Centenas de migrantes dormem em praia de Ceuta – 03/08/2026 – Mundo

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Centenas de migrantes montaram acampamento improvisado em uma praia em Ceuta, exclave espanhol no norte da África, nesta segunda-feira (3). A cidade segue enfrentando dificuldades para lidar com os milhares de pessoas que ainda permanecem no pequeno território, após a travessia em massa na semana passada.

A Espanha estima que cerca de 69,5 mil migrantes retornaram ao Marrocos nos últimos quatro dias, número superior à estimativa inicial de aproximadamente 50 mil chegadas a Ceuta na quinta-feira (30). O balanço oficial de mortos do lado espanhol da fronteira é de 72, enquanto 11 pessoas morreram do lado marroquino.

Membros do governo local informaram à agência de notícias espanhola EFE que 88 corpos foram retirados do mar e levados ao necrotério, indicando que o total de vítimas ainda pode aumentar.

Segundo funcionários das Forças de Segurança, que falaram sob condição de anonimato à EFE, cerca de 73,5 mil pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta já deixaram a cidade, uma estimativa também superior ao balanço oficial.

Relatos indicam que a decisão de deixar a cidade se deve ao fechamento do comércio local, que deixou muitos sem acesso a alimentos, a episódios de hostilidade por parte da população e a impossibilidade de seguir viagem até a Espanha continental.

Ceuta e Melilla, o outro exclave espanhol no norte da África, ficam na costa mediterrânea do Marrocos e vivem periodicamente ondas de tentativas de travessia de migrantes que buscam chegar à Europa.

Imagens da Reuters mostraram nesta segunda dezenas de migrantes, a maioria vinda da África Subsaariana, deitados na areia da praia de El Trampolín nesta segunda. Muitos estavam enrolados em toalhas para se proteger do vento, enquanto veículos do Exército e da polícia patrulhavam a estrada logo atrás da praia.

O presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, afirmou à emissora Telecinco que entre 3.000 e 5.000 migrantes ainda permaneciam em Ceuta. Segundo ele, dois centros de acolhimento, um para adultos e outro para menores de 18 anos, haviam “entrado em colapso”. O conselheiro da Presidência, Alberto Gaitán, informou que a cidade estava atendendo 862 migrantes menores de idade, que têm proteção jurídica especial contra deportação.

A crise alimentou discursos anti-imigração em toda a Europa e provocou tensões diplomáticas dentro do bloco. O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, afirmou nesta segunda que o país já havia apoiado outros membros da União Europeia durante crises migratórias anteriores e agora esperava receber o mesmo apoio em troca.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enviou nesta segunda uma carta ao primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, em que diz que o bloco precisa reforçar a proteção de suas fronteiras em pontos críticos.

No documento, ao qual a Reuters teve acesso, Leyen reiterou o apoio da UE aos esforços espanhóis para conter a imigração irregular, mas ressaltou que medidas adicionais ainda são necessárias. Segundo ela, o bloco pode aprimorar os sistemas de alerta precoce para a gestão das fronteiras.

Um porta-voz do governo alemão declarou que o episódio evidenciou a volatilidade da situação nas fronteiras externas da UE e reforçou a necessidade de uma resposta coordenada.

O bloco convocou uma reunião extraordinária por videoconferência dos ministros do Interior para discutir a crise. Albares criticou duramente o governo da Itália, que suspendeu o acordo de Schengen com a Espanha, que permite a livre circulação sem visto entre fronteiras, a partir do sábado, com validade de um mês.

O governo espanhol defendeu a conduta do governo africano vizinho. Segundo Albares, Marrocos ofereceu apoio policial e não impôs condições à cooperação, permitindo o rápido retorno da maioria dos migrantes que haviam atravessado a fronteira.

Juan Jesús Vivas, por sua vez, foi mais duro com Rabat, dizendo que havia uma percepção generalizada em Ceuta de que o Marrocos havia permitido, se não organizado, a crise. “O Marrocos nos mostrou que não é confiável. Não há alternativa senão adotar todos os meios necessários para garantir que isso não volte a acontecer”, afirmou o presidente da cidade autônoma em entrevista ao jornal El País.

A crise também rendeu criticas do presidente da Argentina, Javier Milei, contra Sánchez. Sem apresentar provas, Milei sugeriu que o líder socialista estaria usando a chegada de imigrantes para ampliar sua base eleitoral, concedendo-lhes cidadania para que votem nele e, assim, perpetuem o que classificou como uma “tirania”.

A retórica de Milei ecoa acusações feitas por Donald Trump nos Estados que repetidamente associou, sem evidências, a presença de imigrantes a fraudes eleitorais.

O Ministério do Interior do Marrocos atribuiu, no domingo, o aumento das travessias à desinformação nas redes sociais, às redes de tráfico de pessoas e à interpretação equivocada de uma decisão judicial espanhola que proibia a devolução imediata de migrantes interceptados no mar. A avaliação está em linha com a posição oficial de Madri.

Segundo reportagens da imprensa local, que citaram autoridades familiarizadas com o assunto, os serviços de inteligência da Espanha concluíram que o Marrocos não planejou a travessia em massa, mas permitiu que ela acontecesse.

De acordo com essas reportagens, os controles de fronteira marroquinos foram gradualmente flexibilizados durante o mês de julho e teriam sido retirados quando multidões avançaram em direção à passagem de Tarajal na semana passada.

O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, disse a jornalistas no sábado (1º)que o serviço de inteligência estrangeira CNI, subordinado ao Ministério da Defesa, não o alertou sobre uma iminente onda de travessias. O El País informou na segunda-feira que isso provocou tensões entre os dois ministérios.



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