Cecot: Venezuelano tentou suicídio na prisão após tortura – 21/01/2026 – Mundo

Cecot: Venezuelano tentou suicídio na prisão após tortura - 21/01/2026


Nos últimos anos, o venezuelano Luis Chacón, 27, teve de mudar para o Chile para fugir da crise econômica que abate sua nação, sofreu um acidente de moto longe de seu país enquanto trabalhava com entregas e, ferido, atravessou com uma muleta a selva de Darién, no Panamá, para chegar aos Estados Unidos. Nenhuma dessas histórias, porém, é o seu pior pesadelo.

Em abril do ano passado, Chacón foi enviado ao Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo) pelo governo de Donald Trump sob a justificativa de que ele pertenceria à gangue Tren de Aragua —acusação que recai sobre os outros 251 venezuelanos transferidos para o presídio de El Salvador.

Segundo reportagens da imprensa americana com base em registros públicos, Chacón foi preso em 2024 por violência doméstica e, naquele mesmo ano, acusado de furto. O primeiro caso foi arquivado, e o segundo não foi concluído antes da sua deportação. O venezuelano nega a acusação de pertencer ao Tren de Aragua.

Dados analisados pelas ONGs Human Rights Watch e Cristosal no ano passado mostram que apenas 3,2% dos venezuelanos deportados haviam sido condenados nos EUA por delitos violentos, e 48,8% não tinham antecedentes criminais.

O relatório, com base em 200 depoimentos, revela também tortura sistemática por parte das autoridades carcerárias do complexo —versão confirmada por Chacón, que fala em sessões de espancamento com duração de uma hora, tentativas de afogamento, nudez forçada e negligência em atendimentos médicos.

Ele afirma que as condições o levaram a tentar tirar a própria vida lá dentro.

Quando visitou o Cecot, em dezembro do ano passado, a Folha perguntou ao diretor do presídio, Belarmino García, se havia registros de tentativas de suicídio diante das restrições impostas aos internos, que não têm direito a banho de sol e vivem com as luzes acesas de forma permanente.

“Estamos em atividade há três anos e não tivemos nenhuma”, afirmou, demonstrando orgulho. Questionado sobre o uso de remédios psiquiátricos por algum dos 20 mil detidos, segundo números oficiais, García disse que ali não há “esse tipo de problema”. “Se houvesse a necessidade, talvez daríamos acesso a esse tipo de medicamento, mas agora não temos esses casos.”

Meu nome é Luis Chacón, completei 27 anos no dia 7 de dezembro e sou pai de três filhos nos EUA —um de 7 anos, um de 6 e outro de 3. Eu nasci na Venezuela, mas migrei por causa da situação no meu país.

Em 2021 fui para o Chile, onde fazia entregas. Em uma dessas entregas, um carro me fechou e bateu na minha moto. Eu fraturei a perna e precisei fazer duas cirurgias, o que me impedia de trabalhar. Então voltei à Venezuela e me vi na mesma situação novamente, sem ter como sustentar minha família. Decidi sair do país mais uma vez.

Viajei aos EUA em junho de 2022, atravessando a selva do Darién de muletas com toda a minha família. Fiquei sete dias na selva. Passamos por muita coisa. Minha esposa quase se afogou quando uma correnteza a arrastou para o rio —conseguimos salvá-la não sei como, pela graça de Deus.

Entrei nos EUA em 13 de agosto pela fronteira. Trabalhei até o começo de 2025 e fui preso em 6 de março. A polícia me parou porque o farol da minha caminhonete estava queimado. Quando me abordaram, descobriram que eu tinha uma multa de trânsito em aberto, de meses atrás, que eu não havia pago. Na audiência, emitiram um mandado de prisão porque eu nunca havia formalizado minha documentação.

Fui transferido algumas vezes pelo país. Nesse processo, quando disse que era da Venezuela, viram minhas tatuagens e disseram que eu fazia parte do Tren de Aragua. Eu disse que não, que todas as minhas tatuagens têm um significado para mim.

Cheguei a perguntar para as autoridades americanas se havia a possibilidade de me enviarem para o Cecot, porque àquela altura eles já haviam transferido os primeiros 238 venezuelanos para lá. Me garantiram que não, que eu seria enviado de volta para o meu país de origem.

Quando soube que iria para El Salvador, dias depois, o mundo caiu sobre mim. Perguntei como era possível, o que eu tinha feito para merecer isso. Desabei em lágrimas.

