China supera EUA em influência econômica na América do Sul – 01/02/2026 – Mundo

China supera EUA em influência econômica na América do Sul


Entre uma profusão de dados e conceitos de economia e ciência política, o pesquisador Francisco Urdinez recorre a um fenômeno astronômico para tentar ilustrar o que aconteceu na América Latina neste século.

É que, em um eclipse solar, a Lua, mesmo sendo menor do que o Sol, consegue bloquear toda a luz dele na Terra. Como? Pelo fato de ela, a Lua, estar muito mais próxima da Terra do que o Sol.

O exemplo serve, segundo Urdinez, como uma metáfora para explicar o que ele define como o deslocamento econômico que os países latino-americanos, principalmente na América do Sul, viveram no primeiro quarto do século. Migraram da influência dos Estados Unidos para a da China.

“Da mesma maneira que a Lua tapa o Sol por estar mais próxima da Terra, os chineses, sem terem uma economia maior que a dos EUA, eclipsaram os americanos com presença no continente”, explica à Folha.

Essa proximidade aumentou tanto e tão rapidamente que 10 dos 12 países da América do Sul têm o gigante asiático como país mais influente em suas economias.

Para chegar a essa conclusão, a pesquisa que deu origem ao livro “Economic Displacement: China and the End of US Primacy in Latin America” (deslocamento econômico: China e o fim da primazia dos EUA na América Latina, ainda não lançado no Brasil) criou uma métrica que agrega investimento, crédito, comércio e ajuda externa em relação ao PIB dos países.

Os dados mostram que, em 2001, todos os países da América do Sul eram mais próximos dos EUA. O cenário foi se alterando, principalmente na segunda década dos anos 2000.

A perda de influência no continente está elencada no plano de segurança nacional do governo de Donald Trump, divulgado em dezembro de 2025, como um ponto a ser revertido. Um mês depois, os EUA capturaram o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, agora deposto.

“A resposta americana ao deslocamento econômico migrou da competição econômica, que eles perderam, para a intervenção coercitiva”, analisa Urdinez, que dirige o ICLAC, um centro de pesquisa baseado no Chile que investiga a influência chinesa no continente.

A sua pesquisa expõe a mudança na influência econômica na América Latina. Como e quando ela acontece?

A partir de 2001, quando a China entra na OMC [Organização Mundial do Comércio]. É algo crescente ao longo dos anos neste século, mas eu vejo como momento-chave o ano 2016, antes do começo da guerra comercial no primeiro governo Trump.

Foi ali que os EUA confirmaram que a China não tinha feito nem faria as reformas prometidas para se tornar uma economia de mercado. Os americanos renunciam às instituições que criaram após a Segunda Guerra Mundial e passam a tentar resolver unilateralmente os problemas que identificam.

Ali eles se deram conta de um erro de leitura do início do século. Essa crença quase ingênua de que os chineses seriam moldados ao entrar na OMC impactou a América Latina.

Como isso se deu?

Foi essa China que cresceu e aproveitou o espaço deixado pelos EUA no continente. Mas isso não foi de maneira unilateral, claro. Houve intencionalidade dos países latino-americanos, que viram um parceiro muito interessante para atrair investimento e cooperação.

É isso que às vezes a gente esquece. Parece que a China só projeta uma estratégia na América Latina e somos passivos. Não é verdade. O Brasil, por exemplo, foi um ator muito ágil e ativo em atrair o mercado chinês. Eles passaram a comprar soja, minério de ferro, carne.

O senhor vê influência ideológica nesse alinhamento? Tivemos a chamada “maré rosa”, com governos de esquerda na América do Sul.

A ideologia é um fator secundário. Claro que há alinhamento, você vê Lula como um grande promotor da relação bilateral com os chineses. Mas, ao mesmo tempo, setores muito ligados à direita, como o agronegócio, são os que mais estabeleceram relações comerciais e foram beneficiados por esse deslocamento.

O que há é uma série de vínculos econômicos profundos que são difíceis de serem desfeitos porque você simplesmente não tem para onde vender o que a China compra.

Ao mesmo tempo, não há um investidor alternativo em setores como transição energética e tecnologia das telecomunicações. No final das contas, trata-se de economia.

Como vocês conseguiram comprovar esse deslocamento econômico?

Por meio de uma métrica, o Índice de Peso Econômico, que inclui investimento, crédito, comércio e ajuda externa de EUA e China em relação ao PIB dos países latino-americanos.

Assim, foi possível identificar o deslocamento econômico, qual das duas potências tem maior importância e quando isso se altera.

