A Colômbia inicia neste domingo (8) um novo ciclo eleitoral que pode colocá-la na contramão da América do Sul, com eleições legislativas e algumas primárias em partidos e coalizões menores que ainda não definiram seus candidatos à Presidência.
Enquanto vários países da região têm assistido ao avanço de candidaturas de direita ou de extrema-direita, o país andino se aproxima da disputa pelo cargo mais alto (em 31 de maio, com possivel segundo turno em 21 de junho) com chances reais de que o próximo governo seja novamente de esquerda ou de centro-esquerda.
Entre outras coisas, isso demonstra que apesar da má imagem internacional do atual presidente Gustavo Petro, este tem agradado boa parte de seu eleitorado, principalmente nos rincões e na costa do país, onde não prevalece a opinião de meios de comunicação pertencentes a grandes grupos empresariais e a oposição, cuja parte significativa vive na Flórida e influencia a opinião de Marco Rubio e seu grupo contra o primeiro presidente de esquerda que o país já teve.
O primeiro teste ocorre neste domingo, quando os colombianos vão às urnas eleger um novo Congresso. São uma espécie de ensaio geral para a disputa presidencial.
De modo geral, segundo pesquisa Invamer, a mais respeitada do país, o Pacto Histórico, coalizão que respalda o presidente Gustavo Petro, se consolidaria como primeira força para o Senado, com 28,2% da intenção de voto. O Centro Democrático, liderado pelo veterano caudilho de direita Gustavo Uribe, alcançaria apenas 17,6%. Para os deputados, o cenário segue incerto, com altíssima fragmentação.
O sistema eleitoral colombiano tem uma particularidade que costuma confundir observadores estrangeiros. No mesmo dia em que escolhem deputados e senadores, os eleitores podem participar também de consultas internas ou interpartidárias (algo parecido com as primárias) para definir candidatos presidenciais. As consultas partidárias ocorrem dentro de um único partido. As interpartidárias envolvem coalizões de diferentes legendas.
Mas, nesta eleição, esse mecanismo terá impacto limitado na definição dos nomes mais competitivos. Os três presidenciáveis que hoje aparecem mais bem posicionados nas pesquisas não participam dessas consultas, porque já foram escolhidos diretamente por seus grupos políticos.
Um deles é o senador Iván Cepeda, figura central da esquerda colombiana e aliado do presidente Gustavo Petro. Entrevistei Cepeda às vésperas da eleição de Petro, em sua casa. Cepeda tornou-se um dos nomes mais conhecidos da política do país ao fazer as primeiras denúncias de corrupção que levaram à condenação do ex-presidente Álvaro Uribe. Sua trajetória também é marcada por uma tragédia que lembra o passado sangrento do país. Seu pai, o senador Manuel Cepeda Vargas, da União Patriótica, foi assassinado por paramilitares em 1994.
Uma eventual vitória de Cepeda seria interpretada como uma espécie de referendo político positivo ao governo Petro. O atual presidente tem enfrentado críticas internas e desconfiança internacional, mas sua base social permanece relevante e organizada.
Outro nome importante é Sergio Fajardo, ex-prefeito de Medellín e ex-governador de Antioquia, que representa o centro. A presença competitiva de Fajardo revela uma das particularidades da política colombiana: ao contrário do que ocorre em muitos países da região, onde o centro praticamente desapareceu, na Colômbia ele ainda mantém peso eleitoral e capacidade de articulação.
No outro extremo está Abelardo de la Espriella, advogado penalista alinhado ideologicamente a figuras como Javier Milei, Jair Bolsonaro e Donald Trump. Apesar da visibilidade midiática, aparece por enquanto com menos chances que seus rivais.
Por isso, embora a disputa legislativa e as consultas deste domingo sejam importantes para medir forças, o quadro presidencial parece relativamente claro. E ele sugere um cenário que contraria a tendência regional: a Colômbia pode terminar elegendo novamente um candidato de esquerda ou, no máximo, de centro.