Quando desembarquei no país, imediatamente abaixaram minha cabeça, me levantaram pelos cabelos, tiraram uma foto, me agarraram por trás e me levaram. Usaram toda aquela linguagem obscena. Disseram todo tipo de palavrão para nós: “Filho da puta, você vai morrer aqui”.

Fui o terceiro a descer do ônibus quando chegamos ao Cecot. Fomos levados a uma sala onde nos fizeram ajoelhar e nos agrediram. Depois, nos obrigaram a tirar a roupa na frente de mais de cem pessoas. Nos levaram para o módulo 8, onde estavam os outros venezuelanos.

Mandaram a gente ajoelhar e não se mexer. O diretor entrou e disse que havíamos chegado ao inferno, que sairíamos de lá num saco para cadáveres, que ninguém que entrava lá saía e que éramos acusados de terrorismo por pertencermos ao Tren de Aragua. No meu dossiê, diziam que eu era suspeito de ser membro ativo da gangue, sem nenhuma prova. Só disseram isso por causa de uma estrela que tenho tatuada no meu ombro direito.

Então começou o pesadelo. Passei três dias deitado na cama, me recusando a levantar ou falar. Eu não sabia nada sobre minha família, e minha família não sabia o que tinha acontecido comigo. Era inacreditável ver o desespero das pessoas. Homens chorando porque não conseguiram acreditar no que estava acontecendo.

Após um mês, fizemos um motim e quebramos as fechaduras da cela. Tudo começou porque eles estavam fazendo revistas de cela em cela, mas algumas pessoas da cela 19 se negaram —não porque deviam algo, mas por medo de apanhar. Pegaram trapos e o que mais tinham à mão, amarraram às grades, puxaram e enfiaram uma barra de metal que arrancaram do beliche para impedir a entrada dos guardas.

Então, chegou um grande contingente policial. Entraram na cela 19 e bateram em um cara. Ele saiu coberto de sangue. Imobilizaram ele com uma corda no pescoço e o jogaram no chão.

Ficamos revoltados e começamos a atirar sabonetes e copos da marmita nos guardas, e eles começaram a recuar e saíram do módulo. Um cara da cela onde eu estava puxou uma barra de metal do beliche e acertou a fechadura. De alguma forma, conseguimos quebrá-la, abrir o portão e sair para o corredor. Abrimos umas oito celas.

Há um corredor na parte de cima dos módulos, de onde eles vieram para cima de nós com espingardas e balas de borracha. Corremos de volta para a cela e nos trancamos. Mesmo assim, eles foram cela por cela atirando em nós. Um colega teve parte da mão arrancada por um projétil.

Muitos de nós não conseguiram dormir, não sabíamos o que ia acontecer conosco. No dia seguinte, não nos deram comida até às 14h. Então chegou um grande contingente de policiais com ferreiros. Eles arrancaram todas as barras de ferro dos beliches. Quando chegaram na nossa cela, falaram: “Já voltamos”.

Tiraram dez de nós da cela e nos obrigaram a ajoelhar. Eles nos bateram por todos os lados. No rosto, nas pernas. Pisaram na minha perna machucada e pularam. Depois nos levaram um por um à ilha —celas pequenas onde havia apenas um reservatório de água e uma abertura por onde entrava pouca luz. Eu podia ouvir meus companheiros gritando a cada golpe e sabia que a mesma coisa aconteceria comigo.

Lá me perguntaram quem tinha arrombado o cadeado. Sabia quem era, mas não ia dizer, não queria que um de nós pagasse, porque tinha sido uma decisão de todos. Me fizeram ajoelhar ao lado do tanque e colocaram minha cabeça debaixo da água. Bateram em nós por uma hora.

Depois nos levaram de volta para as celas sob disciplina rígida. Não podíamos conversar, não podíamos tomar banho quando quiséssemos, não podíamos falar. Tínhamos que ficar em nossas celas o dia todo de cueca. E lá o calor é extremo, o frio é extremo, tudo relacionado a clima é extremo. Foi aterrorizante.

Dormíamos todos na mesma fileira de cama para que pudéssemos nos aquecer, porque não suportávamos o frio à noite.

Passávamos a maior parte das noites jogando xadrez com recortes de papelão. Fizemos cartas com caixas de suco para nos distrairmos, porque não tínhamos nenhuma outra distração lá dentro. Usávamos as tortilhas que nos davam no almoço para fazer as laterais dos tabuleiros para que pudéssemos jogar.

