Ishaq Dar chegou a Pequim na terça-feira (31) com o braço imobilizado para falar sobre a guerra no Irã. O chanceler paquistanês havia escorregado ao receber o colega egípcio dois dias antes e fraturou o ombro. Os médicos recomendaram repouso, mas ele foi assim mesmo. A urgência, disse seu ministério, não permitia espera.
A cena diz algo sobre quem está de fato se movendo na crise criada por Trump e Netanyahu. Desde que os bombardeios começaram contra o Irã em fevereiro, o Paquistão se colocou na linha de frente da mediação. O chanceler do país recebeu ministros da Turquia, Egito e Arábia Saudita, intermediou uma ligação entre seus líderes e o presidente iraniano e negociou a reabertura parcial do estreito de Hormuz para navios de carga.
Islamabad não tem muita escolha, já que faz fronteira com o Irã, tem um pacto de defesa mútua com os sauditas e possui uma economia que não suporta uma guerra longa na vizinhança.
A China, por outro lado, e stá em outra posição. Pequim pediu cessar-fogo, elogiou os esforços paquistaneses, recebeu Dar com honras e assinou o plano conjunto com o vocabulário que todo mundo já conhece, apoiando os esforços de mediação do Paquistão e se colocando à disposição para mediante comunicação com todas as partes. Mas quando analistas e fontes diplomáticas levantam a possibilidade de Pequim atuar como fiador de um eventual acordo, a resposta costuma ser vaga.
Nas suas declarações públicas sobre o tema, o enviado especial chinês para o Oriente Médio é direto. “Quem amarrou o nó deve desatá-lo”, disse Zhai Jun, numa acusação a Washington que denota também uma recusa implícita de protagonismo.
Como comentamos neste espaço anteriormente, 45% e 50% do petróleo importado pela China passa pelo estreito de Hormuz e a guerra machuca Pequim diretamente. Mas a China também não quer que o Irã contamine sua agenda com Trump. Os dois líderes devem se encontrar ao menos duas vezes neste ano (G20 e Apec, o fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, isso se não houver uma cúpula em separado como inicialmente estava previsto) e Pequim não pretende sacrificar as oportunidades de estabilização da relação com problemas distantes.
Como disse à CNN Wang Yiwei, diretor do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade Renmin, instituição próxima ao Partido Comunista Chinês e frequentemente consultada por Pequim em questões de política externa, “não queremos que o Irã ou qualquer outro fenômeno danifique essa confiança [entre americanos e chineses]”. A lógica por lá tem sido esta e não é muito distante do que aconteceu durante o sequestro de Maduro em janeiro.
A narrativa da China como alternativa de paz aos EUA tem apelo real e não é sem fundamento. Em 2023, Pequim mediou a retomada das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita, dois países que não se falavam havia sete anos, um feito genuíno que rendeu dividendos de imagem que Pequim ainda colhe. Mas naquele acordo, a China não precisou garantir nada, não precisou pressionar nenhuma grande potência e não correu o risco de ser responsabilizada se o entendimento desmoronasse. Mediar é mais fácil quando o custo do fracasso recai sobre outros.
O que a China oferece até agora é cobertura diplomática ao Paquistão e legitimidade ao processo sem exposição ao seu fracasso. É uma posição racional, mas é também o limite preciso onde a narrativa da potência de paz esbarra na realidade da potência cautelosa.




