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O conflito no Oriente Médio, que se arrasta desde outubro de 2023, ganhou novas dimensões neste ano com a deflagração da guerra no Irã. Nesta semana, a pressão sobre a região aumentou ainda mais sob promessas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de “destruir uma civilização inteira” para forçar a reabertura do estreito de Hormuz —rota marítima utilizada para otrânsito de 20% do petróleo e gás natural liquefeito do mundo.
O republicano recuou novamente e aceitou nesta terça-feira (7) uma proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo de duass emanas na guerra contra o país persa iniciada no dia 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel.
Enquanto isso, o frágil cessar-fogo entre Israel e o Hamas completa seis meses nesta sexta-feira (10) sob acusação de violações de ambos os lados e uma Faixa de Gaza completamente arrasada por dois anos de bombardeios e incursões militares.
A turbulência política não é exclusividade da região, embora os olhos e câmeras estejam virados para ela neste momento. Segundo o Global Conflict Tracker, do Council on Foreign Relations, há atualmente 25 conflitos ativos ao redor do mundo.
Quando uma guerra irrompe, toda a população é impactada de alguma forma. Há, apesar disso, alguns impactos sentidos prioritariamente —ou exclusivamente— pelas mulheres. Elas são as mais afetadas, por exemplo, pela interrupção de serviços de saúde sexual e reprodutiva.
A destruição de infraestrutura de saúde, como hospitais, os cortes de energia e o fechamento de fronteiras bloqueando a entrada de insumos significam falta de atendimento para mulheres grávidas. Em 2025, a UNFPA, agência de políticas populacionais e reprodutivas da ONU, emitiu um comunicado de alerta sobre a situação das gestantes em Gaza.
Em um dos casos relatados, a mulher teve que dar à luz sozinha por falta de acesso aos poucos e superlotados serviços de saúde que se mantinham ativos durante a guerra.
A situação agora se repete em Cuba, que, embora não tenha visto conflito armado —apesar das ameaças de Trump de que isso pode mudar em breve— vive uma situação dramática de racionamento devido a um bloqueio quase total imposto pelo presidente americano.
Uma reportagem da BBC Brasil mostrou que as grávidas são impactadas pela fome e pelos constantes e prolongados apagões. Segundo a UNFPA, cada refeição perdida por uma gestante aumenta o risco de aborto espontâneo, parto prematuro e malnutrição da mãe e do feto.
Além dos cuidados reprodutivos em xeque, as instabilidades políticas e principalmente os conflitos armados tendem a piorar problemas de gênero estruturais, como a violência sexual e doméstica. Na República Democrática do Congo, por exemplo, onde milícias rebeldes e o governo se enfrentam desde 2025, a violência sexual cresceu, segundo a ONG Human Rights Watch.
A organização paramilitar M23, apoiada pelo governo da vizinha Ruanda, tem usado o estupro como arma de guerra —o que, aliás, não é uma novidade. O hábito de violentar as mulheres do inimigo, como tática de dominação ou comemoração de vitória, é tão antigo quanto a própria guerra. A Ilíada descreve a tomada das mulheres de Troia como parte integrante da conquista pelos gregos.
De volta ao Oriente Médio, o repórter da Folha Renan Marra mostrou nesta segunda-feira (6) outro impacto da guerra primariamente voltado às mulheres. Com a intensificação de bombardeios israelenses contra o Líbano, trabalhadoras domésticas imigrantes se veem presas em um país distante, sem apoio do Estado e abandonadas pelos patrões.
Muitas delas deixaram países que também passavam por instabilidade política, em busca de melhores condições. Nos Estados árabes (classificação que exclui o Irã, que é persa), a Organização Internacional do Trabalho estima que 6,6 milhões de pessoas atuavam no trabalho doméstico. O setor representa 32% do trabalho feminino na região, e 83% dos trabalhadores são imigrantes.
Embora sejam minoria nos fronts militares, as mulheres são duramente atingidas pelos conflitos que assolam o planeta. Seja pela falta de acesso à saúde, pela violência ou pela precarização do trabalho, elas terminam na linha de frente das crises, em uma lógica que se repete em diferentes paisagens e com desigualdades pré-existentes que se aprofundam.