No dia 25 de junho eu discuti com um dos guardas porque era aniversário do meu filho mais velho, e eu achei que àquela altura eu já teria saído. Ele chamou outros guardas, que me tiraram de lá, me algemaram, me levaram para a ilha, me bateram por cerca de uma hora e me deixaram lá deitado.

Quando três ou quatro deles te pegavam, você tinha que cobrir o rosto, porque eles te chutavam onde você caísse. Fiquei lá na ilha por cerca de 8 a 10 horas, sem comida, sem nada, porque não me deram nada. Até que me tiraram de lá novamente e me levaram de volta para a minha cela.

Naquele dia, desiludido com tudo o que havia acontecido, decidi cometer suicídio. Havia um lençol que eles tinham nos dado naquela semana porque sabiam que a Cruz Vermelha viria. Amarrei o lençol e tentei me enforcar, mas meus companheiros viram e me impediram. Eles me amarraram na cama com o mesmo lençol. Disseram que eu tinha que pensar nos meus filhos, que eu ia sair dali.

Os problemas continuaram. Não nos davam nenhuma resposta. Um dia, vimos o diretor e um dos meus companheiros de cela se levantou e perguntou por quanto tempo nos manteriam ali. Julho estava chegando.

Naquele momento, as coisas começaram a mudar. Na última semana no Cecot, nos trouxeram pasta de dente, escovas de dente, sabonete perfumado, desodorante, algo que nunca havíamos recebido.

Trouxeram pessoas para fazer nossas barbas, para cortar nosso cabelo. Tudo em um único dia. Tivemos acesso a dentista, psicólogo, clínico geral, nutricionista. Começaram a nos dar comidas diferentes: pizza, suco de caixinha.

Estávamos todos muito felizes porque algo estava para acontecer. Um dia, instalaram uma cesta de basquete que nunca tínhamos visto ou usado. Ficamos assim a semana toda, até a madrugada do dia 18 de julho. Estávamos dormindo quando nos disseram para levantar porque precisavam falar conosco. Entraram câmeras e podíamos ouvir os ônibus. Estávamos transbordando de felicidade. Era inacreditável pensar que aquele pesadelo finalmente tinha acabado e que estávamos nos preparando para ir embora.

Começaram a nos tirar, de cela em cela. Um funcionário disse que tinham cuidado bem da gente, que os salvadorenhos não eram maus, estavam ali por engano. Eu juro, naquele momento eu quis fugir e, sei lá, bater nele, porque ele era uma das pessoas que mais nos maltratava.

Nos levaram para fora e nos deram roupas novas. Quando chegamos ao aeroporto, funcionários venezuelanos embarcaram no avião e nos disseram que estávamos livres, que o pesadelo havia acabado. Ainda não conseguíamos acreditar. Quando embarquei naquele avião, mal podia esperar para que ele decolasse. A maior felicidade foi quando chegamos à Venezuela. Eu ainda não conseguia acreditar que estava de volta para casa. Foram três meses muito longos.

Desde então, minha vida está muito ruim, para ser honesto. Depois que fui embora, pensei que tudo melhoraria, mas meus filhos estão nos EUA, e minha mãe recentemente foi diagnosticada com câncer. Minha esposa quer voltar, mas a única opção é se entregar para a imigração. Temos medo que algo aconteça com nossos filhos.

Os pesadelos à noite são intensos; às vezes, não consigo dormir pensando em tudo o que aconteceu. Apareceram duas lesões na minha perna por causa dos golpes, dois caroços cheios de líquido.

Estou tentando reconstruir minha vida, mas, na situação em que me encontro, estou pensando em sair do país novamente, porque a doença da minha mãe gera despesas.

A situação no meu país é terrível e preciso encontrar uma maneira de ajudar minha mãe. O governo da Venezuela só nos deu promessas. Eles nos dão um bônus mensal; já recebi duas vezes, no valor de US$ 150. Quanto ao resto, foram só promessas.


Onde buscar ajuda

CVV (Centro de Valorização da Vida)

Voluntários atendem ligações gratuitas 24 horas por dia no número 188 ou pelo site www.cvv.org.br

Mapa Saúde Mental

Site mapeia diversos tipos de atendimento: www.mapasaudemental.com.br



Fonte CNN BRASIL

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