Coiotes dominam fuga de cubanos para o Brasil – 22/02/2026 – Mundo

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“¡Buenos días, grupo! ¡Atención, atención! Promoção especial com segurança, garantia e cuidado humanizado: De Havana até o Brasil. Pacotes para Boa Vista (BR) via Guiana por apenas US$ 1.400. [Fazemos] trâmites de documentos e do CPF!”

Grupos de WhatsApp administrados por aliciadores e coiotes são comuns em Cuba. Neles, é possível encontrar ofertas de agências de viagem irregulares que ajudam os moradores a sair do país sem precisar de vistos de viagem, missão quase impossível para os cubanos.

Se antes o principal destino era a Flórida, enclave da maior diáspora cubana no mundo, a volta de Donald Trump à Casa Branca dificultou a migração para os Estados Unidos e colocou o Brasil na rota de fuga. Em 2025, quase 42 mil cubanos pediram refúgio no país, o dobro do ano anterior e um aumento de mais de 30 vezes em relação ao número de uma década atrás. Os cidadãos da ilha se tornaram os maiores solicitantes de refúgio, ultrapassando venezuelanos.

Enquanto isso, o Sistema de Tráfego Internacional, gerido pela Polícia Federal (PF), que contabiliza quando um estrangeiro chega ao país por uma fronteira terrestre ou aérea, registrou 21,6 mil entradas de cubanos no ano passado, o que indica que imigrantes podem estar entrando no Brasil sem passar por postos de controle, em uma evasão do controle migratório.

No caso do refúgio, o registro é feito pelo ano que o imigrante fez o pedido, o que pode acontecer depois da entrada no país. Ao longo da última década, no entanto, nenhum ano registrou um número de pedidos de refúgio tão superior ao de entradas de cubanos no Brasil. Por outro lado, em alguns anos, houve maior registro de entradas que de pedidos de refúgio, o que mostra que migrantes chegavam de maneira legal, mas não solicitavam condição de refugiados.

As redes de contrabando de imigrantes enxergam no Brasil um destino dos sonhos: com uma política migratória acolhedora desde a segunda metade dos anos 1990, o país permite que o imigrante que pede refúgio acesse direitos como saúde, trabalho e educação enquanto espera a análise do seu pedido.

Assim, enquanto estão no Brasil, cubanos podem juntar economias para depois tentar emigrar novamente. O país tampouco tem políticas de deportação de imigrantes, mesmo para os que não legalizam sua situação.

Mas o Brasil tem se tornado mais cauteloso na concessão de vistos a cubanos ao menos desde os últimos três anos, quando acendeu o alerta para o fluxo migratório. Conforme a lei, e dado que não há acordo de isenção de visto entre as nações, os moradores da ilha precisam comprovar meios de subsistência para o tempo que dizem que ficarão no país, tarefa inimaginável para a maioria. Recorrem, então, aos coiotes, que orientam os migrantes a viajar primeiro para nações vizinhas do Brasil que excepcionalmente não exigem visto de turismo. A Guiana tem sido a principal.

Imersa em um boom petroleiro desde 2015, após a descoberta de enormes reservas offshore do produto, o país tem interesse em receber os cubanos que chegam pela capital, Georgetown. Alguns, afinal, ficam na Guiana e atuam como mão de obra no setor de construção civil, em crescimento pelo aumento da demanda de infraestrutura. A enorme maioria, porém, segue para o Brasil.

Com valores que vão de US$ 1.000 a US$ 4.000 (em torno de R$ 5.200 a R$ 20.800), muitos pacotes incluem passagens de companhias aéreas caribenhas, como a dominicana Sky High e a InterCaribbean. O combo inclui a viagem aérea para a Guiana e o transporte de carro até o Brasil, na maioria das vezes para Boa Vista, capital de Roraima.

Redes de coiote tendem a buscar pontos da fronteira não monitorados, como as chamadas “trochas” (trilhas e atalhos pelo meio da vegetação para contornar postos de controle) na cidade de Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela, para fazer a travessia dos cubanos. Podem ser pontes, zonas de mata ou simplesmente postos com ausência da PF ou de outra autoridade. Uma vez que estão no país, esses imigrantes tendem a pedir refúgio imediatamente. Como se fossem despachantes, coiotes até orientam sobre o trâmite que deve ser feito na PF.

A PF afirma ter realizado 113 operações de combate ao contrabando de imigrantes nos últimos quatro anos, metade delas somente no ano passado, e ter identificado 137 vítimas do crime, todas elas estrangeiras. A instituição, porém, diz não recolher dados sobre a nacionalidade dessas pessoas, elemento-chave para a construção de políticas de combate ao crime. A informação foi obtida pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação.

Em colapso econômico constante e catalisado desde o início deste ano com o fim do apoio da Venezuela, Cuba convive com êxodo populacional histórico. As rotas de migração mudam de tempos em tempos para, no linguajar dos coiotes, evitar pontos que já estejam “queimados”, ou seja, nos quais as autoridades locais tenham passado a atuar para coibir esses fluxos.

