Chefe de direitos humanos da ONU diz que Afeganistão vive “apartheid de gênero”

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O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, declarou ao Conselho de Direitos Humanos na quinta-feira, em Genebra, que o Afeganistão é um cemitério para os direitos humanos. 

Ele expôs a situação das afegãs ao falar do impacto da série de decretos e leis anunciada pelas autoridades de facto após chegarem ao poder em 2021 como “arrasador sobre o povo afegão, particularmente sobre mulheres e meninas.”

Vários crimes e punições

Turk apontou exemplos de novas decisões que fazem parte de uma estrutura legal que é “de fato cada vez mais ampla”. Uma das determinações assinadas pelo líder talibã em janeiro, “define vários crimes e punições que contrariam as obrigações legais internacionais do Afeganistão.”

Com o decreto, que deve entrar brevemente em vigor, sobe o número de crimes puníveis com pena de morte. O documento prevê castigos corporais para inúmeros delitos, inclusive domésticos, legitimando a violência contra mulheres e crianças. 

A decisão também “criminaliza as críticas feitas à liderança de facto e suas políticas, violando a liberdade de expressão e de reunião.”

O alto comissário pede que as autoridades afegãs acabem com o decreto e o ajustem as medidas legais que refletindo as suas obrigações internacionais. 

Volker Turk, alto comissário para Direitos Humanos

Volker Turk, alto comissário para Direitos Humanos

Classificação de perseguição

Turk lembra que as afegãs enfrentam discriminação e opressão extremas baseadas no gênero com a classificação de perseguição. Para Turk, esse sistema de segregação lembra o apartheid, baseado no gênero em vez da raça.

O chefe de direitos humanos mencionou ainda a criminalização da presença de mulheres e meninas na vida pública. As proibições incluem a frequência do ensino secundário e superior, e a possibilidade de se candidatar na maioria dos empregos. 

Para Turk, a discriminação afeta seus cuidados de saúde, o acesso ao espaço cívico e as liberdades de movimento e expressão das afegãs.

Os últimos meses têm sido marcados pelo cumprimento da Lei de Propagação da Virtude e Prevenção do Vício para reprimir o uso de barbas por homens e até obrigar o uso rigoroso do lenço islâmico, hijab, por mulheres.

Está sendo também aplicada a exigência de que as mulheres sejam acompanhadas por um homem, proibir música, publicação de imagens de seres vivos e impor orações obrigatórias.

Mecanismos “precedentes e chocantes”

A medida em vigor desde 7 de setembro de 2025, impede que as afegãs, incluindo funcionárias, contratadas e visitantes da ONU, “entrem nas instalações das Nações Unidas em todo o país em mecanismos “precedentes e chocantes”.

Turk falou ainda da continuação das execuções públicas no Afeganistão, em violação do direito internacional. A mídia está sujeita à censura e a operar sob dificuldades financeiras. 

Esse conjunto de proibições inclui a transmissão de música e peças teatrais, ou a publicação de qualquer conteúdo que as autoridades de facto considerem contrário à cultura afegã e à sua própria interpretação da lei islâmica, conhecida por sharia. 

O Afeganistão está afundando cada vez mais na crise socioeconômica, com desigualdades crescentes que são acentuadas para mulheres e regiões específicas

Paquistão e Irã

Já as jornalistas enfrentam obstáculos quase intransponíveis para atuar. Milhões de afegãos vivem em extrema pobreza, privados do direito a alimentação adequada, água potável e acesso à educação, saúde e emprego.

O chefe de Direitos Humanos destaca que um número significativo de refugiados continua a retornar ao Afeganistão, a maioria deles é forçada a voltar por países vizinhos, particularmente o Paquistão e o Irã. 

Grande parte desses afegãos chega com poucos pertences, falta acesso à saúde, educação e perspectivas de emprego. Outra preocupação é com relatos de medidas de vários outros países para repatriar este grupo de refugiados de forma involuntária.

O chefe de Direitos Humanos pede que a comunidade internacional encontre formas de incentivar as autoridades de facto a cumprirem as obrigações internacionais do Afeganistão na questão de princípios fundamentais.

Turk disse apoiar totalmente os “esforços para se reconhecer o apartheid de gênero, entre outros crimes, na proposta de Tratado para Prevenção e Repressão de Crimes contra a Humanidade. Definir o apartheid de gênero é essencial para o seu fim.”



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