Esta é a edição da newsletter China, terra do meio desta terça-feira (08). Quer recebê-la toda semana no seu email? Inscreva-se abaixo:
Em clara crítica aos Estados Unidos, o líder chinês Xi Jinping usou o discurso de abertura do Fórum China-Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe) em Pequim para estimular os países da América Latina e do Caribe a “fortalecerem a cooperação internacional” e “resistirem ao protecionismo econômico”.
Xi anunciou cinco programas de cooperação com a região para os próximos três anos, incluindo um crédito de 66 bilhões de renminbis (R$ 51,93 bilhões) e iniciativas de investimento em comércio, infraestrutura e inteligência artificial.
Durante o evento, a Colômbia divulgou sua adesão à Iniciativa de Cinturão e Rota, uma mudança significativa da sua política externa que tradicionalmente sempre se alinhou com os EUA.
- Só o Paraguai (que não tem relações formais com a China) e o Brasil (que escolheu no ano passado não se juntar, preferindo um acordo de “sinergias” da ICR com o PAC de Lula) não aderiram na América do Sul.
O “sim” da Colômbia serviu de gancho para que Xi destacasse os “mais de 200 projetos de infraestrutura” implementados na América Latina pelo projeto chinês, que, segundo ele, geram um milhão de empregos nos países parceiros.
A iniciativa chinesa ocorre em um momento em que os EUA tentam demonstrar força na América Latina, com pressão a países como Panamá e Venezuela e novas tarifas sobre importações.
Enquanto isso, dois países sem relações formais com Pequim foram chamados para o fórum: Haiti e Santa Lúcia, ambos parceiros de Taiwan.
Segundo a Reuters, líderes de ambos estiveram em encontros ao longo dos últimos dias, o que pode acelerar a derrocada diplomática de Taipei na América Latina. Em 2023, os taiwaneses perderam os laços com Honduras. Tirando pequenas nações insulares, apenas Paraguai e Guatemala reconhecem a ilha como país.
Por que importa: a oferta de crédito cria alternativas financeiras para nações endividadas na América Latina e pode aprofundar a dependência econômica da região em relação à China, o que amplia sua influência estratégica em setores críticos como infraestrutura e tecnologia.
Pior para os EUA, que vê sua diplomacia encolher sob a retórica agressiva (e por vezes até xenofóbica) de Donald Trump.
Pare para ver
Cartaz de propaganda maoísta traz os dizeres “Apoiamos firmemente a luta dos povos da Ásia, África e América Latina contra o imperialismo”. Produzida em 1967, a peça faz parte de uma coleção de outros slogans que buscavam colocar a China como pólo dos movimentos de libertação nos países em desenvolvimento contra o bloco capitalista ocidental liderado pelos EUA. Veja outros exemplos aqui.
O que também importa
Um vídeo paródico de um influenciador zombou da suposta derrubada de caças Rafale indianos por aviões J-10C paquistaneses fabricados na China. A publicação viralizou nas redes sociais chinesas. Embalado por uma trilha que adapta a música indiana “Tunak Tunak Tun”, o vídeo ironizou o fracasso dos Rafale no recente acirramento entre os dois países e exaltou o desempenho do J-10C. A diplomacia de Pequim adotou um tom cauteloso sobre o caso, pedindo calma e diálogo entre os dois países.
Um senador republicano apresentou na sexta um projeto de lei que propõe exigir rastreamento de localização para chips de IA sujeitos a controle de exportação. A medida visaria restringir o acesso da China a semicondutores avançados. De autoria de Tom Cotton, um firme aliado de Donald Trump, a “Lei de Segurança de Chips” prevê que os produtos sejam equipados com sistemas para detectar desvios ou contrabando. O presidente dos EUA pretende revogar uma regra da era Biden que limita a exportação de chips de IA aos chineses.
A gigante do delivery chinês Meituan anunciou que pretende investir US$1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) para lançar sua plataforma de entregas Keeta no Brasil. Ao lado de Lula, o fundador da Meituan, Wang Xing, disse que a empresa desenhou um plano de investimentos no Brasil para os próximos cinco anos, que estabelece uma rede nacional de entregas e oferece ferramentas digitais para comerciantes locais. A expansão acontece após a empresa ter alcançado relativo sucesso em outros mercados recentemente, como na Arábia Saudita e Hong Kong.
Fique de olho
A CK Hutchison, conglomerado de Hong Kong controlado pelo bilionário Li Ka-shing, declarou na segunda (12) que a venda de sua unidade global de portos, avaliada em US$ 22,8 bilhões (R$ 124 bilhões), seguirá estritamente as normas legais e regulatórias. O negócio foi alvo de críticas de líderes chineses e dos EUA.
- A venda inclui ativos ao longo do Canal do Panamá, um ponto estratégico que atraiu críticas de Donald Trump;
- As ações da CK Hutchison caíram 0,6% nesta terça-feira (13), em meio às incertezas sobre a conclusão do negócio.
A declaração do conglomerado foi motivada por questionamentos de acionistas e da mídia, antes da assembleia anual marcada para o próximo dia 22. A empresa afirmou que o fechamento do acordo depende do cumprimento de todas as aprovações legais e regulatórias.
Por que importa: a operação coloca em evidência a disputa crescente entre EUA e China pelo controle de infraestruturas estratégicas em regiões sensíveis, como o Canal do Panamá.
A pressão política chinesa sobre a CK Hutchison pode sinalizar um endurecimento das posturas regulatórias acerca de investimentos no exterior, sobretudo em setores considerados estratégicos.
Para ir a fundo
O Mackenzie realiza amanhã (14) uma palestra com o sinólogo Alexandre Coelho sobre o uso da economia como arma geopolítica. O evento acontece na sede da universidade em Campinas, às 07h30. (gratuito, em português)
A Funcex lançou o curso “China: influência dos aspectos culturais nas negociações”, que acontece em 4 de junho, das 8h às 17h, de forma online e ao vivo. O treinamento aborda desde etiqueta em banquetes até estratégias para superar barreiras culturais nas relações comerciais com chineses. Inscrições e detalhes neste link. (pago, em português)




