Praticamente uma centena de jovens morreu esta semana ao tentar nadar na fronteira marítima entre Marrocos e o enclave de Ceuta, que pertence a Espanha.
Correram o mundo as imagens das dezenas de milhares que fizeram essa travessia com sucesso, para, poucas horas depois, serem repatriados para Marrocos, e alimentaram a polarização entre a empatia por quem procura uma vida melhor no futuro arriscando a vida que tem e o pânico com que alguns encaram a imagem de uma suposta invasão demográfica.
Essa polarização não é só um efeito colateral do que se passou. Muito provavelmente, é uma causa; mais do que isso, deve ter sido uma intenção. Sabemos como estas coisas funcionam: quanto mais fraturados estão os eleitorados europeus no tema da imigração e do asilo, mais fácil é aos países vizinhos, praticamente todos autocráticos, usarem as fronteiras como arma de chantagem e pressão.
Foi assim com Gaddafi, na Líbia; Erdogan, na Turquia; Lukashenko, na Bielorrússia; e em 2021 e agora de novo com o rei e o regime marroquino. Basta deixar passar na fronteira, ou até incentivar as gentes desesperadas a avançarem para a Europa, e os políticos têm um chilique.
Assim foi nos últimos dias também. Políticos como Georgia Meloni, que durante anos exigiram solidariedade à União Europeia para a gestão dos fluxos migratórios nas suas fronteiras (a “Ceuta” dos italianos é a ilha de Lampedusa), foram agora os primeiros a deixar isolada a Espanha, ainda antes de entenderem exatamente o que se tinha passado ou até de terem em conta as especificidades da localização de Ceuta.
Ora, Ceuta é um caso especial. Esta cidade no extremo norte do continente africano, que foi conquistada por portugueses em 1415, sempre teve um grande grau de integração com a Península Ibérica do outro lado do estreito de Gibraltar.
No tempo dos muçulmanos, esteve integrada ao Reino (“taifa” é a expressão em árabe) de Málaga; no tempo dos portugueses, fez parte do Reino dos Algarves; quando as coroas de Portugal e Espanha voltaram a separar-se, ficou do lado de Espanha até hoje. Parte da União Europeia, uma coisa é certa: quem entra em Ceuta não entra automaticamente no chamado “Espaço Schengen” de liberdade de circulação. Ainda é preciso mostrar documentos válidos para passar para o continente europeu.
Para aqueles que acham o estatuto de Ceuta uma relíquia do colonialismo (não é; é bem mais antigo do que isso), talvez custe a pensar no Marrocos como país colonizador. Mas a realidade é mesmo essa. Desde 1975 que o pai do atual rei de Marrocos deu ordens a milhares de marroquinos para iniciarem a “Marcha Verde”, ou seja, a invasão terrestre do território do Saara Ocidental, que era colónia espanhola.
Marrocos anexou e manteve essa colônia. A chantagem permanente que faz sobre a Espanha e outros países vem precisamente da pressão para que essa anexação ilegal seja reconhecida por mais Estados do que apenas os EUA e Israel.
Ontem, finalmente, os ministros da União Europeia se reuniram e proclamaram a sua unidade e solidariedade. A centena de jovens mortos neste arremedo de “Marcha Verde” não foi, que eu tenha dado por isso, parte das declarações finais.




