Em novo desdobramento da crise diplomática entre Colômbia e Equador, cujos governos estão em lados opostos do espectro ideológico, o presidente colombiano, Gustavo Petro, ordenou o retorno imediato da embaixadora de seu país em Quito, María Antonia Velasco, após o líder equatoriano decidir aumentar para 100% as tarifas sobre produtos importados do vizinho.
As medidas elevam a tensão na região. Na diplomacia, o gesto de convocar um embaixador significa descontentamento. A crise entre os países vem se intensificando nos últimos dias, desde que Quito passou a acusar Bogotá de interferir nos assuntos internos equatorianos.
O presidente do Equador, Daniel Noboa, disse que as tarifas serão aplicadas em resposta à falta de ação concreta de Bogotá para reforçar a segurança na fronteira comum, de cerca de 600 quilômetros, onde há atuação de grupos envolvidos com tráfico de drogas, armas e mineração ilegal. Segundo o equatoriano, será necessário o investimento adicional de US$ 400 milhões para reforçar a vigilância no local.
Petro reagiu com dureza, chamando a medida de monstruosidade e sugerindo que acordos comerciais na região perderam valor. Ele também convocou ministros para uma reunião em um ponto da fronteira e levantou a possibilidade de o país deixar a Comunidade Andina de Nações, bloco que inclui ainda Peru e Bolívia. Em paralelo, indicou interesse em aprofundar a integração com o Mercosul.
O Equador, cujo líder de direita Noboa se alinhou estreitamente com os Estados Unidos, tem entrado em conflito com frequência nos últimos meses com a Colômbia, de Petro, esquerdista e adversário de Donald Trump. Na segunda (6), o colombiano defendeu a libertação do ex-vice-presidente equatoriano Jorge Glas, preso por corrupção, a quem chama de “preso político”.
A declaração levou Quito a também retirar seu embaixador em Bogotá e a suspender grupos de trabalho sobre comércio, energia e segurança.
Em outro episódio que aumentou a tensão, autoridades colombianas afirmaram no mês passado que uma operação de segurança do Equador resultou na morte de 14 pessoas em território próximo à fronteira, com explosivos que teriam atingido área colombiana. Quito sustenta que a ação ocorreu dentro de seu país e investiga como o material chegou ao vizinho.
Do lado equatoriano, a avaliação é de que não há compromisso suficiente por parte da Colômbia no combate ao narcotráfico na fronteira. Já Bogotá diz que há operações conjuntas regulares com forças de segurança equatorianas e rejeita as acusações.
A disputa comercial entre os dois países já vinha se intensificando desde o início do ano. O Equador aumentou de forma progressiva as tarifas —de 30% em janeiro para 50% em fevereiro, até chegar agora a 100%. Bogotá respondeu com medidas recíprocas e suspendeu o fornecimento de energia ao país vizinho.
Autoridades da Colômbia classificaram a decisão de “agressão clara”. O ministro de Energia, Edwin Palma, criticou Noboa por, nas palavras do colombiano, adotar uma postura de confronto em vez de buscar soluções conjuntas, especialmente em um momento de fragilidade energética no Equador.
A crise tem impacto direto no comércio bilateral. Empresários afirmam que a tarifa de 100% inviabiliza as trocas entre os países. O Equador depende da Colômbia para importação de medicamentos e pesticidas, entre outros itens.