Até 2025, cubanos iam primeiro de avião a Paramaribo, capital do Suriname, onde um coiote os esperava para transportá-los por terra pela amazônia até a Guiana Francesa. De lá, cruzavam para o Brasil por Oiapoque (AP), cidade na qual houve o maior número de registros de entradas de cubanos no território brasileiro no ano passado.

Nas últimas semanas, excepcionalmente, muitos voos têm sido cancelados, levando os cubanos à frustração. Os aviões não têm como decolar devido à queda drástica de abastecimento de petróleo nos últimos dois meses, quando a Venezuela, o principal fornecedor, praticamente interrompeu seus envios.

O cubano Juán Ariel Saldivar, 53, conta que, quando foi abordado por agentes de segurança cubanos e acusado informalmente de “haber jodido mucho” (termo de baixo calão que pode ser traduzido como ter feito muita besteira), foi orientado a deixar a ilha caso não quisesse ser preso. Então buscou os coiotes: “Sem visto, era a única forma de sair do país.”

A solução foi voar ao Suriname no final de 2024, onde relata ter visto os coiotes subornarem policiais locais com US$ 50 (R$ 260), e, de lá, ser levado em vans com cerca de oito pessoas para a Guiana Francesa e depois ao Brasil, pelo Oiapoque. Dali, embarcou em uma viagem de cinco dias de barco até Manaus. Preço total: US$ 1.150 (em torno de R$ 6.000).

Como muitos, porém, Juán viu no Brasil apenas um corredor de passagem. Ficou no país por três meses e, incomodado com o baixo salário trabalhando em um lava-rápido e com os alegados calotes dados pelo patrão no acerto de contas, decidiu partir para outro destino muito falado nos grupos de coiote, o Uruguai.

Enquanto ao menos 21,6 mil cubanos entraram no Brasil em 2025, quase 15 mil saíram. Os dados não são individualizados por pessoa —podem, portanto, estar contabilizando entradas e saídas de um mesmo migrante várias vezes, mas dão um panorama importante: boa parte dos cubanos não chega para ficar.

O principal ponto de saída é Santana do Livramento (RS), pequena cidade da fronteira na qual é difícil saber onde fica a divisa com a uruguaia Rivera. Por ali, 5.400 cubanos saíram do Brasil apenas no ano passado.

Assim como no Brasil, cubanos se tornaram também o maior grupo de solicitantes de refúgio no Uruguai. Somente no ano passado, o país vizinho registrou 15 mil pedidos. Os imigrantes relatam buscar o país pelo idioma em comum, o espanhol, pela fama uruguaia de ter um Estado de bem-estar social desenvolvido e pela agilidade para conseguir documentos.

O aumento expressivo da migração também tem transformado essa realidade. “O processo de legalização do imigrante antes era rápido, mas agora está colapsado, porque a quantidade de migrantes chegando ao ‘paisito’ é muito grande”, diz Yanitze Gutiérrez Malave, venezuelana e fundadora da UruVene, organização que há oito anos trabalha no apoio a migrantes no país de 3,4 milhões de habitantes.

Diretor do escritório do Acnur, a agência da ONU para refugiados, no Uruguai, Juan Ignacio Mondelli explica que cada vez mais famílias cubanas têm imigrado, em grupos de quatro e cinco pessoas, em travessias coletivas com os coiotes que chegam a custar US$ 15 mil no total.

Se por um lado os casos de xenofobia são raros, diz ele, por outro a inserção dos imigrantes tampouco é fácil: a capital Montevidéu é uma das cidades com maior custo de vida na América Latina, e muitos imigrantes com mão de obra qualificada terminam trabalhando por bastante tempo como entregadores até conseguirem validar seus diplomas.

O governo uruguaio vê com bons olhos a migração. Uma autoridade migratória próxima ao presidente Yamandú Orsi diz à reportagem que o objetivo do país é facilitar a entrada de cubanos que tenham familiares já residentes no Uruguai. A possibilidade de viajar com vistos de reunião familiar evita que essas pessoas recorram a coiotes para chegar a Montevidéu. Para isso, porém, seria necessário aumentar a capacidade da embaixada do país em Havana, o que tem sido difícil pela crise de abastecimento na ilha.

A mesma autoridade menciona que, não fossem os imigrantes, a população uruguaia só estaria decrescendo. Em 2023, quando foi divulgado o último Censo, a população do país havia crescido menos de 1% nos últimos 12 anos. Eles também têm contribuído cada vez mais com o sistema de previdência social, uma pedra no sapato da administração local, já que a população está envelhecendo. Em 2025, o país registrou mais mortes do que nascimentos.

A incerteza do que acontecerá em Cuba nas próximas semanas com o fim do apoio venezuelano e a pressão dos EUA gera indefinição sobre o futuro do fluxo migratório. Em muitos outros momentos, a migração foi usada como válvula de escape para o regime comunista, que permitia a saída de mais cubanos para aliviar o peso da demanda estatal. Com cada vez menos voos, porém, sair da ilha tem se tornado uma tarefa cada vez mais complicada.



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