chefe do Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Com argumentos desinformados, Kennedy exibiu enorme despreparo diante dos senadores, a ponto de republicanos se aliarem aos democratas em críticas à sua gestão.
Daí o incansável secretário de Saúde lançou um relatório da Comissão Maha, do movimento Make America Healthy Again (Faça a América Saudável de Novo), por sua vez inspirado no movimento Maga, marca registrada do trumpismo. O documento é construído sobre a ideia de que as crianças americanas estão muito doentes, estressadas e viciadas em tela, o que pode ser uma verdade, diluída na generalização.
Ao criticar os alimentos ultraprocessados, o uso dos pesticidas na agricultura e a medicalização no tratamento de doenças da infância, o relatório Maha tenta galvanizar apoios na sociedade sem oferecer dados confiáveis ou construir alternativas, dizem peritos em saúde. Do nada, propõe uma cruzada contra a infertilidade das americanas. E mais do nada ainda, questiona a adição de flúor à água do abastecimento, uma conquista da saúde pública no século passado.
Confusão maior vem da oposição às vacinas de Kennedy, especialmente as da Covid-19. Ele determina que só idosos e pessoas com comorbidades recebam imunização contra o coronavírus, excluindo os demais grupos. Insiste em associar vacinas ao autismo, com base em um estudo fraudulento cujo autor perdeu até a licença médica.
E, somando a baderna sanitária com o estrangulamento financeiro do Obamacare, Kennedy ainda demite a diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês). Motivo: ela se recusou a trocar o comitê de especialistas da instituição por um comitê antivacina indicado pelo chefe. Vale lembrar que a Covid-19 infectou milhões de americanos no ano passado.
O caos da saúde pública nos EUA serve de alerta para o Brasil, país com a segunda maior letalidade pelo coronavírus no mundo. É inaceitável que, há quatro anos do fim da CPI da Pandemia, que produziu um relatório com cerca de 60 pedidos de indiciamento —entre eles, o do então presidente, Jair Bolsonaro— nada tenha sido feito pela Justiça.
É preciso estabelecer de vez o nexo causal entre 700 mil vidas perdidas e a responsabilidade de um governante que promoveu a contaminação de rebanho e um falso tratamento precoce, sem falar no atraso com que levou o Brasil ao balcão de compra dos imunizantes. O país precisa assistir ao julgamento destes crimes antes que prescrevam. Só assim estará imunizado contra a eventual repetição da tragédia.