O que constatamos é que, na América do Sul, 10 dos 12 países se deslocaram para a área de influência econômica da China em 20 anos. Em 2001, todos tinham relação mais relevante com os EUA.

O senhor vê relação da captura de Nicolas Maduro pelo governo Trump com essa perda de relevância dos EUA no continente?

Sim, é um reconhecimento tácito de que os EUA são incapazes de mudar o deslocamento econômico no continente. Reverter isso demandaria uma oferta sustentada e massiva de bens econômicos alternativos aos oferecidos pelos chineses em uma escala que Washington não está disposta a oferecer.

Os EUA hoje carecem de uma infraestrutura institucional para promover suas empresas. Fica difícil recuperar a hegemonia que o país teve no passado, que se baseava em bases econômicas, com a oferta de bens, serviços, crédito e acesso a mercados. Isso foi diminuindo e acabou ocupado por Pequim.

Retomar a influência agora é difícil. A cadeira já está ocupada. E, quando você não consegue concorrer economicamente, tem o seu recurso mais rápido, mais eficaz, que é a força. Nisso, os EUA ainda detêm superioridade.

Isso pode servir de alerta aos outros países?

Na pesquisa para o livro, concluo que a influência regional se constrói fundamentalmente com bases econômicas, quando se oferece acordos de livre comércio, investimentos, financiamento. O uso de alianças de segurança e de ameaças viram soluções com resultado de curto prazo.

E sempre tem o “backlash”, um efeito reverso. Foi assim com a doutrina Monroe, que o governo Trump lembra agora. No fim das contas, se você se comporta como um agressor na região, você acaba queimando sua legitimidade simbólica, política.

Os americanos ainda têm uma grande vantagem de soft power na comparação com a China. O mundo admira os EUA, que são vistos como exemplo de democracia liberal. É para onde as pessoas gostariam de ir passar férias, visitar, estudar. Tem a influência da música, da comida, das instituições. Isso é uma vantagem, mas não é garantia de que ela seguirá para sempre.

O que explica a contração americana?

Primeiro, os EUA mudaram de prioridade nos últimos anos. Se eles tinham 100 fichas distribuídas no mundo, sendo 20 na América Latina, eles deixaram 3 ou 4 aqui e colocaram as 16 restantes em mercados vistos como mais interessantes.

Por um lado, a região perdeu importância para os EUA. Ao mesmo tempo, Washington se contraiu com o fim da Guerra Fria. Isso permitiu à China ganhar presença na América Latina, na África e em alguns países do Sudeste Asiático.

Em um cenário com Trump e o aumento da tensão entre as potências, é possível os países latino-americanos se manterem alheios à disputa?

Isso será cada vez mais difícil. Tenho dúvidas se algum país conseguirá se equilibrar.

O relacionamento dos líderes latino-americanos com a China começou como algo complementar. Ele não substitui as relações com os EUA. Você consegue benefícios com os chineses, mas mantém vínculos de segurança com Washington. Isso funcionou até agora porque a competição era exclusivamente econômica.

Os países podiam comercializar com a China, aceitar investimentos em infraestrutura e participar de projetos no Cinturão da Rota enquanto ainda preservavam a cooperação militar com os EUA.

Mas com Trump, o recado é que economia e lealdade política andam juntas. A resposta americana ao deslocamento econômico migrou da competição econômica, onde eles perderam, para a intervenção coercitiva.

Quais os efeitos disso?

O principal é essa tendência de Washington de exigir alinhamento geopolítico, com ameaça de punição.

Tem um ponto muito relevante e atual que é o efeito da competição tecnológica entre as potências. Isso é bem mais sensível. Estou falando de 5G, inteligência artificial e pagamentos digitais.

As potências passam a exigir escolhas dos outros países. Isso cria uma bifurcação inevitável.

A campanha dos EUA contra a Huawei ilustra como os países são pressionados a fixar um padrão técnico, o que gera implicações em cascata para o desenvolvimento a longo prazo. Se você adota a infraestrutura digital de um, ela pode não se comunicar com a do outro, forçando uma separação sistêmica.

Os países terão que fazer escolhas, definir um lado na disputa. Vai ser difícil escapar dessa lógica de “amigo ou inimigo” que lembra uma Guerra Fria, mas focada no campo econômico, não militar.


Raio-X | Francisco Urdinez

Nascido na Argentina, é professor no Instituto de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica do Chile e dirige o Millennium Nucleus for the Impacts of China in Latin America (ICLAC). É doutor pela USP. De 2022 a 2023, atuou como pesquisador residente no Wilson Center, em Washington. Autor do livro “Economic Displacement: China and the End of US Primacy in Latin America”.



Fonte CNN BRASIL

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