Colono israelense espanca cadela na Cisjordânia – 06/06/2026 – Mundo

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A crueldade tornou-se rotineira na Cisjordânia ocupada, onde colonos israelenses extremistas espancam e atiram contra palestinos, roubam seus rebanhos, arrancam oliveiras e incendeiam carros e casas. Esses colonos, que infringem a lei de múltiplas formas, raramente respondem por seus atos.

Ainda assim, mesmo para palestinos que vivem sob ameaça constante de ataques, algumas formas de violência conservam a capacidade de chocar.

Foi o que aconteceu quando um vídeo viralizou ao mostrar um colono ameaçando uma cadela de um ano e meio com dois cassetetes —e golpeando-a com força na cabeça.

Nas imagens, a cadela, uma pastor belga malinois chamada Lucy, uiva de dor e tenta fugir. Mas estava presa por uma corrente a uma oliveira para ficar à sombra em uma tarde de calor.

O que se segue, registrado pela família palestina dona do animal, moradora da aldeia de Atara, é difícil de assistir e de descrever.

Até pouco tempo atrás, a violência em Atara seguia um roteiro mais habitual, voltado a expulsar palestinos de suas casas e terras agrícolas para que colonos judeus avançassem sobre territórios árabes.

Um grupo de jovens colonos instalou um posto avançado ilegal, chamado Kfar Tarfon, no verão passado a cerca de 1,2 km da casa da família Abu Rejalah, nas colinas de Atara, ao norte de Ramallah.

Eles atiravam pedras nos carros dos palestinos na estrada principal da aldeia, segundo testemunhas. Assediaram um pastor beduíno até ele desistir e partir. Moradores disseram ter ficado com medo, no outono passado, de colher centenas de oliveiras situadas logo abaixo do posto avançado.

Em seguida, os colonos voltaram a atenção para a família Abu Rejalah —que está crescendo, não fugindo, à medida que os sete filhos de Hassan Abu Rejalah, 50, começam a se casar e ter filhos. A casa em expansão da família, uma construção de três andares ainda em obras, é visível do Kfar Tarfon, do outro lado de um pequeno vale.

Os colonos conduziam seus rebanhos pela pequena propriedade da família na encosta, destruindo plantações, segundo Hassan, dois de seus filhos e outros parentes. Chegavam até a porta da casa como se fossem donos, roubavam hortaliças e danificaram o portão da entrada em plena visão das câmeras de segurança.

Além disso, acusaram dois membros da família de os terem atacado, segundo Hassan. A família negou. Em 9 de janeiro, soldados israelenses prenderam seus filhos Ibrahim, 31, e Daoud, 26. Os dois foram espancados pelos militares, levados a uma delegacia israelense, mantidos numa prisão por cinco dias e depois soltos sem acusação formal, relatam Ibrahim e o pai.

Consultado sobre as prisões, o Exército israelense confirmou que soldados detiveram palestinos após um civil israelense relatar que eles lhe teriam atirado pedras, mas não respondeu se os palestinos foram agredidos. Disse que foram entregues à polícia, que não respondeu às perguntas sobre o caso.

Esse tipo de experiência é comum para palestinos em toda a Cisjordânia ocupada. O que é incomum é a crueldade contra animais.

No outono passado, um vizinho dos Abu Rejalah que mora mais perto do posto avançado dos colonos encontrou um burro morto pendurado em uma de suas oliveiras, segundo moradores —episódio citado como um dos motivos pelos quais os aldeões abriram mão da colheita anual de azeitonas, tradição central da vida palestina e importante fonte de renda.

Membros da família Abu Rejalah afirmam que, em 18 de fevereiro, encontraram um colono pastoreando suas ovelhas em sua propriedade e atirando pedras em outro cachorro, Angel, de raça mista com malinois. Dois dias depois, o animal morreu em decorrência dos ferimentos.

O ataque não foi fotografado. Mas em 14 de maio, quando um colono apareceu na casa da família e atirou uma pedra na janela, Ibrahim Abu Rejalah o filmou de dentro da casa e acionou a polícia israelense e os serviços de segurança palestinos. Soldados israelenses chegaram logo, acrescenta ele, e mandaram o homem embora.

Ibrahim diz que as autoridades israelenses e palestinas o avisaram: “Enquanto eles estiverem por perto, não saiam de casa.”

O mesmo colono —identificado pela polícia— voltou no dia seguinte, por volta das 18h. Ninguém saiu. Dois membros da família pegaram seus celulares e começaram a filmar.

Nos vídeos, verificados pelo New York Times, o jovem, de capuz, carrega um cassetete de madeira e é acompanhado por dois cães brancos. Ele anda de um lado para o outro, observando as janelas da casa. Depois desce até a oliveira onde Lucy está presa. Por perto, outro cão da família, Cheetah, sem coleira, lhe fazia companhia.

O homem pega uma pedra e a arremessa contra um dos cães. Cheetah, ferido, foge. Lucy não consegue.

O homem, agora com um cassetete em cada mão, começa a espancar o animal com força. A cadela tenta colocar a árvore entre ela e o agressor. Ele contorna o tronco para atingi-la. Ao vê-la ferida, avança.

Desfere golpes duplos na cabeça do animal. É só ao décimo sétimo golpe que a cadela desaba. O agressor não para. Bate mais nove vezes.

Ibrahim diz ter ligado para a polícia israelense durante o ataque e ter ouvido que soldados seriam enviados imediatamente. A polícia e os militares, diz ele, só apareceram dias depois.

Consultada, a polícia israelense afirmou em nota que só soube do episódio depois que o vídeo viralizou, disse que a investigação foi intensiva e pediu que o agressor “se entregue, pois o longo braço da polícia vai alcançá-lo.”

O Exército israelense, em nota separada, classificou o Kfar Tarfon de “posto avançado ilegal” e afirmou que há expectativa de que seja desocupado.

Dois homens abordados por repórteres do New York Times no posto dos colonos se recusaram a comentar. Ao ver uma imagem do vídeo do ataque e ser questionado sobre a identidade do agressor, um deles ficou em silêncio e se afastou.

A cadela sobreviveu. Seu crânio fraturou em apenas dois lugares, sob um corte de dez centímetros, segundo o veterinário Ashraf Shiban, de Rama, no norte de Israel. O tratamento está sendo custeado por um grupo israelense de resgate animal.

Lucy perdeu a visão do olho esquerdo, mas Shiban relata que ela já estava se alimentando novamente. Com o tempo, afirmou, deve se recuperar.

Membros da família Abu Rejalah afirmam temer novos ataques dos colonos do Kfar Tarfon, sobretudo agora que falaram publicamente. Demonstraram pouca confiança de que o agressor será punido.

Mas pareciam igualmente incrédulos com o fato de o ataque ter acontecido. “Trabalhei por anos dentro de Israel”, diz Hassan Abu Rejalah. “Todo mundo tem um animal de estimação, um cachorro ou um gato. Eles adoram animais.

“O que os levaria a fazer isso, senão querer assustar as pessoas?”



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